domingo, 17 de dezembro de 2017

Lembra uma árvore...



para lembrar o Natal.

Feito por mim, apartir de uma ilustração da Raquel Roque Gameiro para o livro O Mandarim de Eça de Queiroz, edição da Livraria Chardron, 1927. Será que [ainda] acontece o que na página se descreve?



lico suspiro, uma ondulação eolia, que se perdia nos ares pallidos...


Feliz Natal a todos Vós [lista aleatorizada com recurso AQUI]

There were 24 items in your list. Here they are in random order:

Manuel e Conceição
Vasco
Patrick
Clayton, Socorro, Luísa e Neto
Ricardo, Lia e Alice
Paulo, Carmen, Guilherme e Rúben
São e Urso
José, Maria, Laura e Leonor
Fernando, Carla, Afonso e Gil
Samuel e Francisca
Osvaldo
Paula, Paulo e João
Manuela, Paulo e Rita
Ana e Sara
Sandra
Almir e Kalliopy
José C.
Paula e Carolina
José S.
Jorge, Inês e Gonçalo
Elvira, Carlos e Inês
Luís
Manuela e Tiago
Danielle, Clara, Pedro e Alexandre

IP: 93.108.128.41
Timestamp: 2017-12-17 16:41:11 UTC

Luva.

Matéria prima existe, a ideia está esnavalhada, em tudo se nota a imperfeição... perdão, na concretização sim, é o fraco domínio do Photoshop, e a pressa de deitar cá para fora, no resto a esplendorosa miséria de uma...


mão vivida [eufemismo].
Cada um tem a sua, faz a sua, passa a sua.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Manchar.

A Raquel "mancha como ninguém" [página 22 do catálogo]... a paragona rude, o aparente conflito na palavra com a beleza do que pinta, a curiosidade de saber o que é a técnica da aguarela, e a companhia desafiadora [ou terei sido eu?] da minha irmã, levaram-nos à oficina de ilustração em aguarela, orientada pelo Tiago Costa [Programação AQUI].

Materiais, técnicas base, e começar a experimentar: literalmente manchar o papel, como deslizar o pincel, tentar controlar, procurar a intenção. Conseguir primeiro a homogeneidade da mancha, depois o ascendente clarear, ou o descendente escurecer, a diluição, o excesso, jogar com o tempo de secagem. Outros recursos, menos clássicos, para produzir texturas, definir limites mais ou menos precisos, demarcar áreas que se querem proteger.

O Tiago vai observando e orientando, ajudando a direcionar [educar]  o nosso olhar, para que este desencadeie a ordem no cérebro de cada um, e imprima na mão o movimento, que por sua vez irá desencadear novo impulso visual, e tátil [só dei por ele agora, ao escrever, de tão absorto que estava no momento], recomeçando tudo de novo. Método de tentativa, erro e aproximação, consumação por etapas, em que se convoca, em torno do pivot [cérebro], sentidos e músculos, numa simbiose em que, às tantas, não se sabe quem influencia quem.

Apetrechados e experimentados no básico, avançámos para a recri[e]ação, tendo por base reproduções de obras da Raquel. No nosso caso não houve grandes dúvidas, obra escolhida, por razões diversas:



 o rosto da jovem mulher de São Tomé, o feminino africano, no teu caso [Manuela]...



a mão no joelho... ainda fui tentado pelos pés, mas como estabelecer a ligação sem o corpo [complicava, e muito, no desenhar, e depois o manchar]. Encontrei algum sossego na simetria, descobri a cesta, pormenor bonito [e difícil, descobri depois].



A composição bem prosaica: mão na cesta, mas depois ainda veio a angustia de a encher, e acabou vazia. Desenho tosco, luz e sombras aleatórias, tempos de secagem obliterados, a mancha manchada, dificuldade em conter diluições no espaço definido, completa ausência de estratégia de pintura: definição e articulação das diferentes camadas/fases da pintura por forma a conseguir o resultado final. Resultado:




Não foi fácil, nem o esperava, efémero contato, fatal porque não tenciono continuar [nunca digas desta água não voltarei a beber], mas que me dá um novo olhar sobre as obras, no pormenor e na destreza de uma mão soberana como a da Raquel... mão inteligente.

