domingo, 22 de setembro de 2019

Não fui ao mar buscar laranjas...

Havia o querer, mas também a [o]pressão do trabalho, que tinha alterado o meu início de dia, o previsível trânsito ao final da tarde: onde estacionar... o melhor seria ir de Metro, mas o tempo escasseava, e às 19h teria de ir buscar o Gustavo ao treino de andebol. Não acreditei que fosse possível, desisti de ir.

Num repente irracional, faltavam 15 minutos para as 18h, peguei no carro e fui. O trânsito estava lá, e pelo caminho ia equacionando possíveis distâncias repartidas, entre o local de estacionar e o quanto caminhar, para evitar desperdício de tempo no trânsito. Falhei pelo menos duas boas opções, por erro de percepção e mau posicionamento na estrada, que me obrigariam a fazer uma boa corrida, é certo, mas seria possível chegar razoavelmente fora de horas [18h15].


Imagem convite AQUI.


Na derradeira oportunidade perdida, pouco passava das 18h, comecei a pensar no tempo que teria para ouvir a Fátima Freitas Morna e o Urbano Bettencourt, no estado de sobressalto em que me encontrava, na gestão do nano tempo futuro. Desisti. Agora tinha tempo a mais! Restava o livro a comprar.

Enquanto esperava pelo Gustavo comecei a reler "Poemas Ausentes", que premeditadamente levei comigo de manhã, o único que tenho do autor.

AUTOPSICOGRAFIA [a outra]

Lembro-me, mas muitas vezes duvido
de que o lembrado aconteceu.
Há talvez um excesso de prudência
(ou recato?) em lembrar-me.
E além disso penso
que demasiadas vezes
me enganei e
                         (pior)
quase sempre naquilo
que no fundo eu mais amava.
E nem é raro confundirem-se
dentro de mim os nomes
(suas caras)
entre vagas
difusas músicas
que de repente acordam
as paisagens queridas
(as da infância, por exemplo)
com vultos caminhando
e que em mim
nítidos crescem
                             mas que logo
se apagam.

Em conclusão (por agora) confesso
que fui sempre,
com a cabeça cheia de fábulas
e nenhum jeito para o prático,
um muito mau fisionomistas.

Assim o reli na página 58, depois de ter vagado as páginas anteriores. Um consolo.

Hoje dei por mim a pensar que é um dos poetas que mais prezo, o outro é o Sebastião da Gama [para a Mafalda que acolhe tão bem no Forte, e que me deu a conhecer um poema inédito], e não resisti a contrapô-los: o fim na velhice e na juventude, o isolamento na ilha e na serra, a poesia simples, desabrida e bem urdida, e a talhada e bem sentida [de bem].

Os meus acasos com o poeta podem-nos encontrar AQUI, no ponto 4.

O mais recente acaso encontrei-o AQUI, e passo a transcrever:

«Como nota Steiner, citando o crítico francês Roger Caillois, “numa época cada vez mais incapaz de ler, quando até os espíritos instruídos não dispõem de conhecimentos clássicos ou teológicos mais do que rudimentares, a erudição torna-se em si própria um tipo de fantasia, uma construção surrealista”. Isto explica porque, ao lermos os poemas e os ensaios pejados da quinquilharia de certas referências que estão ali como “flores de plástico na montra de um talho”, a sensação que temos é que a nossa época não faz mais que produzir um longo cadáver esquisito, perfumando-o de erudição para disfarçar o fedor.»

Confesso, Golgona Anghel foi, e ainda é, um grande arrebatamento [troquei breves e atabalhoadas palavras com ela na Feira do Livro, antes de escrever a dedicatória no livro], e tudo por causa das portocale [laranjas em romeno]; e Pedro da Silveira é o poeta que foi ao mar buscar laranjas.

serendipidade existe, e foi hoje que descobri a palavra do acaso feliz. 


----------------------------------
Post scriptum

Está quase a acabar, mas façam um esforço para ir ver...



Logo no início temos a demanda das barbas do Afonso de Albuquerque,AQUI.
MUSEU DAS DESCOBERTAS, no MNAA.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Se não agora, quando?

Escapava o dia senão fosse o Francisco José Viegas a assinalar o centenário do seu nascimento: 31 de julho de 1919 [e tinha-me ontem despedido do dia a ouvir Morning Has Broken, a pensar na alegria de um novo começo. A tal folha branca...].

Jillian Edelstein é a autora da foto, e conta AQUI como aconteceu.
Não lhe pedi autorização para a colocar nesta mensagem.
Podem encontrar mais retratos seus AQUI.

A foto tem estado na minha área de trabalho do computador nos últimos meses [agrada-me muito esteticamente]. Não sei qual a razão que me levou a encontra-la, mas o que nunca mais esqueci foi o primeiro livro que li do retratado, no início deste século [a primeira edição, italiana, é de 1947],  e do qual nunca mais me separei: passou para a minha derme.

