segunda-feira, 11 de março de 2024

Pavimento...

 



em sequência, enxertada...
de baixo para cima...
sem sentido...

Planando no pensamento...

É mesmo assim,
derivar, de andar à deriva, de não
procurar sentido,
apenas encontro de linhas,
ângulos,
cores...

Por enquanto impossível pavimento,
a forma fica para outro encontro...

Uma folha com muita pinta.



Folha reguila, acena,
pisca o olho, não fica
rendida ao chão. O verde,
cheio de vício, diz:
estou viva!...

É mesmo uma folha com muita pinta!
Mais as pintas, que o não são...


terça-feira, 25 de abril de 2023

Quotidianos, 16.ª semana de 2023.

O cansaço e o tempo contado,  a falta que faz a pausa para debulhar pensamentos, dar-lhe alguma sequência, ser memorialista de mim mesmo. O poder olhar para trás, revisitar, a noção espacial do tempo, e não o desvairo instantâneo que vai acontecendo e se perdendo. 

Não quero deixar morrer o blogue, sinto-lhe a falta, mas o cansaço e o tempo contado empurram-me para  o WhatsApp. É fácil e rápido, as imagens acontecem e pedem mais, palavras soltas, na sequência cronológica da rotina diária. Posso procura-lhe a lógica, sem a incessante fuga para a frente... descrente!


Sombreado,
reticulado,
pixelizado!?... já é forçado.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Vida contemplativa...



















 “Ao ir-me afundando no cepticismo racional, por um lado, e, por outro, no desespero sentimental, incendiou-se-me a fome de Deus, e o sufoco do espírito fez-me sentir, com a sua falta, a sua realidade. E quis que haja Deus, que exista Deus. E Deus não existe mas antes sobreexiste e está sustentando a nossa existência existindo-nos.”

Miguel de Unamuno, citado por Guilherme d’Oliveira Martins, nesta iluminada invocação do escritor, mestre e amigo António Alçada Baptista. Mas onde a encontrou?

E foi ao procurar esclarecer uma dúvida, sobre livros do António Alçada Baptista, que revejo o meu desespero nas palavras de Unamuno, na condição da minha existência atual, e numa possível caminhada a Santiago de Compostela: será que o herege Prisciliano usurpou o lugar de São Tiago?

Dilecto [Prisciliano] sobretudo porque, nada ou quase nada se conhecendo a seu respeito, posso imaginar para ele e lho atribuir tudo quanto a mim me apeteceria ser e proclamar.

Afirmaria Agostinho da Silva, mas também, passo a citarQuando interrogado sobre a temática dos seus graus académicos, Agostinho da Silva respondia invariavelmente ser licenciado em liberdade e doutorado em raiva. Estes são precisamente dois dos termos fundamentais da sua antropologia, que estão na base da sua visão do homem e do mundo: a liberdade, «a liberdade de se ser, plenamente, aquilo que se é» e a raiva, ou seja, a indignação, a bravura, a fúria, o assanho de construir um mundo melhor, pois para ele a sua noção de cultura era tão somente a de «tornar melhor a vida das pessoas.»


Liberdade e raiva, junto mais estas duas palavras ao meu alforge. Começo os dias a pedir, "também tens que querer crer", relembram-me... acompanha-me a pequenina luz bruxuleante, a esperança do fôlego diário, e como faz a diferença, quando se está no fio, confia!

domingo, 1 de janeiro de 2023

A espuma...

Praia de São Julião, 23 de dezembro de 2022, 17h42.

Mudei-me para o instante quotidiano, agarro as imagens da minha atenção, na estética de enlevo melancólico, um chá de palavras em pensamento. Tudo muito disperso e de fraco improviso: remendo, corro, perde-se!

Deixou de haver tempo para remoer e cinzelar, não rabisco no papel, é o tempo da háptica, que puxou logo pela palavra apática. Confirmo, confio no tato e no som, a partilha narcísica da circunstância: fotografias, músicas, frases estafadas, gostos!... serei chato?

Dos dias ou do tempo, a espuma...




P.S. Pela fácil disponibilidade o WhatsApp tem assegurado o [meu] propósito mínimo, em detrimento do Melancolia comum. Dá pena esta minha apatia...

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Interposição.

 

O Sol grafita,
na mesma cor,
formas movediças,
planos do preciso momento.

Sem palavras,
a outra revolução
não inventa,
e desfaz-se numa nuvem.


Volta se houver permanência,
na rotação assegurada.

domingo, 18 de setembro de 2022

Pele de papel.

 Mar Egeu... foi pelo fim que os olhos pegaram, o título prometia, mas afinal era o número 8 de Os Melhores Romances de Aventuras, edição da Livraria Clássica Editora de 1934. De seguida índice, procurar o colofão [original inglês de Christine Campbell Thomson: The Incredible Island], impresso no Porto, duas a três páginas de leitura dispersa, voltei a colocar no topo da pilha.

Voltei a pegar...





















A capa... a textura da capa: mar, pela sugestão do título, veios lenhosos, pela cor e forma, impressões digitais... remoinhos "vangoguianos". Em bom estado de conservação, consegui ler na contracapa:

PAULINO ENC.
TRINDADE  ??
L  I  S  B  O  A

Ha lojas que, embora não seja essa a sua especialidade, fazem mais negocio em livros do que no seu commercio, como são as tabacarias, kiosques, bengaleiros dos theatros e até á porta de algumas tabernas, como por exemplo, aquella da rua do Arsenal, onde um velho alfarrabista assenta os seus arraiaes, vendendo livros, juntamente com boquilhas, pentes e bujigangas diversas.

Depois, as encadernações chamam muito a attenção do transeunte. Num livro, pode o seu conteúdo não prestar, ser completamente falho de interesse, não conter litteratura; mas a presente-se com uma capa bonita, chic, e verá como desapparece do mercado e se exgotta a edição n'um instante.

O livro parece-se um pouco com aquellas mulheres que, embora não sejam bonitas, sabem vestir com elegancia, apresentando-se por essas ruas nuns requintes de distincção e desafiando os homens á conquista do supremo gozo, á illusão dos sentidos.

O livro é tambem uma illusão dos sentidos.

E, assim como a parte propriamente typographica d'um livro, depende bastante da impressão, isto é, do artista que o imprime, assim tambem estas duas dependem da outra parte annexa que se chama encadernação, e é n'ella que está realmente o desideratum da aceitação ou regeição da obra.



Assim...