domingo, 11 de junho de 2017

Maria, horta e jardim.

[...] Voltaire termina ‘Cândido, ou o Otimismo’ de uma forma enigmática, mas deliciosa – sim, o otimismo é bom; mas "devemos cultivar o nosso jardim".
O que li AQUI, mas que não consegui confirmar na edição que tinha à mão,



pois termina assim: mas é preciso cultivar a nossa horta.

Jardim e horta não são sinónimos declarados, quase funcionam como antónimos, se pensarmos na dualidade corpo/mente, prosaicamente: comem-se de formas diferentes.

No original em francês temos: mais il faut cultiver notre jardin.

A nossa palavra jardim vem do francês jardin, que de fato é mais abrangente. A nossa horta vem do latim hortu, por via da palavra horto, esta sim também mais abrangente, como jardin. Mas também é certo que traduzir é interpretar, é como a aplicação das leis, raiando a reinvenção e a subtileza.

No penúltimo capítulo a trupe de desventurados fica a aguardar melhor destino numa quinta. Entre o vizinho dervixe que não lhes dá troco às suas efabulações filosóficas, e o vizinho turco que no trabalho encontra a cura para «o aborrecimento, o vício e a necessidade», estamos mais próximos da horta que sustenta, o terra a terra... e «cada qual tratou de exercer os seus talentos.», ou seja, cultivar o seu jardim.

Talento[s]... cuidar para que floresça[m]. Os teus, como estão e o que fazes com eles?

O cólofon revelou-me o nome da tradutora: Maria Archer. Quem és tu Maria?... horta, jardim?

Dos vários pontos de partida, alguns dos quais estão remetidos para o final desta mensagem, encontrei o seguinte livro, que terminei hoje de ler.


A fota da capa é de 1931, Maria Archer tinha 32 anos. Tinha-se divorciado um ano antes.

«[...] pose ao estilo da época [Betty Boop, acrescento eu], com ar sorridente e mesmo provocante, com um ombro a descoberto. Exala a segurança de uma mulher que se sente atraente e confiante.» Página 34 do livro.
Escritora, jornalista, conferencista, tradutora. Mulher culta e autodidata. A condição feminina na sociedade portuguesa do seu tempo, exposta a nu nos seus romances. A realidade colonial vivida, das terras e gentes por onde passou, nos seus escritos de pendor etnográfico. As suas obras críticas ao regime e o exílio. Portugal, África, Brasil.

O regresso a Portugal em 1979, debilitada e sem recursos, «quase sem darmos por isso. Mão amiga a troxe, semi consciente e piedosamente a internou na Mansão de Santa Maria de Marvila [com o tempo deixou de funcionar, um sucedâneo AQUI]» (página 122). Morreu a 23 de janeiro de 1982. Passou o seu testemunho de luta  para que as mulheres tenham iguais oportunidades.

A Maria era assim (páginas 112 e 113 do livro):

Esta situação terá ocorrido no início dos anos sessenta [no Brasil] [...] uma das meninas que refere ter ouvido a Dona Maria [Archer] a falar com a sua mãe, dizendo que nada substituia a escola. Tendo em conta que se tratava do seu próprio emprego [precetora das meninas], que estaria, assim, em causa, como veio a acontecer quando recorreram a outras formas de ensino para essas meninas, não deixa de ser surpreendente aquela afirmação, porque o facto de viver em casa da família pressupõe que se trata de um emprego a tempo inteiro. [...] Outro elemento que confirma o que relatámos atrás é referido por uma das duas irmãs, que afirma que a Dona Maria lhes falava da importância da liberdade de pensamento, de ação e sexual da mulher, o que seria contrário às ideias da mãe das jovens, [...] o que a levaria a repreender a precetora.
Outro aspeto curioso é a referência ao seu aspeto sempre cuidado e elegante, [...] ao qual é aduzido um pormenor: o seu jeito de mãos para arranjar acessórios, possivelmente muitas vezes para si própria.


