domingo, 26 de março de 2017

Almourol?... Almourol!... Almourol.

A ilustração da capa levou-me a uma associação na memória... parecia o Castelo de Almourol. Raquel Roque Gameiro foi a sua autora. 


Oliva Guerra, autora do "Roteiro Lírico de Sintra", e do poema engastado num penedo na Feteira da Condessa... os primeiros encontros. Este livro, que agora possuo, teve uma estória atribulada, em virtude da minha indecisão. Presenciou o meu encontro fortuito com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa na Feira do Livro de Lisboa 2015: cumprimento breve e cordial; andávamos aos livros, mas não o comprei. Isso só aconteceu a 1 de março de 2017. É poesia, mas não faz o meu gosto. O castelo que vislumbro na silhueta da capa pode não ser Almourol, mas para mim existe um misterioso e sereno Almourol.


Mais tarde encontrei este postal, do qual existem outras emissões, provavelmente este será dos anos 30, mas é apenas uma suposição minha, não por se adequar à data do livro, mas porque adquiri outro postal como sendo dos anos 40, pelo grafismo e aspeto aparenta ser mais novo, mas a fotografia é a mesma. Encontrar um datado (carimbo dos Correios ou data manuscrita) irá ajudar em relação ao referencial 1933.


É possível que a Raquel tenha visto o postal, e se tenha inspirado nele para o desenho da capa do livro, mas não é certo. A associação é minha, e o tempo encerra o mistério. Comparando...


Enrique Casanova, do qual foi aluno Alfredo Roque Gameiro (pai da Raquel), pintou assim em 1883 o Castelo de Almourol. Cromolitografia retirada de uma "edição desmembrada" do «Portugal Pittoresco» de Pinheiro Chagas, que não fui a tempo de comprar, mas que me foi permitido fotografar. Mostra as ruínas antes das obras de restauro efetuadas em 1887/1888.




Cottinelli Telmo, concunhado de Raquel, desenhou o Castelo de Almourol neste selo de 1945. A gravura é de Karl Bicker, que não sei se tem alguma ligação ao João Manuel Bicker, do qual tenho um pequeno livro que gosto muito: A Forma das Letras. Mais sobre o João AQUI, e a sua tese de doutoramento AQUI.

Imagem retirada AQUI.

Durante anos o que via do Castelo de Almourol era mais ou menos a imagem que se segue, quando passávamos na estrada ao longo da margem sul do Tejo, a caminho da Terra (aldeia do Pé da Serra, freguesia de Amêndoa, concelho de Mação, distrito de Santarém, antiga província da Beira Baixa).



Quando passávamos na estrada ao longo da margem norte, em Tancos, apenas lia a placa "Castelo de Almourol". O caderno Âmbar dos anos 70 acrescentava o desenho, sempre estava mais próximo, o resto era imaginação (faltava a ilha no Tejo), uma vontade enorme de entrar no castelo, lindo... Será desta vez que o pai vai parar... nem me atrevia a pedir. O vaivém Lisboa-Terra, Terra-Lisboa, o caminho era a perda de tempo. O tempo era da apanha da azeitona, da matança do porco, das batatas (semear e apanhar), da malha do trigo, da limpeza das courelas, da Páscoa, dos Santos, do Natal, dos avós que envelheciam, cada vez mais dependentes. Por fim [quase] tudo acabou... e mudou.

O livro "Os Mais Belos Castelos de Portugal" do arquiteto Júlio Gil, com fotografias de Augusto Cabrita, edição Verbo de abril de 1986 (a primeira), deu-me a oportunidade de "entrar" no castelo, só realmente concretizada anos mais tarde (provavelmente no início deste século). Os livros sempre me permitiram ir mais além, mas...

Mais uma achega AQUI.


terça-feira, 21 de março de 2017

Folhas.

De árvores e de poesia, o sentido obrigatório giratório das estações... das vidas. É possível poesia sem sentidos? As árvores emanam sentidos... também irmanam sentidos: alegria, dor, prazer e melancolia... só ou a sós... intimidade e intimidades.

