domingo, 27 de janeiro de 2019

Poíema.

Pelo grego dá «obra», e da poesia se diz, na mesma língua, que é «ação de fazer alguma coisa». Hoje sem querer, é sempre a mesma coisa, encontrei uma entrevista da Agustina Bessa-Luís, quando procurava uma definição de que gosto muito, para colocar na parede da cozinha [também se comem palavras], onde ás tantas diz o seguinte:


« [...] na poesia não há pensamento, há palavras. É a arte da sensualidade sensibilidade [palavra que estou sempre a trocar] e da colocação das palavras.»


Esfumou-se no tempo, agora resta o esbatido fumegar na sobreposição de planos, que ateia o que se quer ver.

Entretanto leio o poema Poema de Sophia, e aqui não tanto sem querer, e fico um pouco "deslocado" como a chaminé de permeio, que está aqui tão somente porque me cruzei com ela na quinta-feira em Chão de Codes, a propósito de uma vida que se findou.

POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita 

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações

Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar

São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade

Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento 

E a hora da minha morte aflora lentamente

Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen [AQUI]


Lendo para mim, em voz alta, arando o poema...

O meu interior é uma atenção voltada para fora

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações

Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento


Palavras pensadas, argamassa da minha alvenaria,
Sinónimo pra Poema.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Des[embrulho] de [in]consciência.


#agifttothemothernsture #bordaloii

No Instagram do Bordalo II podemos encontrar a foto que reproduzo. Não é de hoje, 25 de dezembro de 2018, porque o local se encontra assim:


As árvores cresceram, mas o caixote assinado ficou:



Entretanto noutro local, mas no mesmo dia, podemos ver o embrulho de consciência que o Bordalo II desembrulhou.



A obra de arte ficava AQUI, perto do local onde vivi 33 anos da minha vida. E hoje é Dia de Natal.

Des[embrulho] de [in]consciência.

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Post scriptum
Fui com o meu pai fazer o reconhecimento do local.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Foi um rótulo.


Seria a grafia madressilva com dois esses, ou apenas a letra duplicada para enlaçar os caules das flores constantes no rótulo? Como seriam as madressilvas no campo, se porventura cá existissem?

Sim, tem dois esses, e são de cá. Procurando mais "retratos" acabei em espanto. Afinal tinha convivido com as madressilvas sem o saber, aqui, neste cantinho onde almoço às terças-feiras, olhando o mar e "esquecendo" o resto. Estão aqui, onde aponta a seta vermelha.




Infelizmente não tenho as primeiras fotos da minha tomada de consciência [avaria no disco rígido] e deslumbramento. Como pude não as ver?... COMO?... tão lindas!

Estarei atento na próxima época de floração, entre abril e agosto, para vos dar testemunho da sua beleza.

O vinho, dizem [sou abstémio], é suave e envolvente, apazigua o estio. O que me liga a ele é o facto de o comercializar.

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Post scriptum

Meu caro José Maria, li emocionado o que escreveu no jornal Voz da Minha TerraO meu malfadado e contrastante Novembro de 2018. Quem vai à frente ilumina, foi o que fez, e muito bem, porque apesar das diferenças o drama humano repete-se.

Quando passo em frente ao Colégio do Ramalhão, espreito sempre para o final da alameda de arvoredo, e leio a paradoxal mensagem...




tinha tanta vontade de partilhar convosco. Foi hoje e não sei porquê. Ser livre é ter o coração preso...

domingo, 9 de dezembro de 2018

Folhas para que vos quero...

no chão deitam-se assim...


"Colhida" por mim do chão a 28 de novembro de 2018, perto de casa.

a maioria com esta face voltada para cima, mostrando-nos o seu avesso. Talvez haja uma razão Física que explique o fenómeno.

Cumpriu o seu dever, tricotou luz enquanto pode, agora despe-se do verde e prepara-se para regressar ao início.

Apela à bondade do nosso olhar.

Uma boa semana para todos vós.
Não deixem de as olhar... As Folhas. 

domingo, 25 de novembro de 2018

Uma janela de Janus... uma de três estações.

Daquelas que nos permitem ver do interior para o exterior,



mas também o olhar para a frente, e o olhar para trás, como os dois rostos do deus Janus.

Estava longe de imaginar que iria aqui ter, foi um ato de teimosia e revolta, numa pequena vida comercial que, felizmente, me obrigou a andar por perto. Será que estas estátuas são

Primavera [Helena] — Verão [Raquel] — Outono [Màmía]
São Pedro de Sintra

parecidas com as da Ribafria?


Primavera — Verão — Outono
Quinta da Ribafria

Longe disso, em tudo soturnas, o oposto das solares que encontrei em São Pedro de Sintra, no mesmo dia plúmbeo.

E foi então que, no mesmo dia, vi esta janela pintada pela Màmía... Quiet room, o nome do quadro é em si um mistério para mim... em inglês?... o resto é momento de despojada introspeção, na serenidade e no silêncio: outono.


Aqui há mais...

E foi assim que me veio a associação, talvez porque estamos no tempo da melancolia: a Màmía é o outono, a Raquel o verão, e a Helena a primavera, esculpidas assim as três irmãs como as vi em São Pedro de Sintra. De tarde assisti à conferência «Um nome maior: Màmía Roque Gameiro (1901-1996) – Pintura e Ilustração», seguida de visita guiada na Casa Roque Gameiro.


Findo o dia, cuja data apresento acima na grafia de pessoa amiga, começaram outras associações decorrentes do título do quadro: Quiet room... ver tudo... silêncio... e apontaram diretamente para o livro de haikus, que já tinha lido, «A Papoila e o Monge» de José Tolentino Mendonça. Apesar de começada e publicada, esta mensagem ficou em maturação, à espera de um pouco mais, e foi assim que, relendo, escolhi um poema para cada uma das irmãs.

Para a outonal Màmía, o da página 15 [93 e 156 também foram opções]:

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

Para a estival Raquel, seara extensa não amedrontava a sua mão certeira, o da página 22 [75 e 147 as opções preteridas]:

O silêncio não é um modo
de repouso ou suspensão
mas de resistência

Para a primaveril Helena, que também pintou crisântemos, o da página 31 [173 a outra opção]:

Silêncio:
nem um grão de poeira
na brancura do crisântemo

Curiosamente as exposições que foram ocorrendo na Casa Roque Gameiro, sobre as três irmãs, acabaram por se encaixar na sequência natural das estações, independente da sua ordem biológica, ou da minha vontade de associar o que não passa de um devaneio meu [revejo-me nestes três silêncios].