domingo, 22 de dezembro de 2019

Francisco Bernnand.

A notícia da sua morte, aos 92 anos, trouxe-me logo à memória o nosso encontro com ele, os primórdios da nossa amizade, o gosto em me dares a conhecer o que de melhor a cultura pernambucana tem: o teu Recife, complementado com as gilbertianas leituras, literalmente, de quem nele nasceu e viveu: O Recife, Sim! de Gilberto Freyre.

Quem foi Híera?
Poucos anos depois, sozinho, no intervalo de uma segunda a quinta-feira, deambulei pela cidade, inconsciente dos riscos: o acaso me protegeu enquanto andava distraído... [Epitáfio de Titãs]: viajando de ónibus, de Nikon na mão, pelo Mercado de São José, no Marco Zero, onde, imponente, ao longe Francisco se mostra, ou na Sinagoga Kahal Zur Israel, onde acabei por passar a tarde em amena conversa... não me recordo do seu nome. A ida de mototáxi até ao Instituto Ricardo Brennand [seu primo, que este ano conheci, na companhia da Roberta, Gustavo e Danielle], ou o azul... lindo... sublime... do mar contemplado da Catedral de Olinda, a fazer esquecer tudo, até o emplastro de guia turístico, que faz pela vida, e por isso lhe perdoo e aceito tacitamente os seus [im]préstimos: é que aquele azul pede silêncio, desprendimento, esquecimento... de mim, do mundo... solar silêncio... solar do meu silêncio... azul que apetece vestir nu num banho de mar, imaginado ao longe, no burel da minha alma que julgo franciscana.


Estávamos com 36 anos, Francisco com 76. Com o ingresso foi-nos distribuído o seguinte folheto, que ainda guardo religiosamente:


A marca de água é o símbolo Ofá [arco e flecha] do candomblé, presente também no "remendo" do joelho direito das calças, uma referência ao orixá da caça: Oxóssi. Mais uma ponta que haveria de explorar, em ligação com Salvador da Bahia de Todos os Santos, que por várias vezes me deste a conhecer. Pelo caminho aprendi a gostar de Chico Buraque... as letras... as letras... as letras... mas ainda tenho em falta uma visita a um terreiro de candomblé.

Chegámos à Oficina Brennand pouco antes das 13h, do primeiro de julho de 2003, passaram dezasseis anos [custa menos por extenso].


Fotografei pouco: a obsessão [agora ou nunca] pela captura da imagem, turva a compreensão visual, e o resultado final quase sempre um amontoado caótico de fotogramas, sem grande préstimo, de difícil relacionamento posterior.

Recordo vagamente que havia um compromisso, e o tempo de visita condicionado por esse facto, mas deu para desfrutar dos amplos espaços a céu aberto. No desnorte caótico de formas ovóides e fálicas, datadas e incompreensíveis para o meu entendimento e gosto, à data, procurava alguma orientação nas linhas rectilíneas das antigas instalações fabris, e painéis com alguma citação:



'A ARQUITETURA ETERNIZA E GLORIFICA ALGUMA COISA.
POR ISSO NÃO PODE HAVER ARQUITETURA ONDE NÃO HÁ
NADA A GLORIFICAR'.


LUDWIG WITTGENSTEIN

Aqui, nas palavras do seu amigo paraibano Ariano Suassuna, que em 1997 escreveu Brennand e eu, no Jornal do Commercio:



O contraste acolhedor, porque mais perto do meu entendimento, mesmo sabendo que este foi um vil mundo maquinal, das naves fabris e dos que nelas então manufacturavam :



E o ambiente fantasmagórico, incompreensível, a céu aberto, em que me sentia abandonado de um entendimento para a urgência do momento.




Mas em que não pude ficar indiferente à monumentalidade, porque há sempre a inevitável comparação de escalas: com a nossa figura...





E os ecos de outras obras, em latitudes diferentes...

E que mais não são do que a minha incompetência para agora vos apresentar a obra do artista. Faz-me falta voltar, ler mais sobre a sua obra, assentar arraiais, in loco, para calmamente parir pensamentos. E tudo isto me dá imenso prazer. Obrigado Francisco!

Um rosto velho é, pela sua própria natureza, expressão e desengano, e quando encabeça uma vida conseguida / realizada, é um triunfo, [AQUI] capturado pela Andréa Rêgo Barros:



Ou o visionário sincrético, [AQUI] fotografado por Rafael Martins:




Que mesmo no fim ainda quer ver mais além, ou talvez não, porque estou a forçar um entendimento, ou talvez a preparar a minha adaptação à ideia de finitude. É assim, pensamos no passado quando nos acontecem coisas.

À falta de melhor que vos possa dar, remeto-vos para as seguintes leituras:

Infelizmente encontra-se esgotado na editora o Diário de Francisco Brennand [quatro volumes em caixa]. Importante testemunho que muito quero ter-ler.

Claro está, que tudo o que acabo de escrever é uma reconstrução-efabulação, que aflorou hoje das calendas do inconsciente onde se encontrava.

Clayton... foste o catalisador, és um grande amigo, e à muito que estava em falta para contigo, aqui neste espaço.


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Post scriptum
Estou em falta com mais amigos e familiares.

1 comentário:

  1. Estas recordações são expressões culturais que marcam, indelevelmente a nossa alma.
    Francisco Brenannd foi um marco na história da cultura de Pernambuco, e porque não dizer, do Brasil.
    Foste agraciado por estar, por duas vezes com ele.
    Tua vinda esse anos, foi providencial, pois tiveste oportunidade de se "dispedir" deste que ficará marcado na nossa história cultural.
    Você é um felizardo.
    Parabéns por esta homenagem que prestas ao mestre Brenannd;

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