Post scriptum


Do prefácio do livro consta o seguinte:

E aqui estamos com um livro sobre a mulher ousada, sem medo e assim elogiada por João Gaspar Simões, em outubro de 1949: «Esperem o juízo do tempo, e verão! Quando em 2049 se celebrar o centenário do aparecimento de Há-de Haver Uma Lei... todos os editores portugueses dignos desse nome baixarão os olhos, envergonhados, ao ouvir esta tremenda efeméride: em 1949, Maria Archer, autora de duas dezenas de volumes, teve de publicar a expensas suas o seu livro de contos Há-de Haver Uma Lei... pois não havia então em Portugal um único editor capaz de perceber que este livro era uma coleção de obras-primas do conto português».




Consegui um exemplar e estou a ler. Mas vamos começar pelos pormenores.

1. O ex-líbris na capa:


Em 1949 tinha a autora  50 anos. Fantástico, e mais não digo...

AINDA [há estrelas no céu]... o ainda transformou-se em LINDA por ilusão ótica provocada pela pouca luz ambiente, e um subconsciente encantado que assim o quis ler. Ficou mais ou menos assim...



2. A listagem das suas obras ao tempo:



Aparece a tradução de Cândido [Guimarães & C.ª Editores], a que está na origem desta mensagem, e da qual procuro uma primeira edição.

3. O excerto do diário de André Gide no início em epígrafe [mais referências a Gide AQUI]:





Post scriptum 2

«Parece uma horta, é só flores»... proferido num tom exclamativo esta manhã [sábado, 17 de junho], em Queluz, por um transeunte [aparentava quarenta anos, de perna tatuada], enquanto enxotava do para-brisas algumas pétalas.

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O que encontrei e li na internet sobre a Maria:

Maria Archer (1899-1982);
Maria Archer - Século XX - Centro Virtual Camões;
Singularidades de Maria Archer;
Menina e moça em África;
Entre o Índico e o Atlântico: Incursões literárias de Maria Archer;
Percursos de Maria Archer no Brasil - Teses USP;
Terras onde se fala português.

domingo, 28 de maio de 2017

À boleia...

Apanhei-te no domingo [passado], afixei-te na parede da cozinha, andaste comigo na folha que ficou ao lado do travão de mão. Só passados alguns dias te entendi.


CRAS INGENS ITERABIMUS AEQUOR
Amanhã enfrentaremos de novo o mar infinito

AQUI Revista Monumentos 26, página 248, nota 51

É o permanente desafio e tensão que se renovam a cada dia.

Apanhei-te a meio da semana, penso que a propósito do Gutenberg [por causa do lápis que me ofereceste prima], era uma expressão latina, tive o cuidado de juntar o link onde te encontrei, juntamente com outros numa mensagem, assim o pensei mas não te encontro. Puxo pela memória mas nem uma réstia.




Apanhei-te ontem, sábado, e foi a súmula das voltas que dou e que não sei para quê.


A vida é o que acontece enquanto estamos ocupados a tratar de outros planos AQUI Revista Ler, Primavera 2017, página 39

De segunda a quinta a besta de carga tende a sobrepor-se aos lampejos na mente, o cansaço dá a estocada final.

Como um código morse sem sentido tudo volta a acontecer no próximo fim de semana... desconexo.

AGUENTA... ENDURE...

domingo, 21 de maio de 2017

Stuart preparador.


Clique para ampliar.

Encontrei esta imagem no «Epistolário de José Leite de Vasconcelos» (Suplemento a "O Arqueólogo Português; 1). Fiquei intrigado sobre a ligação entre os dois.

Sem querer, descobri no texto do Guilherme d'Oliveira Martins, inserido no livro «José Leite de Vasconcelos (1858-1941) – Peregrino do Saber», página 31, a seguinte passagem:

Com ele colaboraram artistas: Stuart de Carvalhais, como preparador, e Francisco Valença, como desenhador.

