domingo, 26 de maio de 2019

Desimaginei-me de te colher...


Estão numa curva de passagem, e não tenho como escapar: meia volta e parei, para estar com elas... e sempre que lá passar, irei dizer adeus, até mais nunca acabar. Perto do oratório a Nossa Senhora de Fátima em Bolembre, nas Fontainhas de Cima.

O corte fatal é instantâneo,
Não dá para alimentar a ilusão com água, num jarro.
As dúcteis pétalas prostram-se
E a cor assim estendida, apesar de viva, denuncia a morte.

Na brisa é bailarina,

Uma audaciosa Marylin
Na rajada resiste
E apesar de delicada e desengonçada
É forte e não parece [perece]

Quero-te tanto assim,

Mas só pode ser [n]o momento
A minha sombra ao redor de ti.

Papoila... Livre [podia ser, mas não foi... algures no outro lado, pondo de lado a fantasia].




domingo, 21 de abril de 2019

Às voltas...

Com um livro de poemas debaixo do braço, do mesmo, parado no tempo...



mas não sentado, com a preocupação de marcar o tempo.

Domingo de Páscoa de 2019. Foi a primeira desde que nasci, a próxima será em 2030, depois em 2041, e finalmente em 2052. Estatisticamente possível, mas daqui não passo, porque o tempo não pára.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Excerto enxertado?

O excerto vem daqui, um poema que se presta muito a prestações. O pedaço remete-me para o Cosmos, mnemónica subvertida pelo inconsciente.
Temos tão pouco do tanto que nem pensamos, e acabamos.

[...]
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
[...]





Creio que houve aqui uma enxertia: versos de poema que se aplicaram sobre outra poesia, e que se desenvolveram:

Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supôr,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso.

Poema da buganvília, assim o criou António Gedeão [in Linhas de Força, 1967].

Será que ainda existe na Calçada da Graça?
Procurarei indagar, afinal a poesia é bem real de alcance prático.

E o pó de um sorriso?

terça-feira, 19 de março de 2019

A primavera chega de noite...

quase em Lua Cheia, mas não é assim que a vejo. É pela manhã, de um dia 21, um hábito que só com o tempo volta. Nisto de revoluções e frio vem tudo do espaço, e ocorre-me logo o binómio de Newton, ou as palavras de Feynman, a beleza que se esconde num equinócio.

ASH diz que é «a estação do ano que pior literatura produziu ao longo da história da humanidade», e há quem construísse jardins para a perpetuar [ver página 15]. De tudo isto não sei o que dizer, apenas que me chega um certo conforto de alma. É bom sentir a primavera com os sentidos do Caeiro, ou na carne como o Queiroz. É tudo quanto me basta. Fico com o que tenho e o que dou.


Possivelmente uma Abutilon darwinii, fotografada por mim no sábado passado, sobre esta notícia. Na berma da estrada, tive de me desviar de um carro que passava, e foi então que a olhei. O grande plátano deixou de ser nesse momento o foco da minha atenção. Aconteceu em Sintra, descendo para a Ribeira.

Mas o melhor de tudo é ver-te assim, a ler no banco do jardim [da Correnteza]... deitada, absorta, aberta... e amanhã ser Dia da Poesia [a vinte e um].

Não é inspiração, é necessidade.

domingo, 10 de março de 2019

Enfolhamento de um freixo.

O meu início de dia tem um ponto objetivo de partida: um freixo. Como é uma árvore de folha caduca, vai alterando a sua copa ao longo do ano. Folhas viçosas e tenrinhas estão neste momento a ganhar força, e a árvore vai-se vestido a caminho da primavera.

É este ciclo que vos quero mostrar, mas como andei distraído, contente de a contemplar, o que faço há alguns anos, esqueci de a fotografar despida [também fica bonita]. Sábados de março, aproximadamente à mesma hora da manhã [há cada vez mais luz] comecei a minha empreitada.


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É um freixo-comum ou freixo-das-folhas-estreitas [Fraxinus angustifolia], solitário e alcantilado numa encosta. Tem o seguinte porte:




O seguinte tronco:




As seguintes folhas:




É de freixo a lança de Aquiles e o bastão do Gandalf, e foi num freixo que se refugiou um cavaleiro visigodo, em Freixo de Espada à Cinta. Da mesma família da oliveira, era considerada a "Quinquina da Europa".

E ao seu redor podemos encontrar a vulgar erva-azeda [Oxalis pes-caprae], mas que é sempre bonita.





Prazeres simples, mas que resultam sempre.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Barcos de Flores.

Cantão, Hotel [Victoria] em Ilha-Min [Chamine], 1899, observando «Ao Longe os Barcos de Flores», Camilo Pessanha escreveu:


Postal disponível AQUI.

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
— Perdida voz que de entre as mais se exila,
— Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

[in Clepsidra, edição crítica de Barbara Spaggiari, INCM, julho de 2014, AQUI; mas outras há]


Fotografia disponível AQUI.



Wenceslau de Moraes, hospedado no Canton Hotel em novembro de 1889, escreveu:

«[...] defrontando com o hotel, surgiam iluminações festivas, eram os tankás-flores, donde irrompiam os primeiros acordes de uma música estranha. Aluguei então uma sampan, e mandei remar para os tankás-flores.
Os barcos especiais que têm para nós esta denominação semi-portuguesa, e que em linguagem indígena se chamam chí-tun-ten, agrupados aos vinte e aos trinta, formam um bairro à parte, de prazer e de luxo, [...] Umas cantam; outras dedilham em desconhecidos instrumentos; outras segredam confidências polvilhadas de malícia, enquanto vão preparando o ópio, que os seus adoradores, deitados sobre estofos, aspiram com delícia.
 [...]»
in Traços do Extremo Oriente, Parceria A. M. Pereira, 2.ª edição de 1971, páginas 60 a 62.