A oficina foi concorrida, mas ficou por satisfazer uma curiosidade [falta minha, não me ocorreu perguntar]: quantos dos presentes visitaram a exposição? Públicos distintos, estanques ou osmóticos?

domingo, 3 de dezembro de 2017

Voar...

Uma exposição retrospetiva congrega obra dispersa, dá a entender, descobre sentidos, arrasta-nos para a aventura de uma vida.

Uma visita guiada à exposição "Mão Inteligente: Raquel Roque Gameiro (1889-1970) - Ilustração e Aguarela" pela sua comissária, a Prof.ª Sandra Leandro, é um convite a voar sobre a obra da artista, mas ao mesmo tempo pousar docemente sobre os pormenores, ter uma explicação mais técnica se solicitada [dá espaço às limitações de cada um], ser surpreendido com novas descobertas [para além da exposição a investigação prossegue].


Auto-retrato com as filhas Ana, Manuela e Guida [e uma criada] na Foz do Arelho [?], 1916 [Raquel tinha 27 anos].





























A suspeita inicial apontava para a Foz do Arelho [página 6 do catálogo], novo contributo aponta para São Martinho do Porto [por causa das ruínas representadas], e assim, com desvelo, a novidade nos foi anunciada. O José Carlos achou delicioso o pormenor da botina [?] no pé da Raquel, que borda. A fofura/intimidade da composição, o traço preciso... "mancha como ninguém" [página 22 do catálogo]. As mãos [que sustentam, que procuram, que se aplicam]...


À hora do chá, 1919 [Raquel tinha 30 anos].

As grades no espelho [a condição feminina?], o rosto suspirado, o retratado que a criada olha... uma estória que se desenrola, ou não, na cabeça de quem passa... os tecidos, as madeiras, ou a mais prosaica formosura, o tentar adivinhar o estilo do mobiliário. Todos chegaram um pouco, mas um pouco mais além...


Estudo [fiando na cozinha], c. 1930 [Raquel teria 41 anos].

As imagens e símbolos ancestrais [o leito para lá das cortinas], o nosso inconsciente colectivo, que nos percorre ao longo da vida [as várias idades da mulher, no apanhado de imagens anteriores].


[Mulher de S. Tomé], 1953 [Raquel tinha 64 anos].

A personalidade, o contraste, a cor... é o teu preferido Manuela [mana]. Esta mulher faz pela vida.

Os pormenores que escapam, mas estão lá: pés sujos em "Descamisado o milho"...


Descamisando o milho [pormenor], 1957 [Raquel tinha 68 anos].

ou a cauda do gato em "Tavira". Com maior ou menor rapidez, a percepção visual de cada um vai descobrindo a vida que se desenrola ao redor de uma imponente chaminé, num horizonte de "telhados de tesouro"...



Tavira [pormenor], 1960 [Raquel tinha 71 anos].

A Raquel foi uma incansável ilustradora. Nesse "voo", nessas "águas", foi soberana, não só pela qualidade na quantidade, literalmente um traço firme e desassombrado, que nos leva a pairar, no enquadramento, mas também no apelo à sua fantasia que nos oferece [mil e uma...] .

Desafiando a gravidade... não é só o óbvio, olhem para o barrete.
Ilustração, c. 1903 [Raquel teria 14 anos].

Fiquei encantado com as flores de cardo da Raquel [pormenor que resolveu uma dúvida minha, pela busca que suscitou]. Esta ilustração era acompanhada por uma seistilha, que substituo pelo poema do João Monge [cantado pela Aldina Duarte].


Maria da Saudade, c. 1930 [Raquel teria 41 anos].

Dói-me ser a flor do cardo
Não ter a mão de ninguém;
Tenho a estranha natureza
De florir com a tristeza
E com ela me dar bem

Dói-me o Tejo, dói-me a lua
Dói-me a luz dessa aguarela
Tudo o que foi criação
Se transforma em solidão
Visto da minha janela

O tempo não me diz nada
Já nada em mim se consome
Não sou princípio nem fim
Já nada chama por mim
Até me dói o meu nome

Dói-me ser a flor do cardo
Não ter a mão de ninguém
Hei-de ser cravo encarnado
Que vive em pé separado
E acaba na mão de alguém

Sem querer, nem sequer sonhava que iria terminar esta mensagem assim [com o poema do João Monge], porventura descontextualizado, não da ilustração, mas da vida da Raquel, fica o convite para desbravarem primeiro a exposição, e depois assistirem à próxima visita guiada no dia 24 de fevereiro de 2018, às 15h.