O mesmo plátano em Sintra, majestoso, pela manhã: 11 de julho e 12 de dezembro de 2015.
Gosto de ler poesia em folhas, poesia para mim são folhas que vou juntando, e perto de mim andam. Um momento de espera... ler um poema... uma situação... lembra um poema. Poder variar, poder descobrir, poder... e assim vou construindo o meu cancioneiro: revisitado, acrescentado, alterado, desencontrado, perdido e achado... eureka!

Um poema lido, ou escrito, alivia. Lido no entendimento, é a sublimação do que nos está a acontecer. Na escrita é a libertação, mais ou menos exposta, é sempre possível manter o segredo, assim o queiramos, no entanto o que nos revolve está ali exposto... enjeitado.

O maquinal "Calçada de Carriche" (António Gedeão) continua a fazer parte dos meus dias, porque me revejo nele, não sei até quando. 

Luisa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luisa,
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda Luisa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luisa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luisa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luisa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou-se o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luisa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luisa arqueja
pela calçada.
Anda Luisa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luisa,
Luisa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

A minha alegria matinal (é minha) remete para o Sebastião da Gama, a Golgona Anghel é um arrebatamento passado que passou (faz tempo que não releio), a Matilde Campilho que continua adstringente como o álcool que não bebo, o Dylan Thomas da minha crise lombar, o Carlos Queiroz dos banhos de mar, "contente como um peixe" (eu)... é a minha apropriação da poesia, provavelmente, certamente... mente estapafúrdia (a minha).

A Feira do Livro de Poesia termina hoje, estive lá no domingo, entre folhas. Olhei para cima e "li", aterrei no papel e li... deram-me a conhecer os poemas volantes do Ruy Cinatti («Corpo Santo» editado pela Averno).

Distribuir poemas em folhas pela rua, pelos conhecidos e desconhecidos... já tive vontade... tenho vontade... de fazer, com os dos outros, pois não tenho dos meus... Poemas.


Lódãos (Celtis australis) no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Lisboa, 19 de março de 2017.


Folhas, sentido(s), sentir... sinais.

É dia da Árvore e da Poesia... dá Alegria :)

sábado, 4 de março de 2017

Capitular.

O J assim destacado no início, artisticamente trabalhado, arado que abre leiras de palavras, a cornucópia fálica e uterina, símbolo da fertilidade, da riqueza e da abundância.


Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra
IAN/TT, Livro 4

Jessé e a cotovia entreolham-se, cantando-lhe as novas de um novo dia. Provavelmente outros olhos verão coisas diferentes, consoante sejam mais ou menos esclarecidos, mais ou menos jovens (stocks e fluxos mentais): um pai natal e um pombo, outro exemplo.

Quando se olha para uma letra Maiúscula e grande, caixa alta e corpo maior, na terminologia tipográfica, aparecem coisas escondidas, fica mais fácil intuir e imaginar, imaginar e pensar, o entendimento que se desenha.

Vitor Hugo viu no C o crescente, símbolo muçulmano ou o croissant (fiquei na dúvida ao traduzir), e a óbvia lua; o M, a montanha ou as tendas de um acampamento; o S, a serpente; o L, a perna e o pé. E por ai adiante, mas bastam-me estas para enlaçar uma amizade.

O texto original encontra-se AQUI, é delicioso e estimulante, podem ver diferente do Victor Hugo, e juntar o som da vossa voz, pausadamente e em tom ascendente: o S é imediato... sibilar... noutro registo deu o meu STRAIGHT.

Foi no livro do canadiano Carl Dair que descobri o texto do Vitor Hugo, traduzido para o inglês, já passaram alguns anos, mas nunca mais olhei para as letras da mesma forma, elas já eram especiais para mim, e mais especiais ficaram. Ao meu primo Paulo agradeço o ter escutado da sua boca os primeiros termos tipográficos que aprendi, e o gosto por essa arte, para além de moleiro também gostaria de ter sido tipógrafo... pluralidade dispersiva que me leva a nada.


Design with Type de Carl Dair, reimpressão de 1995. Comprei o livro a 8 de junho de 1997.


A terminar, letra A, de dois amigos que se abraçam e apertam as mãos, e voltando ao início, a minha cotovia já anuncia a primavera, nestas flores de Ameixoeira de jardim (Prunus cerasifera subsp. pissardii), fotografadas hoje por mim em Queluz.



Sibilina Leitura...

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sentir Helena.