Ativada a memória e estabelecida a ligação, temos os primórdios do Stuart, não como desenhador, então com 22 anos (Leite de Vasconcelos tinha 51 anos), tornando até inteligível o desenho: todos aqueles artefactos e ossos, o seu trabalho de preparador.

E como terá conseguido este trabalho?

Compaixão

A semana revelou-se atribulada, mas nas palavras escritas (quase a adivinhar o que iria acontecer): «Compreendo perfeitamente e identifico-me. O máximo de coragem para levar para a frente essa empreitada. [...] Somos sempre bons a dar conselhos, o pior é vivê-los», ou nas palavras proferidas: «vem cá trazer as mercadorias», sem  mais mas, uma verdadeira mão estendida, senti e encontrei alento. Obrigado a vós. A palavra título é isso mesmo.

sábado, 13 de maio de 2017

Mater dolorosa?

Frações de segundo podem fazer a diferença, o contexto, o antes e o depois. Visto assim parece, mas pode não ser. A dor física, a tristeza na privação da liberdade, o sofrimento que é sentido pelas várias formas de vida, certamente maior quanto mais complexo for o seu sistema nervoso.

E como será sentida, pressentida, a morte pelos primatas [ordem à qual pertencemos]? Os humanos têm consciência da sua finitude, a primeira causa de melancolia, mas os outros primatas?

A etologia, ciência que estuda o comportamento animal, e que nos pode ajudar a compreender o nosso próprio comportamento por via do processo evolutivo que nos moldou apartir de antepassados comuns, passou a estar no meu interesse por causa da seguinte foto.


Foto retirada DAQUI.


Tentar compreender o que realmente estaria a acontecer [ó pretensão!], e não alinhar na corrente de sentimentalismo à volta de uma imagem que se tornou viral.

A primeira palavra que me ocorreu quando vi a foto foi Pietà... sim, a que foi esculpida por Miguel Ângelo, só que não bate certo: os filhos estão parecidos, mas as mães divergem na direção do olhar e na expressão do rosto. Explicando melhor, não é tentar encontrar um entendimento com base na coincidência imagética, mas foi apartir dela, ou melhor da não coincidência, que me apercebi que a escultura é uma visão idealizada da dor de mãe, a fotografia é um acaso de circunstância, em que não sabemos o que aconteceu. A escultura, enquanto representação do real, é "perturbada" pela cultura, e a fotografia, enquanto imagem do real, é "perturbada" pelo antropocentrismo. Não posso inferir comportamento humano onde ele não está: a macaca não é um ser humano e a escultura é uma estilização de um sentimento.

Na sebenta da cadeira de Etologia lecionada pelo Prof. Dr. Frank Dellinger na Universidade da Madeira encontrei esta deliciosa "revelação":

[...] o poema "O Rouxinol" da Viscondessa das Nogueiras, Matilde Bettencourt: 

O mago cantor da noite
Inspirou-me a frouxa mente,
Nessa hora em que gorgeia
Seus amores docemente

De facto, o que a poetisa não sabia, é que o canto do rouxinol macho tem a função de manter outros machos fora do seu território. Portanto poderia ser considerado um brado de raiva contra os seus competidores pelas fêmeas, uma interpretação muito contrária à que a poetisa tinha em mente, e desprovida da componente amorosa e doce. [...]

Penso que é suficientemente esclarecedor, embora continue sem saber o que a foto [verdadeiramente] retrata. O final da NOTÍCIA também não ajuda: «O drama da mãe macaca não durou muito mais, pois pouco tempo depois de a fotografia ter sido tirada, a cria levantou-se».

Volto ao início: Frações de segundo podem fazer a diferença, o contexto, o antes e o depois. Visto assim parece, mas pode não ser.

Convergindo... Frans de Waal: O comportamento moral nos animais.


Vita dolorosa?


Na fotografia da capa do livro vi uma jovem mulher, na lisura da pele do rosto; pobre, na roupa puída, rasgada, remendada; vergada à subsistência, no maçar do linho.





