terça-feira, 16 de março de 2021
domingo, 7 de março de 2021
domingo, 28 de fevereiro de 2021
Atalaia.
A primeira tentação foi posicionar o cavalete na torre da mesquita, de frente para a onda Atlas, à cálida luz, pela facilidade tonta bebida num título, imaginando bancas de alfarrabistas cá em baixo.
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| Fotografia completa AQUI. |
Mas a Koutoubia não é posto de observação: interdita a quem não professa, nivela-se pela cordilheira, no jogo da perspetiva.
"Here in these spacious palm groves rising from the desert the traveller can be sure of perennial sunshine... and can contemplate with ceaseless satisfaction the stately and snow-clad panorama of the Atlas Mountains", escreveu sete anos antes, e pintou em finais de janeiro de 1943, concluído o acordo em Casablanca. Queria mostrar o que já conhecia, numa outra forma de diplomacia: o soft power.
O jovem Raul Lino não esteve em Marraquexe, andou por Marrocos em 1902 [ler páginas 164 a 168], 41 anos antes, aportando a Tânger, das tangerinas, procurando filamentos da medeia de tempo Ceuta–Alcácer Quibir: o voo de Ícaro da nossa história, o pecado da ambição tentada mas não consumada.
Na dor inconsciente esquecemos Marrocos, aqui tão perto. Grotescamente aproveitado por nós em passeios a Ceuta, para compra de casacos de cabedal, no tempo em que não pertencíamos à Europa Comunitária. E era vê-los no regresso, enchumaçados nos seu couros sobre couros, passando a fronteira, carregando a perspetiva de um lucrozinho fácil. A miséria da falta de ambição continuava. Grotescos éramos. Agora as misérias são outras: os que escapam em desembarques na costa algarvia, para uma vida melhor sonhada na Europa.
Os ciprestes espetados, que Winston pintou, tê-lo-ão impressionado:
Diz o poeta persa do século XII Saidi de Xiraz: «Perguntaram a um sábio: De todas as árvores assinaladas que o Altíssimo Deus criou, grandes e frondosas, a nenhuma chamam azad ou livre senão ao cipreste, que não dá fruto; que mistério haverá nisto? Ele respondeu: Cada árvore tem o seu produto e estação determinada, no decorrer da qual permanece vicejante e florescente, e no tempo que resta fica seca e murchada; a nenhum destes estados o cipreste se assujeita, conservando-se perenemente viçoso; e desta mesma natureza são os azades, ou religiosos independentes. Não ponhas o teu sentido no que é transitório, porque as águas do Djilah ou Tigris hão-de continuar a correr através de Bagodá ainda depois de ser extinta a raça dos califas; se tens na tua mão muito que distribuir, sê generoso como a tamareira; mas se nada tens para dar, então sê um azad, ou homem livre, como o cipreste». [AQUI, páginas 57 e 58]
Na cúpula do minarete da Cutubia [Koutoubia em francês] viu Reynaldo dos Santos a inspiração para a decoração da nossa Torre de Belém [AQUI, página 130]:
De resto ninguém de boa fé e senso crítico que conheça a Tôrre de Belém e os monumentos marroquinos, pode furtar-se, em face da célebre Coutobia de Marrocos, às afinidades evidentes da sua cúpula aos gomos (do séc. XIII) com as do nosso baluarte.
"The Tower of the Koutoubia Mosque" vai a leilão no próximo dia 1 de março de 2021.
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| Fotografia AQUI. |
P.S. Vemos o que queremos ver, no preconceito e na ignorância, mas há sempre a razão que nos sobressalta: faz sentido? A varanda do Villa Taylor terá sido o pouso do cavalete.
domingo, 7 de fevereiro de 2021
O prego.
- «Segundo Vitor Sobral, a origem deste prego «remonta ao séc. XIX, na taberna do Sr. Manuel Dias Prego» [Praia das Maçãs], onde era servida esta sandes de carne de vitela em pão de forno.» [AQUI];
- «A razão pela qual um bife Prego é chamado Prego, é porque a carne em Portugal éra conhecida por ser "tão dura como pregos". O recurso de usar um amaciante de carne, que é moldado como um martelo para amaciar a carne, também é outra razão para o nome.» [AQUI];
- O Grande Dicionário de José Pedro Machado inclui no verbete de prego o significado, característico da gíria lisboeta, de «pedaço de carne grelhada ou frita metida num pão». Na mesma entrada, encontra-se também uma acepção que parece próxima e pode lançar alguma luz sobre a génese da expressão: «carne do peito do boi. É curioso ver que a 3.ª edição (de 1923) do Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo regista esta última acepção, mas ainda não acolhe prego, «carne no pão», o que pode querer dizer que o significado em análise não estava ainda consagrado no princípio do do século XX.». [AQUI].