O sentido estético da vida, a mestria manual, uma self-made women no seu métier de pintora e professora, elegante e organizada, cadência de exemplo e equilíbrio, que se impõe naturalmente. Umas mãos inteligentes.

Do primeiro contato ficaram as paisagens, tanto mais que algumas me eram familiares, mas o grande mistério foi a Toca. Afinal beirava a Avenida do Atlântico, por onde passo à várias décadas. As árvores sempre olhei para elas, mas na primeira visita guiada a Comissária da Exposição chamou a atenção para a influência das suas belas formas na decisão de compra da propriedade, onde posteriormente foi construída a Toca.

Na semana seguinte confirmei, é difícil, no percurso que medeia o Banzão e a Praia das Maçãs (Pinhal da Nazaré), encontrar pinheiros mansos com copas assim tão bonitas como os da Helena. Pensei fazer uma "reportagem fotográfica", explorar ao redor, tentar uma aproximação pelo lado da Sarrazola, e retratar/confrontar tão belos exemplares com a maioria ao redor, que assim revelados nos revelam o ser de Helena. Para mim foi uma comoção, com tudo o que possa ter de enternecimento e desordem, porque sou capaz de parar para admirar uma árvore e de lhe fazer uma carícia no tronco. Estas árvores passaram a fazer parte da minha paisagem mental, estavam lá e não as via. Agora, quando passo na Avenida, dou olhares à minha satisfação (o que faço naturalmente com outras tantas pequenas coisas do quotidiano).

Às flores cheguei depois, e por este delicioso detalhe dedicado à Helena, que escapa aos olhos...





Mais uma vez a ajuda da Comissária foi providencial, não só por revelar o que não está defronte, mas por referir a dedicação e o esmero no uso que lhe dava, como só a Helena sabia fazer, a composição. A ideia de recriar a sua função, mesmo que pontualmente, ao longo da programação para os 5 meses e 3 dias de duração da exposição, teria sido certamente um momento de comunhão e gratidão para com a Helena, e na memória de quem presenciasse certamente ficaria gravado esse apelo ao belo no quotidiano, banalidades femininas aos olhos incautos.
Imagem retirada do catálogo da exposição "Flor de Água: Helena Roque Gameiro (1895-1986) - Aguarela e Artes Aplicadas", pág. 6, anotada por mim. A imagem não revela a qualidade técnica. A sua cor esvaída denota o passar de um século.

De pormenores concretos de Gestão (self-made women) também e tão bem lidou a Helena: valorizar monetariamente e vender o que pintava, a atividade regular de professora, fontes alternativas de rendimento, formas de gerir as flutuações económicas (escassez versus abundância) e consequentes desfasamentos financeiros. Este prospeto é um verdadeiro must, leia-se com atenção. 




O pormenor do erro ortográfico, que me escapou, decorreu do interesse partilhado pela forma de publicitar, que levou a outras conversas, fora de contexto, mas que souberam tão bem. A pretexto da Helena aconteceram outros pretextos.

A cumplicidade e complementaridade entre Helena e José, seu marido (agradeço ao Afonso a disponibilização da sua conferência, no âmbito desta exposição, e também da sua tese de doutoramento), está espelhada na casa-cenário-refúgio de ambos, a começar pelo início de tudo, a compra do terreno pela Helena com o dinheiro que ganhou com a venda dos seus quadros (exposição de 1947): a Toca com as suas árvores e flores, jardim alcantilado defronte do espraiar da Serra de Sintra no horizonte, num fim de mar que não se vislumbra. E no sentido oposto, até onde conseguirei ver?



É o que tento descortinar a partir do que a Helena aguarelou.

Falar e aguarelar tocam-se no rimar: expressar com desvelo, como abrir a boca e falar [coisa acertada e bela], como respirar, sem deslumbramento, porque assim o é, essêncial.

Acanhado (ontem), por não ser oportuno, fiquei apenas com a pequena curiosidade satisfeita acerca da Torre do Leão, afinal um abrigo de atividades lúdicas, com nome à José, no mesmo perímetro da Toca. A explicação da neta Ana bastou, o pedido para espreitar a paisagem da Toca fica à espera de oportuno encontro, talvez no Bananeiro (Pomarinho da Várzea).

