domingo, 17 de maio de 2020

Bilhetes de Colares.

Assinava-os como A. B. Kotter, e durante muitos anos li-os acreditando que era um inglês, mais um, dos que se encantaram por Sintra, e pelo nosso país, perspicaz observador da terra e das gentes, com a particularidade de ser cliente do Bananeiro em Colares, facto que denunciava de vez em quando nos seus Bilhetes, e que constituía motivo acrescido do meu interesse, pois o Sr. João Fernandes Evangelista [se a memória não me falha], o Bananeiro como era conhecido, madeirense, talvez de Santana, especulo eu, porque tinha um cartaz emoldurado da freguesia, era por sua vez nosso cliente. Na sua loja era ponto assente: bananas da Madeira e vinho de Colares, réstias de alhos e cebolas, as preferidas do meu pai, as mais diversas hortaliças e frutas, de que destaco peras, pêssegos e maçãs, tudo da região, e que fariam também as delícias do Dr. Kotter, imaginava eu. Mercearia e charcutaria, fina no esmero e qualidade dos seus produtos.



O Bananeiro era nosso cliente de longa data, e a minha adolescência decorreu a trabalhar com o meu pai nas férias grandes, fornecendo produtos de charcutaria, queijos, conservas, e por lá encontrei a D. Fernanda e o Sr. Manuel, filha e genro do Sr. Fernando [as pessoas tratavam-no assim], as empregadas D. Rosa, que me viu crescer, e a Cidália, pouco mais nova do que eu,  que também estava a crescer, estimada pelo Sr. Fernando por ser trabalhadora, aprendia rápido e atendia bem os clientes.

O Pomarinho da Várzea dá seguimento ao legado do Bananeiro, o seu neto Pedro, a esposa Micaela, e restantes familiares, continuam com o negócio, e nós continuamos a fornecer. Como escreveu o Dr. Kotter "tenho contas no Espírito Santo e no Bananeiro". A agência já não existe, o embaixador partiu hoje, e em longínqua memória esperava cruzar-me com o Dr. Kotter no Bananeiro, o que nunca aconteceu. Cresci a ler os seu Bilhetes.



Ainda guardo jornais com os seus Bilhetes [na urgência de escrever não os fui procurar no amontoado de jornais, que por alguma razão em especial guardo], e só descobri que era heterónimo do embaixador José Cutileiro, irmão do escultor João Cutileiro, quando foram reunidos em livro, primeiro pelo jornal O Indendente, depois pela Assírio & Alvim.




Estou tentado: o que tenho não tem tudo, é mais passado vivido, ou o que escreveu mais recentemente, e que não li...

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Post scriptum


Verão para mim é sinónimo de frescura na água represada, parcimoniosamente liberta para o leito, em direção à Praia das Maçãs, e brisa agitando as folhas dos plátanos que ladeiam a Alameda Coronel Linhares de Lima, a "Adéga Regional de Colares", as Caves Visconde de Salreu [a chegar ao centenário], a Toca, na Várzea de Colares e Banzão, onde fica o Pomarinho. Pena que é quase sempre em trabalho, e nunca consegui ter uma casa por cá. É sem dúvida o trajeto mais bem querido da minha vida passada, e continuo a sentir um conforto tão grande quando a cruzo em direção ao mar, mas também em sentido contrário, embicando para a Estrada Nova da Rainha, atravessando a Serra de Sintra em direção à vila, o que já não é possível.

Escolher um local para o topónimo, Kotter ou Cutileiro [o Beco do Kotter, com souplesse & frolic], em Colares de preferência, talvez não seja despropositado. A ver vamos.

domingo, 3 de maio de 2020

NADA[S]_MEU[S]_0018_COR ACHADA.

Encontrei esta cor perdida, vindo de uma transferência. Acontece que ela se me está a escapar. Era mais bonita. Peguei na lanterna para a procurar...


Ah... a falta que o sol e o tempo me faz.






Folha de acobreado a fixar.

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Post scriptum


Quando estou verde é porque guardo para mim as outras cores, haja sol e calor, vou-me criando até que chegue o fim. Dou então a vez às outras: o alaranjado caroteno, o vermelho da antocianina,  o amarelo das xantófilas, e azuis até, das antocianinas, por fim o tanino castanho.


Mas não é só capricho alquímico, apetites vorazes podem explicar porque há tamanha paleta. [escrito com base na informação recolhida AQUI]


Clorofila em ciclo, AQUI, nas palavras do meu querido Primo Levi [tu não te suicidaste].