Fácil imaginar uma vida difícil, de trabalho desgastante e pouco proveitoso.

Comparativamente ao nível de desenvolvimento sócioeconómico atual é uma evidência, no entanto aquela pessoa não viveu na minha realidade, e eu não irei viver no seu quotidiano. Anacronismos.

Contraponho com a seguinte apresentação do livro «A Salvação do Belo» de Byung-Chul Han que podem encontrar AQUI :

«O liso, o polido, a ausência de vincos são, na época atual, identificados com o belo. É isso que existe em comum entre as esculturas de Jeff Koons, alguns smartphones e a depilação.

Estas características evidenciam um “excesso de positividade” que Byung-Chul Han já tinha abordado noutros ensaios, mas que aqui desenvolve nos campos da arte e da estética.

Porque é que nos agrada tanto o “polido”?, pergunta Han. Porque não oferece resistência nem nos causa incómodo ou dor. O belo digital é um espaço liso do que é idêntico e recusa a estranheza, a alteridade, a negatividade.

O que considerávamos naturalmente belo atrofiou-se no liso e o polido do belo digital.

Hoje o belo converteu-se naquilo de que se diz “gosto”, em qualquer coisa de agradável, que se avalia pelo seu caráter imediato e pelo valor de uso e consumo.

Mas sem a negatividade da quebra do outro fica prejudicado o acesso ao belo natural e anulada a distância contemplativa. A beleza é diferida, não é um brilho momentâneo, mas qualquer coisa que ilumina em silêncio e através de desvios e mediações.

Não se pode encontrar a beleza no contacto imediato, é mais frequente que surja como reencontro e reconhecimento.»


Post scriptum


13. Jesus é descido da Cruz.

Pode não parecer, quando o sentido figurado não coincide com o termo técnico, mas é uma fotografia, do Francisco Gomes, retirada do livro «Via-sacra para crentes e não-crentes», com textos de José Luís Nunes Martins e Paulo Pereira da Silva (autor do excerto que se segue).

[...]
José e Nicodemos aproximam-se da cruz e começam a retirar os cravos. O corpo do Senhor cai, pesado e ensanguentado, sobre eles. Recebem-n'O nos braços ficando também eles com sangue e água nas vestes. Colocam-n'O nos braços de sua Mãe.
[...]

domingo, 23 de abril de 2017

Estanhado...

Certamente não é de estar zangado [estanhado], e do estanho apenas a coincidência do número atómico com o número de voltas ao Sol. Forma de contabilizar o tempo que passa... razão de melancolia [uma das].

É pouco ser apenas uma constatação. Mais um!

Calculando, para sessenta faltam apenas dez, para setenta vão vinte, mas os vintes já estão a trinta de distância, e os trinta estão a vinte, mas só por agora, pois o incremento anual vai afastando os princípios [décadas vencidas] e aproximando o fim [o derradeiro segundo].

O que aconteceu "perdeu-se" entre estas duas datas...


Dia de Páscoa de 2017, no jardim do Palácio de Monserrate em Sintra. ACASO TENTADO.

No primeiro ano. INTUITO ENSAIADO.

Também tenho
Palavras doces e amargas
Para apresentar à mesa da poesia
Palavras doces e amargas
Também tenho


O importante não deve andar muito longe da imagem que se segue. O problema é que ela [a imagem] não é o quotidiano, e é precisamente no quotidiano que, sem se dar por isso, se vão juntando os dias que fazem passar os anos (plagiando Millôr Fernandes).



Dia de Páscoa de 2017, no jardim do Palácio de Monserrate em Sintra.
ENQUADRAMENTO INTENCIONAL.