Camilo Pessanha esteve em 1899 no mesmo hotel [10 anos depois de Wenceslau], onde coletou e arquitetou o poema, que viria a ser publicado no ano seguinte no jornal Novidades, n.º 4931, de 28 de abril. Entretanto o hotel tinha mudado o nome para Victoria Hotel, em 1895. Mais pormenores AQUI. A 26 de agosto de 1899 já se encontrava em Hong Kong, onde embarca para Portugal num navio da companhia «Messageries Maritimes», via França AQUI.


Mapa da Ilha-Min em 1920, onde podemos localizar a negro [alteração feita por mim] o Victoria Hotel. Não sei porque razão Camilo Pessanha grafou no poema o local como Ilha-Min. Chamine é como a designa em português Jaime do Isno em 1933, a ilha Shamian de Guangzhou [nome atual de Cantão]. Também designada no passado por Shameen ou Shámin [ver mapa seguinte].


Pormenor de Cantão em 1860. Mapa completo AQUI.

A apenas oito horas de viagem de Macau, "pelo rio de Cantão acima, nos vapores que diáriamente fazem as carreiras, num e noutro sentido. [...] Cantão estende-se, a perder de vista, numa planície banhada por um braço do vasto rio onde vive o mais extraordinário formigueiro humano em milhares de barcos de todos os tamanhos, desde o Flower Boat, de decorações vistosas e sensual, aos barcos de carga e ás sampanas de «tankareiras» a sorrir, até ao mais humilde «tankar» onde os vendilhões andam apregoando por entre os barcos alinhados, como se fossem percorrendo verdadeiras ruas aquáticas. [...]
Fomos passear por Chamine, cuja volta se faz em meia hora.
Chega-se a ter a impressão de que estamos dentro de um grande transatlântico que tivesse encalhado, apenas desfeita pelos pesados Buildings cercados de relva.
O terreno está todo aproveitado, cuidadosamente limpo, como um parque, onde não faltam as «armas» de várias nacionalidades, mas, ao passarmos por certo sítio da Concessão Francêsa, surpreende-me um talhão bravio onde a erva cresce por entre alicerces mal saídos do terreno.
Aquele bocado é português, era ali que devia edificar-se o nosso consulado — sempre o mesmo abandono das coisas do Oriente !
[...]
Passámos depois ao outro lado do rio, à ilha de Honan, e desembarcámos num Flower Boat.
Flower Boat — barco de flôres — era um dos muitos barcos de prazêr que há poucos anos povoavam as margens de Cantão, mas que os novos govêrnos baniram como pretensa medida de moralidade.
Os Flower Boat eram, afinal, uns verdadeiros «Cou-Lau» aquáticos onde se serviam ceias com música e «Pi-Pa-T'chai»."

In «Visões da China» de 1933 [tenho a primeira edição], de Jaime do Inso, páginas 138, 143, 144, 153 e 154.

Num interessante artigo intitulado Macau, cidade da utopia? [Revista História, Ano XI, N.º 119, Agosto de 1989, páginas 10 e 11], do ilustre [que não célebre] eborense Joaquim Palminha da Silva, descubro a seguinte passagem:

«Mas que dignidade a mulher oriental irradiava no seu magnetismo sexual! A mais ínfima delas, a condutora do tancar — pequeno bote e habitação de família —, a tancareira do porto da cidade, de origem chinesa, com as suas calças largas de ganga azul, deixando ver as pernas nuas, a roupa ligeira deixando perceber as formas desta remadora desenvolta, tinha um código de honra que era apreciado porque garantido pela profissão. Era frequente os capitães dos navios alugarem um tancar ao mês, incluindo a mulher que lhes servia ao mesmo tempo de costureira. No geral prostituta — profissão regulada pelas deusas —, o tancar de cada uma era mantido no mais irrepreensível asseio, garantindo a mais completa fidelidade ao alugador, durante todo o período do aluguer.»

Ao longe os Barcos de Flores...

Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Ao longe, mas quão longe?... no canal ou em Honan... talvez em Portugal, é que estão próximas as datas de 1898 e 1899 [Ana de Castro Osório].

Afinal a Flor...

domingo, 27 de janeiro de 2019

Poíema.

Pelo grego dá «obra», e da poesia se diz, na mesma língua, que é «ação de fazer alguma coisa». Hoje sem querer, é sempre a mesma coisa, encontrei uma entrevista da Agustina Bessa-Luís, quando procurava uma definição de que gosto muito, para colocar na parede da cozinha [também se comem palavras], onde ás tantas diz o seguinte:


« [...] na poesia não há pensamento, há palavras. É a arte da sensualidade sensibilidade [palavra que estou sempre a trocar] e da colocação das palavras.»


Esfumou-se no tempo, agora resta o esbatido fumegar na sobreposição de planos, que ateia o que se quer ver.

Entretanto leio o poema Poema de Sophia, e aqui não tanto sem querer, e fico um pouco "deslocado" como a chaminé de permeio, que está aqui tão somente porque me cruzei com ela na quinta-feira em Chão de Codes, a propósito de uma vida que se findou.

POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita 

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações

Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar

São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade

Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento 

E a hora da minha morte aflora lentamente

Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen [AQUI]


Lendo para mim, em voz alta, arando o poema...

O meu interior é uma atenção voltada para fora

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações

Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento


Palavras pensadas, argamassa da minha alvenaria,
Sinónimo pra Poema.