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Post post scriptum


Depois DESTE assalta-me a vontade de ler, talvez renascer [AQUI]...


na estética do belo e do feio [AQUI ou AQUI]...


procurando Graças [AQUI]... Sofonisba... a princípio só estranha palavra...


Virá resposta...

Cachimbando um bom POEMA...

sexta-feira, 1 de maio de 2020

NADA[S]_MEU[S]_0017_METÁFORA DE UM CAMINHO.

Um segmento de recta com as prováveis, desejáveis e imprevisíveis, curvas e cores, altos e baixos, sem grande aparato no horizonte, escorreito e arejado, por onde passam poucas pessoas, e construções somente nas extremidades, propício ao cultivo da misantropia.



Não passo, vou em deslizante rolagem de quem procura subtilezas, e atalho no caminho, sem tempo para parar [ó contradição... contrição]. No passado foi ASSIM, ontem foram as madressilvas... viçosas, não há tempo, é agora...




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Incompreensivelmente, não os tenho por conhecidos, e dos respectivos automóveis apenas uma visão fugidia, buzinaram-me por duas vezes... irritaram-me! conseguiram?


E no regresso...




A desconhecida que tem o dom da chave...




Feitas para os mais diversos olhos e outros sentidos...




Soube depois que são malvas, sylvestris ou neglecta, ainda estou na dúvida, mas são as familiares malvas que em criança os meus pais me aplicaram [folhas secas fervidas em água, a água de malvas], para aliviar/curar alguma maleita.


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Post scriptum

Descobri hoje que um dos meus cantinhos favoritos também é projeto de Raúl Lino.

A Paixão da Tipuana.

Local de passagem, ilhéu de sombra e cor, verde contracorrente de estações trocadas e atapetamentos dourados, tudo a seu tempo, e conforme os tempos, o sempre [des]igual.

Fotos de outro local... a biosfera é um continuum cíclico de desprezo pelo indivíduo, implacável com a morte: senão aqui, noutro lugar, de outra forma.

Ao centro, escultura de Mestre Carlos Vizeu, qual soldado gigante da Airfix emboscado na floresta, formando um todo ao deus-dará, que desperta enlevos de ambiente kitch no contexto suburbano, assim como esta construção frásica, a condizer com a fachada da corporação. Era ASSIM [a foto não é minha], ficou ASSIM.

A sanguínea seiva que escorre dos cortes, com certo grau de coagulação, presta-se à tétrica passagem de jardim do Getsémani a ermo Gólgota, a que não faltou no dia seguinte a "salga do chão".



O trabalho também pode ser penoso, como descobri, ao interpelar uma pessoa que o fazia, em forma de espanto meu pelo "sangue que escorria".




Metáfora fácil que lancei e colhi. "O patrão diz que são freixos"... está a ver estas sementes? repliquei... são de tipuana.




Nos cortes expostos houve consenso na sensibilidade partilhada / aflorada:



A aparente vitalidade das secções, aos olhos de um leigo, lança a dúvida sobre a necessidade desta desarborização,




ou intentos futuros para o mesmo espaço, sem a sombra e a variabilidade cíclica de cores, fácil apelo estético a quem passa, forma gratuita e edificante de cultura, que leva o seu tempo a crescer.

Gostei do seu comentário, é de "gente de bem", foram as minhas últimas palavras.

Era Dia Mundial do Livro [juntei mais estas folhas à minha floresta], a caminho do trabalho, e fiquei a saber que partilhamos com a tipuana a mesma cor visceral.

terça-feira, 21 de abril de 2020

NADA[S]_MEU[S]_0016_PRECISO.


As pequenas coisas que tenho por perto...



Abstrações a que me agarro...



Para ser capaz... chego LÁ? [sexto]



domingo, 19 de abril de 2020

Sarapatel de Caminha, Pêro Vaz.

Assim o encontrei, numa enjorcada, concluo agora, estória de 10 de junho de 2010 [AQUI].

Aflorou esta semana porque ficou no meu subconsciente a ideia de mais um nosso andarilho de quinhent
os, que neste caso se perdeu na Índia em prazeres lascivos: Khajuraho, na capa de um livro.




O seu espanto tinha começado antes, na viagem que o conduziria à danação. Das outras índias escreveria [AQUI]:
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha. 
O Prof. Luís Adão da Fonseca refere que «quando, na carta de achamento, se sublinha a inocência, ou seja a não consciência da nudez por parte dos indígenas, está-se provavelmente a pensar – e todos quanto em Lisboa a vão ler provavelmente também o pensam – no versículo do Génesis (3.7.), onde se conta que a Adão e Eva, depois do Pecado, abriram-se-lhes os olhos a ambos e perceberam que estavam nus ... Isto é, no discurso da Carta, a inocência é prova de que não houve pecado, ou seja, é ela que redime a bestialidade dos índios brasileiros.» [AQUI, página 43, ou 6 do PDF]

O que se sabe é que, chegados a «Calecute surgiram desentendimentos e o porto foi bombardeado, tendo morrido vários elementos da armada cabralina, entre os quais Pero Vaz de Caminha.» [AQUI] Era dezembro de 1500.