O catálogo tem muitos pormenores interessantes [porque ajudam a entender e a avançar] como ESTE.

É a minha recr[i]/[e]ação.


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P.S. A Raquel tinha a "mania dos postais", que eu desconhecia quando escrevi a mensagem "Almourol?... Almourol!... Almourol". Estas quadras deliciosas foram-lhe dedicadas [página 17 do catálogo]:

Bonitos bilhetes
Postaes illustrados
Ninguem terá tantos
Nem mais apurados

Tem duzias, tem centos
Milheiros, milhões;
Dez mil albuns cheios
Com taes colecções

Aquilo só visto!
Que grande Babel!
Que forte mania
Que tem a Raquel!

Mais tarde descobri, e comprei, um postal ilustrado datado de 6 de outubro de 1910 [pescadores da Nazaré], se a memória não me falha, endereçado à Raquel, que não sei onde está, perdido na minha pequena Babel [também gosto de postais ilustrados como a Raquel]. Uma estória recambolesca que lembra um episódio contado por Umberto Eco.

A legenda diz Raquel Roque Gameiro, mas não é!... é a sua irmã Helena. O que suspeitei, e me confundiu durante algum tempo, foi agora desvendado pela Prof.ª Sandra Leandro.


Imagem da Hemeroteca Digital, AQUI.

domingo, 19 de novembro de 2017

Oblíquo.

O que se segue em imagens, sentido 1. e 3. no DICIONÁRIO.


















No caos de enquadrar é ponto de fuga
Na poesia é Pessanha que é Pessoa
Numa imagem de Apollinaire
Perdido

cHUVA confusa na minha cabeça



MATERIAL DE APOIO_________________________MATERIAL DE APOIO


ÁGUA MORRENTE 
Il pleure dans mon coeur 
Comme il pleut sur la ville.
Verlaine
Meus olhos apagados, 
Vede a água cair. 
Das beiras dos telhados, 
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados, 
Cair, quase morrer... 
Meus olhos apagados, 
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos 
Na vã tristeza ambiente. 
Caí e derramai-vos 
Como a água morrente
      
Camilo Pessanha


CHUVA OBLÍQUA 
                I
Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

Fernando Pessoa


AQUI...

Guillaume Apollinaire


P.S. Tudo o que ficou para trás é tão só a utilização excessiva que faço das linha obliquas imaginárias no enquadramento fotográfico [é só o que sei] como chuva que cai sempre oblíqua [nem sempre] na cabeça querendo acreditar que é o poema graficado do Pessanha [assim com erros e tudo]... hoje [19 de novembro de 2017] a caminho e no Museu do Oriente.

domingo, 29 de outubro de 2017

Quixotescos [nós, os que acreditamos e nos iludimos].

Foi bonita a festa, pá... linda e estouvada, novos e velhos embalados num amor adolescente de final de verão [e o tempo disso se calhar já passou. Ainda tens dúvidas?!]... não há racionalidade possível na loucura pulsada e desentranhada, o embalo prazeroso no presente que basta, e depois?... depois logo se vê...

Foi bonita a festa, pá... estou convosco no devaneio...

Viva a Catalunha LIVRE!!!

Patético, eu.

Mas a dor?


P.S. Ainda continuo na dúvida se deveria ter começado patético e terminado quixotesco. Descobri entretanto, e sem querer [repito-me tanto no "sem querer"] que Cervantes foi feliz em Lisboa e Barcelona.

Sinta-se livre de [me] adjetivar nas seguintes linhas:
_________________
_________________
_________________
_________________
_________________


Desconjuntando...


Uma extensão gira para adicionar ao seu Chrome. O que é?


O que é?

E tudo isto era para não ter acontecido, mas aconteceu. Necessidade imperiosa-improvável.
Estou de regresso, cento e onze dias passaram.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

50 anos de Corto Maltese.