Entretanto já reli, consultas avulsas sem conta, e aventurei-me no seu surpreendente O Sistema Periódico, e hoje, para comemorar o seu centenário, propus-me começar a ler Se Não Agora, Quando? [influenciado pelo FJV], mas não havia na livraria, e acabei por encomendar na rede um livro editado em 1986, o penúltimo ano da sua vida, e o meu primeiro ano na Católica.

Por causa do primeiro livro tenho vontade de peregrinar, para sofrer hipocritamente em Auschwitz: posso chorar, dilacerar-me por dentro, querer até irmanar-me na sua aflição, e gritar, até que me doa a cabeça... mas os que por lá passaram sentiram medo, muito medo, desespero, muito desespero, fome, muita fome, e morreram, morreram quase todos, abandonados de toda a esperança. Muito poucos, talvez por acaso, sobreviveram e conseguiram transmutar e materializar em palavras: está aqui o que nos fizeram... a redenção.

[...] não estavam longe de algumas verdades importantes. Neste lugar, lavar-se todos os dias na água turva do lavatório fedorento é praticamente inútil para fins de limpeza e de saúde; mas é muito importante como sintoma de um resto de vitalidade, e necessário como instrumento de sobrevivência moral.

[...] Temos, portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão, na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.

Primo Michele Levi [in Se Isto é um Homem, 2001, páginas 39-40]



P.S. Se não agora, quando?... [o que ando a tentar responder]

sábado, 20 de julho de 2019

Praceta dos Astronautas.

20 de julho de 1969, 16:18 EDT [21:18, hora em Portugal]: “The Eagle has landed.

20 de julho de 1969, 22:56 EDT [21 de julho de 1969, 03:56, hora em Portugal]: "That's one small step for a man, one giant leap for mankind."


A toponímia de Sinta regista assim a chegada do homem à Lua:


A Missão Apollo 11 foi lançada às 9:32 EDT [14:32, hora em Portugal] a 16 de julho de 1969. Fotografei esta placa toponímica, e o local onde está, ao final do dia 16 de julho de 2019. Fica AQUI.

O poeta apanha-lhe os contornos e a con[tradição]:


Poema do homem novo

Niels Armstrong pôs os pés na Lua 
e a Humanidade saudou nele 
o Homem Novo. 
No calendário da História sublinhou-se 
com espesso traço o memorável feito. 

Tudo nele era novo. 
Vestia quinze fatos sobrepostos. 
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo, 
um colante poroso de rede tricotada 
para ventilação e temperatura próprias. 
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros, 
catorze, no total, 
de película de nylon 
e borracha sintética. 
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés, 
na cabeça e nos braços, 
confusíssima trama de canais 
para circulação dos fluidos necessários, 
da água e do oxigénio. 

A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento, 
um envólucro soprado de tela de alumínio. 
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro, 
auscultadores e microfones, 
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados, 
luvas com luz nos dedos. 

Numa cama de rede, pendurada 
da parede do módulo, 
na majestade augusta do silêncio, 
dormia o Homem Novo a caminho da Lua. 
Cá de longe, na Terra, num borborinho ansioso, 
bocas de espanto e olhos de humidade, 
todos se interpelavam e falavam, 
do Homem Novo, 
do Homem Novo, 
do Homem Novo. 

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés. 
Caminhava hesitante e cauteloso, 
pé aqui, 
pé ali, 
as pernas afastadas, 
os braços insuflados como balões pneumáticos, 
o tronco debruçado sobre o solo. 

Lá vai ele. 
Lá vai o Homem Novo 
medindo e calculando cada passo, 
puxando pelo corpo como bloco emperrado. 

Mais um passo. 
Mais outro. 
Num sobre-humano esforço 
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela. 
Com redobrado alento avança mais um passo, 
e a Humanidade inteira, 
com o coração pequeno e ressequido, 
viu, com os olhos que a terra há-de comer, 
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria, 
exactamente como faria o Homem Velho. 

António Gedeão, in "Novos Poemas Póstumos" [AQUI]
Nasceu "Poema do astronauta", a 30 de agosto de 1970 [AQUI]

E é tudo o que temos...



A beleza frágil...


Imagem da Missão Apollo 11 - Vista da orla lunar, com a Terra no Horizonte [AQUI].

O suporte vital...

O vasto espaço que nos insignifica [não existe no dicionário]...

O exterior agreste do infinito absoluto das grandezas físicas...

E tudo o que temos é o nosso PPA,
Que é o nosso futuro.
Temos de ir mais dias à Lua!

[Intencionalmente escrita em Helvetica, a mais parecida com a Futura do cabeçalho, e intencionalmente publicada às 21:18 do dia 20 de julho de 2019; é que quando passaram 20 anos comprei este patch, e agora passam 50.]

domingo, 16 de junho de 2019

E pluribus unum.