A caixa de pintura com o nome da neta Ana, primorosamente desenhado em jeito de monograma pela avó, e o pormenor de reservar para si o pintar a aguarela, nas saídas para o campo, enquanto a neta pintava a óleo, consentâneas com a sua percepção de tempos diferentes é surpreendente porque não a entendo.

Finalmente, o olhar melancólico de Helena (que vi nas suas fotos), a melancolia palpável que a neta Joana procurava entender. Talvez seja a veladura do tempo que se ía fechando, tal como nos seus quadros de paisagem (ou a perda das capacidades visuais com a idade, de que se queixava no final da vida), o "peso" acumulado ao longo do tempo, capturado no "barroco" das suas flores de 1967.




Com esta exposição, que está quase a terminar (espero ir no último dia), Helena regressou à sua casa primordial pela mão dedicada e delicada da Sandra Leandro. Para mim foi um belo momento, que reforça a minha querença no bem que nos faz em procurar dar um sentido estético desde o mais elementar quotidiano.

Obrigado Sandra Leandro.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

AsPaS.

Propiciam o movimento, volteando a imaginação.



Ilustração de ETC (Eduardo Teixeira Coelho)



Abrindo aspas...

[...] Vês além trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso batalhar e tirar-lhes a todos a vida; os despojos começam a enriquecer-nos. Esta é boa guerra e bom serviço se faz a Deus: acabar com tão má raça à face da terra.
[...]
– Bem se vê, respondeu D. Quixote, que nada sabes de aventuras. São gigantes e, se tens medo, sai daí e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em feroz e desigual batalha.
[...]
– Não fujam, criaturas vis e cobardes, um só cavaleiro vos investe!
Levantou-se nesse momento um pouco de vento e as velas começaram a mover-se. D. Quixote, vendo-as em movimento, disse:
– Ainda que movam mais braços que o gigante Briaran, hão-de-mas pagar.
Dizendo isto, bem coberto com o escudo, encomendou-se à sua senhora Dulcineia e, com a lança em riste, lançou-se sobre a vela do primeiro [...]
A vela arrastou cavalo e cavaleiro, projectando-os a alguma distância muito maltratados.
[...]
Só podia ignorar isso quem tivesse outros dentro da cabeça.
– Cala-te, respondeu o herói, as coisas de guerra são muito sujeitas a caprichos da sorte, sobretudo quando se tem por inimigo o temível encantador Frestão que me roubou o aposento e os livros. Ele transformou estes gigantes [...] para me retirar a glória de os vencer, tal é a inimizade que me tem.

in Dom Quixote de la Mancha, na tradução/adaptação de Maria Ponce, a que tenho, mas a que procuro é a tradução/adaptação de Pedro da Silveira, também para a mesma Biblioteca dos Rapazes. É uma pequena demanda minha.

Parecia um conjunto de flautas gigantes, com uma sonoridade profunda, intensa e invulgar que não conseguia identificar. [...]

Entretanto, fui percebendo que um vulto furtivo ia espreitando da pequena janela [...].

O som que eu tinha ouvido e gravado era proveniente das cabaças, aqueles vasos de barro, de diferentes tamanhos, que são presos às velas [...]. [...] Os maiores produzem o som mais grave e os mais pequenos o mais agudo. A frequência do som depende da velocidade do vento e, consequentemente da velocidade de rotação das velas. Maior velocidade corresponde a menor frequência. Logo no momento em que o som se torna mais grave – quando a velocidade de rotação das velas era suficientemente alta para excitar os vasos maiores, que produzem a frequência mais grave – é altura de deitar o grão nas mós e começar a moagem. [...] A frequência mais grave indica também perigo. Quando se faz ouvir, é o momento de travar o mecanismo, de rodar as velas para uma posição segura [...]. O sistema de cabaças é uma espécie de analisador de frequências analógico.
E há outro pormenor: o moleiro, do alto [...] ouvia todos os sons distantes à sua volta e, além da velocidade do vento, que lhe era indicada pelo sistema de cabaças, sabia a sua direcção, pela natureza dos sons longínquos que lhe chegavam: os do mar indicavam que o vento estava de poente e os do campo, das serras e das quintas indicavam que vinha de nascente.
[...] Também o estado das diferentes componentes do complexo mecanismo [...], feitas de madeira, é avaliado através do toque e do som que produzem durante o funcionamento. Pelo toque se detectam eventuais rachas e defeitos na estrutura da madeira e pela escuta contínua do modo como todo aquele mecanismo vai soando se detecta alguma eventual anomalia que obrigaria a chamar o mecânico-carpinteiro [...]. Com a ajuda do som se conduzem ainda outras operações, como a distribuição do cereal pelos diversos andares, quando é caso disso. O mecanismo [...] é como uma grande orquestra afinada e o moleiro o maestro-compositor, que escreve a música, dirige os instrumentos e corrige as desafinações. [...]

in Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa

Acontece muitas vezes [...] ver o moleiro sentado, ou a mexericar em coisa sem importância. [...] Vida descansada? [...] É certo que parte do trabalho [...] é de simples vigilância. [...] Mas o próprio maquinismo da moagem pede atenção. É o deitar o grão na moega; o ensacar a farinha do tremonhador; um pequeno jeito no aliviadouro, quando o girar da mó não dá boa farinha.
Tarefa mais trabalhosa é o picar das mós. A frequência da picagem depende, evidentemente, da duração do trabalho de moagem e da dureza das pedras. Mas se aquele fôr constante e rápido, pode a picagem ter de ser feita de três em três dias, e mesmo menos.
Estas são as tarefas normais de um moleiro. Mas há uma peça que se parte, apodrece ou desloca. E há grandes desgraças de um mastro que se parte [...].
Claro que em casos assim sérios, quem os resolve são os especialistas, mas o moleiro acompanha, vigia, e muitas vezes aconselha. Porque o moleiro é igualmente um homem com habilidade, por vezes mesmo engenhoso, habituado a contar apenas consigo para qualquer compustura [...].
É talvez este isolamento em que decorre a vida do moleiro que contribui para a sua maneira cordial de receber quem chega. [...]

[...] a maneira como, em certas áreas, se dispõe o velame, constitui uma linguagem significante, concebida para proclamar ou comunicar à distância factos especialmente relevantes respeitantes a determinados aspectos da vida do moleiro ou à actividade [...]. [...] em caso de luto [...] dispõem-se as varas do velame "em cruz", com o pano colhido [...] a indicar que [...] não havia cereal para moer, e a pedir grão, armava-se [...] uma vela única, e punha-se ao alto. [...] uma vela única a um terço do pano ou enrolada com cinco voltas num dos estais [...] o moleiro ia picar as mós [...] embora parado, havia [...] gente, que podia receber o grão. [...]

in Tecnologia Tradicional Portuguesa Sistemas de Moagem, página 487-488

[...] Os moleiros do Oeste têm ainda uma forma muito característica de denominar as diferentes direcções do vento. Assim, um vento de Nordeste é denominado de Norte-Alto, um vento de Este tem o nome de vento Suão, um vento de Sudeste é chamado de Charoco, o vento Sudoeste é chamado de vento Travessio, um vento do quadrante Oeste chama- se Mareiro, e o vento de Noroeste é o vento da Berlenga, ou Berlengueiro (nome que lhe foi atribuído por vir da direcção das ilhas Berlengas). [...]

in Simbologia associada aos moinhos de vento do Oeste, de Fátima Nunes.

... fechando aspaS.


As aspas, no apanhar de citações, são também as velas do moinho, entre o ganha-pão e o molinar na cabeça de quem não tem os pés assentes na terra, cabeça de vento, ou anda às voltas com as palavras, moleiro das palavras, como o era Vitorino Nemésio pela forma como conjugava o gosto pelas duas artes (escrita e molinologia). Fica em falta uma citação sua, e tudo isto começou porque tomei conhecimento das Cartas do Meu Moinho de Alphonse Daudet, que continuo a desconhecer, e antes de tudo, porque gostaria muito de ter um moinho... é um desejo, velho.


... GiRaNdO... parabéns Francisca :)

domingo, 29 de janeiro de 2017

Descompromisso.

No início de um novo ciclo existe sempre aquela manifesta vontade de mudar qualquer coisa, para que conste, talvez tentando aliviar carga passada e angariar alento [para o] futuro (retirar parêntesis retos e ficar "para o" é o desejável, porque senão não existe vontade, e estaremos perante a capitulação).

O meu problema de espaço e tempo levou-me a formular um compromisso para 2017: estabelecer uma cota mensal de 1 por mês.