O que tenho presente no quotidiano, e que tem vindo em ascendente clarear, são as «minhas evidências» [aforismos do que vejo e leio, pratico e sinto]:
  • Procurar o sentido estético da vida. Porquê?... porque é uma bela razão;
  • Somos [todos] mais parecidos uns com os outros do que julgamos. No bem e no mal;
  • A simplicidade [frugalidade] liberta. Porquê?... porque não temos de carregar tanto;
  • A compaixão é o espelho da nossa condição... humana.

«Imaginar cenas violentas é um exercício e uma terapia porque a violência imaginada não provoca mal. Seria bom se no mundo as pessoas pudessem fazer este tipo de terapia. Se as pessoas fizessem este exercício de forma meticulosa e realista, o mundo seria um sítio melhor. As pessoas teriam menos propensão a agir de forma violenta contra os outros»
Park Chan-wook, realizador de cinema, AQUI.

«Na realidade, eles anseiam por harmonia tanto entre a natureza e o ser humano como nas relações interpessoais; um género de harmonia que se baseia na beleza e nos valores sensoriais e emocionais.»
Adelino Ascenso, AQUI, página 55.

Coisas extraordinárias estão para acontecer [ilusão?].

Anteontem [21 de abril]... o que acabei de escrever.

Ontem [22 de abril]... Dia da Terra.

Hoje [23 de abril]... Dia Mundial do Livro: «Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana.»
AQUI, página 96.


«Efemérides dum epistolário» de Venceslau de Morais, então com 67 anos. Retirada do livro «Os Amores de Wenceslau de Morais».

Amanhã... o caminho segue... no balanço.

NADA[S]_MEU[S]_0001_EXTRAVAGÂNCIAS.

Extravagâncias em virtude do momento atual, ou a pouca importância que dou a primeiras edições, edições de tiragem reduzida ou de autor, como reserva de valor, monetariamente falando [mas têm, e já não estou em tempo de ingenuidades].

O que as letras fixam é o mais importante: o que passou pela mente de alguém, com talento. E o que passa pela mente também se vivencia mais ou menos no corpo, e chama/clama por outra vida [leitura].

Ordenados pela lembrança, desde o primeiro dia (23), e que vou acrescentando.
Literalmente: "ordem de ocorrência".

1.
Uma primeira edição, em papel de arroz, ilustrada com gravuras a cor, capa a cores e prata, de um animadvertido, acidental[?] e ocidental, em relação ao seu espaço e cultura de origem, «preocupado apenas com os aspectos humanos e com a poesia íntima das coisas. É isso que dá ainda hoje vida e frescor à sua obra.» (Armando Martins Janeira, no final do prefácio à edição do ICM de 1987).

«[...] o livro era tão bom que nenhum livreiro o quis comprar, resolvendo os meus amigos por fim vendê-lo por minha conta, distribuindo-o por algumas livrarias. [...]» (Venceslau de Morais, carta de 3 de fevereiro, 1906) AQUI.


Imagem trabalhada (deficiente uso do GIMP) apartir DESTA.

«[...] Chegou-me aos ouvidos que se vendeu, em Lisboa, um exemplar do "Culto do Chá" por perto de um conto de reis. E mais subirá o preço, por que os exemplares vão naturalmente escasseando. Por outro lado sei que, com meu consentimento, um editor de Lisboa [Casa Ventura Abrantes?] tem buscado fazer uma 2.ª edição do livreco, impresso no Japão; mas pedem-me preços tão elevados que julgo nunca se chegará a fazer a impressão. "O culto do chá" passou a ser um livro fossil!...» (in «Efemérides dum epistolário» de Venceslau de Morais, 27 de maio de 1925, tinha o autor 71 anos, e 20 anos passado desde a 1.ª edição. A 2.ª edição é de 1933, 4 anos após a sua morte.)

2.
Sem capa [pormenor importante?... sim, para quem gosta de enjeitados] e com dedicatória do autor [pormenor importante?... sim, para quem gosta de meta-física]. Ilustrado.