[EM CONSTRUÇÃO... ASSIM JÁ NÃO POSSO ADIAR OU VOLTAR PARA TRÁS]


Quase meio-dia do penúltimo dia, uma fila imensa para a bilheteira, a entrada congestionada da exposiçãoMenos de meia-hora desisti. A minha impaciência, e o desconforto, que raia a dor, na minha lombar, despacharam a pronta ação: vamos andar pelo jardim [o que não tinha feito nem antes, nem depois pela manhã, e agora é tarde para lamentar... meias-medidas na ação].

Acontece que o jardim... é sempre tão bom percorrer este jardim, e outros jardins, em todas as ocasiões e disposições: Oliver Sacks é perentório: In forty years of medical practice, I have found only two types of non-pharmaceutical “therapy” to be vitally important for patients with chronic neurological diseases: music and gardens. Mas acontece que no jardim também existia uma outra exposição.

Patético e frágil...


E fui lendo, em voz alta para quem me acompanhava,

Obviamente fui atrás do poema cujo primeiro verso dá o nome à exposição, e procurei traduções, o que gosto de fazer para confrontar com a minha leitura... sensibilidade e algumas dificuldades. Wider... mais VASTO sim, o mais AMPLO não ficava tão bem, mas António Damásio, na sua entrevista ao Expresso, vai mesmo pelo literal mais LARGO, e explica: Nesse poema fala de algo que não é mais vasto, é mais largo. [...] Há variadíssimas coisas de grande valor no poema. Primeiro é a ideia de que o cérebro é mais largo ainda do que o céu e que um deles, o cérebro, contém o outro, que é o universo. Depois o conceito de "ease and You beside". É um verso lindo, porque o "ease" é a facilidade, a desenvoltura, e o "You beside" é o eu, a consciência. Filósofos da consciência e alguns neurocientistas insistem no contrário, na dificuldade, até mesmo na impossibilidade, de compreender como é que o cérebro pode permitir a consciência. Emily Dickinson tem esse verso que diz exatamente aquilo que eu gosto de dizer. Que há uma naturalidade e uma facilidade em comprender como é que o cérebro pode criar a consciência. Para fazer isso precisamos de ter a possibilidade de compreender os diversos componentes da consciência de uma forma inteligente.


The Brain—is wider than the Sky—
For—put them side by side—
The one the other will contain
With ease—and you—beside—

The Brain is deeper than the sea—
For—hold them—Blue to Blue—
The one the other will absorb—
As sponges—Buckets—do—

The Brain is just the weight of God—
For—Heft them—Pound for Pound—
And they will differ—if they do—
As Syllable from Sound—

Emily Dickinson, c. 1862 [AQUI]


No fundo é ter a consciência de que existe uma unidade, que nos permite avançar.

----------------------------------
Post scriptum

Apostei em meias-tintas para o titulo desta mensagem, pois não gosto de futebol, e gosto do verde [a cor que vejo como predominante, por ter as melhores relações de produtividade com a luz solar. In Flauta de Luz, Nº 5, página 253].

Dear Patrick, this message is dedicated to you, not only because I'm in fault with you [I did not respond to your kind comments], and both share the same taste for nature's simple and disorderly things [I think].

domingo, 26 de maio de 2019

Desimaginei-me de te colher...


Estão numa curva de passagem, e não tenho como escapar: meia volta e parei, para estar com elas... e sempre que lá passar, irei dizer adeus, até mais nunca acabar. Perto do oratório a Nossa Senhora de Fátima em Bolembre, nas Fontainhas de Cima.

O corte fatal é instantâneo,
Não dá para alimentar a ilusão com água, num jarro.
As dúcteis pétalas prostram-se
E a cor assim estendida, apesar de viva, denuncia a morte.

Na brisa é bailarina,

Uma audaciosa Marylin
Na rajada resiste
E apesar de delicada e desengonçada
É forte e não parece [perece]

Quero-te tanto assim,

Mas só pode ser [n]o momento
A minha sombra ao redor de ti.

Papoila... Livre [podia ser, mas não foi... algures no outro lado, pondo de lado a fantasia].




domingo, 21 de abril de 2019

Às voltas...

Com um livro de poemas debaixo do braço, do mesmo, parado no tempo...



mas não sentado, com a preocupação de marcar o tempo.

Domingo de Páscoa de 2019. Foi a primeira desde que nasci, a próxima será em 2030, depois em 2041, e finalmente em 2052. Estatisticamente possível, mas daqui não passo, porque o tempo não pára.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Excerto enxertado?

O excerto vem daqui, um poema que se presta muito a prestações. O pedaço remete-me para o Cosmos, mnemónica subvertida pelo inconsciente.
Temos tão pouco do tanto que nem pensamos, e acabamos.

[...]
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
[...]





Creio que houve aqui uma enxertia: versos de poema que se aplicaram sobre outra poesia, e que se desenvolveram:

Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supôr,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso.

Poema da buganvília, assim o criou António Gedeão [in Linhas de Força, 1967].

Será que ainda existe na Calçada da Graça?
Procurarei indagar, afinal a poesia é bem real de alcance prático.

E o pó de um sorriso?