Fui logo posto à prova no dia 4 de janeiro, quando vejo [leio] no escaparate da Isabel o seguinte verso:





























































Para mim é inata esta noção de habitação, e a palavra casa é que é sinónimo de toca :) A minha "mesinha de apoio" (fica na estante) também existe :) E para complicar mais as coisas o conteúdo prometia, no texto e nas imagens [novas leituras, quase proféticas para mim]:












































O texto do Miguel Esteves Cardosos AQUI, que não conhecia, "pregado" na parede, como acontece comigo com outros textos ou imagens. Copiado e colado aqui fica:

«É bom fingir que se está a fugir, que não se pode ficar em casa nem ir a lugares previsíveis, onde se pode ser apanhado.

Ir ao cinema é sempre uma fuga. É pena não haver escuridão total. Mas há horários em que se consegue estar sozinho a ver um filme.

Há lugares perto de onde vivemos - ou, melhor ainda, longe - aonde nunca fomos. É bom ser-se turista numa terra que ninguém visita.

É bom saber que ninguém nos pode localizar. Localizar está para a liberdade como conservar para as sardinhas.

Os fugitivos são, por definição - e não só nos filmes de Nicholas Ray - felizes. Fugir é bom. As responsabilidades, de que toda a gente está sempre a falar, são más para nós. Nem sequer são boas para os outros.

Fugir sem ter razão para fugir é um acto libertador de cobardia criativa. O medo é, tal como a preguiça e todas as espécies (sem distinção) de egoísmo, uma manifestação da mais elevada inteligência.

"Fica-te", dizem os escravos que absorveram os interesses dos esclavagistas. "Deixa-te ficar; contenta-te com o que tens; enfrenta aquilo que tens para enfrentar", aconselham os carrascos já derrotados da liberdade.

Os escravos verdadeiros fugiam mesmo quando corriam o risco de morrer. Que se há-de dizer dos escravos figurativos de hoje em dia que, quando fogem, só correm o risco de viver?

Desliguem-se os telemóveis. Mudem-se as coordenadas. Confundam-se as tentativas de contacto. Fugir é cada vez mais difícil mas é cada vez mais necessário.

Fujamos já!»

Em casa ou no trabalho existe sempre um mural, limitado e que se vai mutando [desculpa-te]. Faz parte do local de vivência.

"Resistindo", só no dia seguinte cortei o impasse, janeiro ficaria já "gasto", e a pretexto de já lá não estar na próxima semana, comprei.

Perante o que me estava a acontecer, na "ficha de registro bibliográfico", que por norma costumo acrescentar a lápis 3B ou 6B, numa das primeiras páginas livres interiores, escrevi o seguinte:



Estava formulado o descompromisso.

A terminar, e para que conste, a palavra não existe no dicionário, e como exercício de imaginação aproxima-se da ignorância, como incompromisso.

in continuum

Na lista de janeiro constam os seguintes títulos, por ordem cronológica de surgimento:

1. Paul Celan, na tradução de João Barrento, mas por onde começar? Certo que alguma prosa sobre o seu percurso iria ajudar, e ISTO baralhou mais um pouco (porque é o único que está disponível nas livrarias). Por indicação de uma pessoa que não conheço mas que me encantou;

2. The Wonderful World of Albert Kahn AQUI. Depois de ver um programa na TV;

3. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy AQUI. Depois de ler no jornal. Na livraria mais próxima não tinham para eu poder sentir a primeira impressão [é uma cadeia de impressões, da física à mental]. Li mais sobre AQUI, mas falta o principal;

4. Melancolia e Arquitectura em Aldo Rossi AQUI. Depois de passear pela livraria e encontrar, sem estar à procura. Melancolia é palavra mágica, e o ano tinha começado sob a batuta da arquitetura. Este texto tentou-me na certeza de que era a escolha certa;

5. Cartas de amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz cônsul de Portugal em Havana (1873-1874) AQUI. Já não está no alfarrabista para venda. Mas «A este mistério, juntam-se mais dois: no espólio existe uma fotografia de uma das duas. Será de Mollie, se aceitarmos a tese avançada pelo filho do escritor quando se refere à existência de "um lindo e doce retrato"? Ou será de Anna se levarmos em linha de conta que ela lhe prometeu enviar uma? E, mistério dos mistérios, como é que foi possível estas cartas chegarem até aos nossos dias?» AQUI.