A partir deste ponto o suposto historiador goês Rabindranath Fernandes, que não consegui encontrar, e cujo antropónimo remete para Tagore, e o apelido para a família paterna de Pêro Vaz [e outros goeses], inventa/cozinha a sua ressurreição às mãos de um velho brâmane, e uma confissão do atormentado Pêro Vaz a Frei Estêvão da Santa Cruz [também desconhecido], após pesquisa nos arquivos do Convento de São Francisco Xavier, que também não encontro [será que existe ou existiu este convento? Peço a tua ajuda Osvaldo.]

Na busca do paraíso na terra, Pêro Vaz, entretanto convertido ao hinduísmo, terá demandado o vale de Khajuraho, onde terá terminado os seus dias como prostituto [confusão com as bailadeiras / devadasi?] no templo de Kandaya Mahadeo, como atestaria escultura de homem barbado, de vestes e fisionomia diferente, em prática libidinosa.

O problema é que em Khajuraho não existe nenhum templo Kandaya Mahadeo, o mais parecido em termos de grafia é Kandariya Mahadeva/Kandariya Mahadeo , o maior de todo o conjunto classificado como Património Mundial. Este templo do deus Shiva, também conhecido como Maadeva / Mahadeva, terá sido concluído cerca de 1030, e alvo de destruição [vandalização] por parte dos muçulmanos em 1495 [AQUI], ou seja, pouco provável que Pêro Vaz por lá se encontrasse [relembro que os dados históricos apontam para a sua morte em 1500], e ainda fosse posteriormente imortalizado, anonimamente, na pedra. Entretanto Khajuraho fora abandonada, e os templos ao redor tomados pela floresta nos séculos que se seguiram.

Eis-me aqui a dar conta do sucedido, porque encontrei no meu amigo Jorge, da Livraria Nunes, o livro da capa que me fez recuperar, e tirar a limpo, o que tinha ficado de um relance passado na web.

Mais do que deslumbre crédulo, ou cretino reenviar, quiçá convencido de que comprou ouro por latão sem o saber, e o prazer do esforço que desconhece, a satisfação maior está na procura, e na descoberta do que mais se aproxima da verdade.

Certo é que Pêro Vaz escreveu a Carta, e o pintor paraíbano Aurélio de Figueiredo, meu conterrâneo por afinidade, o imaginou assim:


Imagem de domínio público.

a ler para Pedro Álvares Cabral, Frei Henrique de Coimbra e Mestre João.

Colateralmente encontrei o romance de Mircea Eliade, Uma Segunda Juventude, [seria mais feliz o literal Juventude sem Juventude, do título em inglês, também diferente do original em francês: Le Temps d'un centenaire], que deu origem a um filme de Coppola, Francis Ford. Mas está aqui este apontamento porque, e foi apenas uma coincidência do dia, Mircea Eliade contagiou-se com o português em Calecute, e Camões ficou-lhe para sempre.

Quem começou o sarapatel, mal cozinhado, arrisco eu, foi Rabindranath Fernandes [existes?], espero que o meu fique melhor.
És a mulher que passa
como uma folha
e deixas nas árvores um fogo de outono...
Na página 21, e estou quase a lá chegar, à outra página, está este excerto de poema de Ungaretti, que merece isto:



Pena que não estamos no outono, para conspirar mais uma coincidência... jardim misterioso.

domingo, 12 de abril de 2020

NADA[S]_MEU[S]_0015_A FOCAGEM ESTÁ NO CHÃO.


Assim... Ambiguidade explícita! Confusão de planos, que o rasgo oblíquo procura... O funil, forma perfurada de folhas... Cravo em lintel, em dia de Páscoa.

Quase no final da escada que desço, para voltar a subir... carregado?

Prumo vivo / de vida.


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Cortaram-me... a 23 de junho, pela manhã, ainda lá estava, no final da escadaria. Contemplava-te no desce e sobe diário, e aferia o teu estado pela retidão do verde, pensava até regar-te, se te visse em aflição.


Limparam-te, provavelmente sem dar por isso, com sanha, mas senti logo a tua falta. Cada dia era uma vitória, e até onde chegaríamos? Conseguirás renascer?