Imagem retirada DAQUI.
«[...] O café é um mostruário social privilegiado, tingido de uma tristeza que a sua condição de «subúrbio» sublinha. O café que põe em cena uma personagem, o Velho, que representa, claro, um alter ego do poeta. (…). Nele desfilam pedintes, amantes e alguns personagens típicos mas excêntricos que Couto Viana nos dá na perfeição, como aquela mistura de filósofos, mendigos e imbecis que fazem dos cafés - e de alguns centros comerciais - a sua casa. [...]» AQUI.

3.
Aparentemente de conciliação duvidosa, e incautos [que a curiosidade incita] que a "praticam" [a frugalidade na escrita, objetiva e poética], com desvelo e ignorância [preciso de...]. Como eu [por aqui passa a vaidade].


Imagem retirada DAQUI.

4.
Não é o que tenho, mas o que gostaria de ter (alfanumérico a vermelho).




Porque um dia li-descobri (fica giro na forma de palavra lidescobri):

«Tinha-o Onésimo Teotónio de Almeida, era o seu Quixote : «um português magnífico», dizia-me. «Que bela tradução!». Mas lá estava, em sua casa, do outro lado do Atlântico! Mandou-me a ficha completa: sim, senhor, edição da Portugália, colecção «Biblioteca dos Rapazes», n.º 16. E o espanto adensava-se e ganhava novos contornos. Eu própria tinha conseguido, anos atrás, não sei já onde, o Dom Quixote da «Biblioteca dos Rapazes» (pobres raparigas, privadas do cavaleiro…), também n.º XVI (em numeração romana, eis a diferença) mas aqui «a tradução e adaptação» era, reconfirmei-o, de Maria Ponce e não de Pedro da Silveira. Que era isto de existirem duas traduções de autores diferentes, na mesma editora, mesma colecção, mesmo número?!» AQUI.

«De Pedro da Silveira dizia Natália Correia que tinha uma língua viperina. Era marca de todos sabida e por não poucos receada. Um dia Lúcia Lepecki, numa roda literária, vendo que ao sair alguém da mesa ele desatava em corte interminável da sua casaca, interrompeu-o: «Puxa, Pedro! Não se pode ‘tar longe de você!». Mas mais aguda ainda era a sua memória, inesgotável fonte de notas de rodapé biobibliográficas. Abria os seus ficheiros sem reservas. Bastava pedirem-lhe. Desbobinava de imediato. Na Biblioteca Nacional era uma biblioteca à parte. E nas cartas revelava cortesia e lhaneza admiráveis, mesmo surpreendentes para quem testemunhava a sua presença muitas vezes pouco simpática pela fala compulsiva e impertinente.» AQUI.

SONETO DE IDENTIDADE

Chamo-me Pedro, sou Silveira e sou
também Mendonça: um tanto duro, como
Pedro é pedra; picante agudo assomo
de silva dos silvedos — não me dou!

Raiz flamenga, já se sabe; e um gomo,
no fruto, castelhano. E assim bem pou-
co, pois, que doce me passara à ou-
tra pátria (ou língua?) que me coube e tomo.

Ainda Henriques (alemão? polaco?)
e outros cognomes mais: espelho opaco
de errâncias várias, que mal sei (Desfaço,

talvez por isso, no que faço.) Ilhéu
da casca até ao cerne — e lá vou eu,
sem ambição maior que o livre Espaço.

PEDRO DA SILVEIRA
Poemas Ausentes
Edição O Mirante
Santarém, 1999


ACABADO, MAS NÃO TANTO

Ao Alberto Ferreira

Agora restam-me só dois dentes
e a vista já não é o que antes era; 
às vezes sofro de azias e náuseas 
e vêm dias, como hoje, em que nem reparo 
nas mulheres em flor que passam a meu lado.

É Fevereiro ainda, mas o tempo 
é como se já fosse a Primavera: 
um dia de sol, com flores coroando árvores 
no jardim à beira de que estou parado 
esperando um autocarro que não chega mais.