A personagem apareceu a 10 de julho de 1967 na revista Sgt. Kirk, publicação mensal italiana de fumetti, lançada por Florenzo Ivaldi, Claudio Bertieri e Hugo Pratt [desenhador, e outras palavras terminadas em dor, criador da personagem], faz hoje precisamente cinquenta anos. A Balada do Mar Salgado, nome da história que continuaria a ser publicada até fevereiro de 1969 [curiosamente, primos, "aparecemos" todos nesta janela de tempo].


Numa cruz de Santo André [a jangada subjacente lembra a grelha de São Lourenço], faz a sua aparição o martirizado Corto Maltese... não combina... bem vendo as coisas até combina, porque mártir é aquele que vai até ao fim [aprendi na missa de sétimo dia], e à sua maneira o Corto Maltese vai até ao fim. Da mesma forma que, à sua maneira, traça o seu destino [do latim fortūna]...



Corto assim o revelou a Pandora na Balada do Mar Salgado... [falta-me fazer o meu ZAC... talvez o medo da dor]. Pandora... Gisela Dester, a vida do autor, Hugo Pratt, que estou a descobrir na leitura do seu livro de memórias e reflexões «O Desejo de Ser Inútil»... ó glorioso título!

Não me recordo ao certo por onde comecei a ler Corto Maltese, não foi A Balada, pela qual não me entusiasmei na primeira leitura, talvez pelas Célticas, no princípio/meio [?] dos anos 80.

Esta imagem está aqui por causa do subtítulo.
O amarelado de base é a patine do tempo. Sim, já são velhos estes livros.

Publicado pela Edições 70 [excepto A Balada publicada pela Bertrand], paulatinamente ia comprando e lendo, e foi assim que juntei todos os títulos publicados. Vinha da fase do Tintim e do Alix [esqueci-me do Astérix, bem lembrado Jorge], digamos que fiz um upgrade em sintonia com a maturidade crescente.

A personagem inspira admiração, mas é inacessível, não dá para ser como o Corto, alto e espadaúdo [eu]; na maneira de pensar e de agir [a coragem do Corto] muito menos, verdadeiramente nunca sei o que está na cabeça do Corto. Tudo somado é o lado nonsense de tudo, as ambiguidades, os pormenores, as referências propositadamente [assim o entendo, mas posso estar enganado] esparsas e ecléticas, o toque e o cheiro da poesia [intuída]. Passaram algumas décadas e não reli Corto, o que acabei de escrever foi o que ficou das leituras dos anos 80. Da mesma forma que a Hipazia da Fábula de Veneza,

Esta imagem está aqui por causa do gato :)

Esta imagem está aqui por causa da frente do Corto.

ou a Boca Dourada e os cangaceiros em Sob o Signo do Capricórnio,

Esta imagem está aqui por causa da genealogia do Corto, e do par de mãos dadas [voluptuosa elegância].

Esta imagem está aqui por causa do perfil do Corto... e os chapéus.

Afinal os chapéus existiam mesmo, era um Brasil que não conhecia [ao tempo].

Falta-me terminar a leitura de «O Desejo de Ser Inútil»... afinal o Universo Corto tem tanto de ti [As Etiópicas, por exemplo, ganham outro sentido], e ler, pela primeira vez, as derradeiras obras As Helvéticas [1988] e  [1992], para poder recomeçar, num tempo diferente.

Esta imagem está inclinada porque assim está no meu livro; e está aqui porque... [é linda]
Penúltima página da Balada.


Post scriptum

Tanta coisa vai ficando para trás: o Conselheiro Segurado [obrigado Osvaldo]; o kitsch visto numa capa de Thoreau; acerca de «Uma selecção para ouvir no carro do Abel»; a vida de um cardo; o esboço da minha Sintriana [o Chá da Pena, ou a arte do professor Emílio de Paula Campos, por exemplo]; as subtilezas do poema Liberdade, a pensar no Gonçalo; os contos da Maria Archer que não acabei de ler; uma placa para um diospireiro ou a "coroa" para uma coluna num miradouro.

Do pouco tempo que tenho para mim,
O Muito do pouco que me é cortado.
Amachucado...
Irra!

[Intencionalmente escrito em Helvetica]