«Da nota que me foi dada também consta que, nesses tempos longínquos, existiu uma cabana, junto ao areal, a qual pertencia a um pescador chamado Prego, onde este preparava caldeiradas para os visitantes que por ali apareciam, bem como petiscos de mexilhão e percêbes que abundavam nas rochas.
Teria essa cabana (não prédio) sido um primeiro «estabelecimento» do Manuel Dias Prego?
Pela fotografia do Prego vê-se que este, quando construiu o seu prédio, já não era criança [1889]. Enfim! tudo é possível.»
domingo, 24 de janeiro de 2021
Sob o signo de Aquário.
Por superstição não leio horóscopos, queimam a atenção, minam a confiança. Sou Touro de ascendente Aquário, se bem me recordo do que a minha irmã me disse, quando se irritava com as palavras de Carl Sagan [1]:
«Porque somos tão facilmente enganados por videntes, por pessoas que sabem ler a palma da mão, as folhas de chá, o tarot, o I Ching e por outras do mesmo tipo? [...] Um instrumento-chave é um texto com uma declaração de predisposições contraditórias tão bem equilibradas que toda a gente reconhecerá nela uma ponta de verdade. Eis um exemplo:
Por vezes você é extrovertido, afável, sociável, embora outras vezes seja introvertido, tímido e reservado. Acha pouco sensato ser demasiado franco a revelar-se aos outros. Prefere uma certa dose de mudança e variedade e fica insatisfeito quando lhe põem restrições e limitações. Disciplinado e controlado no exterior, interiormente tende a ser preocupado e inseguro. Embora tenha certas fraquezas de personalidade, em geral é capaz de as compensar. Tem muitas capacidades não utilizadas, de que não tira proveito. Tem tendência para se criticar a si mesmo. Tem uma forte necessidade de que outras pessoas gostem de si e que o admirem.
Quase toda a gente se consegue reconhecer nesta caracterização e muitas pessoas sentem que ela as descreve perfeitamente. Não admira: somos todos humanos.»
O signo de Aquário começou a 21 de janeiro de 2021, é o que consta no meu eclético calendário de trabalho, em papel: efemérides, feriados, luas, agricultura, provérbios, o nascer e o pôr do sol, o santo de cada dia. Não tinha dado por ele, o Aquário, mas sim o São Vicente do dia seguinte, padroeiro esquecido de Lisboa, presente no símbolo municipal: graves e nobres corvos dos bons tempos ancestrais; assim traduziu Pessoa.
Mas eis que triste e fortuito espetáculo encaminhou o olhar para o que estava escrito na capa do LP, escarrapachado no chão do meu caminho da passada sexta [22], pós entrada em Aquário [21]. Ficou na memória, para desvendar no dia seguinte, sábado, também em ocasional comentário dos pequenos nadas que nos acontecem todos os dias: Aquarius, é o que Google revela na primeira linha do pesquisável 5th Dimension Let The Sunshine In. Afinal, embora antiga e fora dos meus gostos, a música é bem conhecida [Aquarius é a primeira faixa].
Desfasadamente, acabo por estabelecer a ligação calendarizada, mas também não é nada de extraordinário [2]:
«O facto de as coincidências ocorrerem frequentemente confunde a nossa intuição, porque cada coincidência individual é, na verdade, um acontecimento raro. Por vezes a experiência espantosa e inesperada de uma coincidência rara tenta dar-nos um significado mágico a acontecimentos aleatórios. Dar significado a ocorrências aleatórias é uma grande fonte para todos os tipos de tolices místicas. Na realidade, a vida de cada indivíduo é uma longa sequência de acontecimentos incrivelmente improváveis todos juntos - os trilhos das nossas vidas estão repletos de magia. Considere, por exemplo, a incrível cadeia de acontecimentos que o trouxeram até este livro e até esta página. Pense em todas as circunstâncias improváveis que o levaram a pensar no assunto das coincidências enquanto lê esta mesma frase - onde falamos sobre coincidências! Que coincidência espantosa!»
Pena que só tenha sobrado a capa, do vinil nem rasto. Veio comigo, imunda, e feita uma primeira limpeza, aguarda [melhor] destino.
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[1] "Um Mundo Infestado de Demónios" de Carl Sagan, 2.ª edição de março de 1998, Gradiva. Na ilustração da capa temos um pormenor da xilogravura de Lucas Cranach, o Velho, Santo António Levado pelos Demónios. Na edição mais recente temos a reprodução de um dos Caprichos de Goya: «La fantasía abandonada de la razón produce monstruos imposibles: unida con ella es madre de las artes y origen de las maravillas». Premonitório e lapidar.


