Olho as árvores enflorando, a relva verde-tenro, 
e também uma nuvem que o sol da tarde 
faz mais clara no azul claro do céu.
Vejo isto, e vendo-o esqueço 
os dois dentes que só tenho, um deles cariado, 
a vista baça e tudo o mais que diz 
que o meu corpo envelheceu—
como ainda há poucos dias me lembrou o gesto 
da rapariga que quis dar-me 
o seu lugar no eléctrico à cunha, 
de manhã à hora de a caminho do emprego.

Sim; o dia parece mesmo de primavera 
e com isso apetece estar vivo, embora 
sabendo que os anos andaram sobre o corpo que temos 
e não renovamos, com rebentos e flores, 
como as árvores que vou vendo enquanto não chega
—vem aí, finalmente!—
o autocarro que há bocado espero.

Abalado, esqueço de todo os dentes que já mal tenho 
e a minha memória, nova agora como a tarde clara, 
não tem fundo para além do dia de hoje 
e das flores do jardim de há pouco.

Sim; mas há as coisas que às vezes me lembram 
(e nem sempre sem que doa ou amargue) 
que já não tenho a idade em que me diziam
—Pedro, vê-la o que fazes, toma juízo!

(Olhem, por lembrar:—esta manhã gostei de ver 
como o meu canário começava o seu dia cobrindo 
a canária que anteontem lhe pus na gaiola e agora 
é a razão por que não me acorda como dantes, cantando.) AQUI

PEDRO DA SILVEIRA

5.
O próximo...

De estar presente e querer... muito.

domingo, 9 de abril de 2017

NADA[S]_MEU[S]_0000_PRIMAVERA.

Colagem de recortes, que quero fixar, mas que não quero dar conhecimento da sua existência [criação]: desconexos e de inteligibilidade duvidosa.Contradições.



Cabo da Roca.

De chegar, bater foto... estou, estive, tenho a prova. O assunto não é a paisagem... paisagens... sentidos e sentir, mas insistir em discutir as mesmas coisas de consumo quotidiano. Brilhante!

Às voltas com a P[p]rimavera.


Primavera, escultura de John Cheere, em chumbo.
Palácio de Queluz, 9 de abril de 2017.

Vida e morte a 9 de abril de 2017 no jardim do Palácio de Queluz (flores de olaia).

De oriente para ocidente... com atenção e sem pressa.

Afirmação do verde (alameda de lódãos).

Em consonância clara.
Flores de prunus serrulata... o que se leva para casa.

[...] mas  o conselho de Rilke é “observar o azul dos jacintos. E a primavera!”. Ele lhe dá conselhos específicos sobre os poemas e sobre tradução; afinal, “não é o jardineiro que elogia e agrada o que mais ajuda, mas aquele que usa a tesoura de poda e a pá; a repreensão!”. Ele compartilha suas emoções depois de terminar uma grande obra. Sente-se uma perigosa leveza, escreve Rilke, como se você pudesse sair flutuando.

Nessas  cartas  ele se torna lírico:

Creio que em Viena, quando o vento forte não estiver cortante, seja possível perceber a primavera. As cidades muitas vezes sentem as coisas antes, uma palidez da luz, uma suavidade inesperada nas sombras, um brilho nas janelas — uma ligeira sensação de constrangimento por ser uma cidade (...) na minha experiência, apenas Paris (de modo ingênuo) e Moscou absorvem toda a natureza da primavera em si como se fossem uma paisagem...

[...] Yanagi, um filósofo, historiador da arte e poeta, desenvolvera uma teoria de porque alguns objetos — potes, cestos, tecidos feitos por artesãos anônimos — eram tão bonitos. Segundo ele, expressavam uma beleza inconsciente porque o artesão havia feito tantos que já se libertara de seu ego.

«A lebre com olhos de âmbar» de Edmund de Wall (tradução brasileira)

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Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

Tradução de Manuel Bandeira




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Descobri o Ivo Barroso, e o tempo das olaias em flor está a correr vertiginosamente...