E tudo isto acontece porque me "cruzei" com uma pessoa, vi um programa na televisão, li num jornal, passeei numa livraria, consultei a lista de um alfarrabista, e a algum de vós irei agradecer, se me ajudar na escolha :)

domingo, 15 de janeiro de 2017

Vender peixe.

Por vezes uma imagem momentânea puxa outras que se encontram no arquivo da memória. Foi o que me aconteceu no passado domingo (8 de janeiro), enquanto assistia ao programa «O Mundo Maravilhoso de Albert Kahn» na RTP2.

A imagem de duas mulheres que vendem peixe em Galway, na Irlanda, autocromo tirado por Marguerite Mespoulet a 26 de maio de 1913, rapidamente me transportou para uma outra imagem.


Foto retirada DAQUI.


Esta, que vi e fotografei na exposição "Uma História de Duas Cidades - Lisboa e Edimburgo". Aqui o que me chamou a atenção foi o enorme cesto e o que está escrito na legenda: a "manutenção da família depende da indústria da esposa".





E daqui rapidamente pensei n'«As Mulheres do Meu País» de Maria Lamas e nas varinas saíndo para a venda, fotografadas pelo Joshua Benoliel em 1909 na Ribeira Nova, em Lisboa.


Foto retirada DAQUI.

Mas Stuart Carvalhais, casado com uma varina, fato de que só tive consciência no passado dia 3 de dezembro, na Casa Roque Gameiro (saborosas e improváveis colateralidades, mas que acontecem, como a de ontem, ao descobrir Paul Celan, ou a palavra appartema[e]nts com erro ortográfico, também no mesmo local) captou-lhes a essência no traço, da mesma forma que, num outro olhar, mais próximo do que Mário Eloy pintou,  Cesário escreveu n' «O Sentimento dum Ocidental»:

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

As varinas do Stuart são elegantes e irreverentes, próximas da descrição que acompanha a fotorreportagem de Benoliel sobre as mesmas na Illustração Portugueza de 19 de agosto de 1912, n.º 339, AQUI:
Teem um ar elegante, o seio bem formado, lembram por vezes estatuas quando, de braços ao ar, erguem a canastra, olhando para os andares, e quando se vê passar as que são assim esculturaes e belas, pensa-se que andam pagando algum pecado feito por uma das suas formosas avós, que fôsse condenada a ter uma descendencia de belezas rudemente destinadas a andarem ajoujadas debaixo da giga, correndo as cidades, cantando pregões.



- Oh! Die Varine!


A VARINA E O POLÍCIA DA COBRANÇA

- Ó vira-me as costas!

- Que lindo exemplar de raça fenícia!

- Fenícia era a sua avó!

- Venha abaixo!


Descia a Rua Morais Soares, perto do Mercado de Arroios, quando de repente uma varina, bonita,  choca contra si, espalhando o peixe no chão e aplicando-lhe de seguida uma bofetada, prontamente retribuída com outra, por parte de quem tinha recebido a primeira. Troca exaltada de palavras, os transeuntes que se aproximam e tomam partido: o "menino" não teve culpa. O polícia que passa e a intima: vamos para a esquadra, já estou farto de a avisar para não fazer o mesmo.

Era assim, tentando de uma só vez vender o peixe que restava, ou que não conseguira vender, simulando o acidente/atrevimento provocado pela incauta vítima, e que obviamente iria pagar a "fatura", atordoado com a respetiva bofetada. Dessa vez não "colou".

O "menino" desta estória é o meu pai, tinha 21 anos quando isto aconteceu em 1959.

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P.S. As ilustrações do Stuart que aparecem nesta página foram escolhidas, digitalizadas, e tratadas por mim no computador, do livro «STUART - ORGANIZAÇÃO, SELECÇÃO E ARRANJO GRÁFICO DE NELSON DE BARROS; PREFÁCIO DE LEITÃO DE BARROS». Ficha bibliográfica AQUI.

Irmã e primos, ao lerem esta mensagem recordem-se que o negócio de vender peixe também passou pela família, o nosso bisavô Joaquim da Silva. Também o meu avô Joaquim Lameiras vendeu peixe.