domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sentir Helena.

O sentido estético da vida, a mestria manual, uma self-made women no seu métier de pintora e professora, elegante e organizada, cadência de exemplo e equilíbrio, que se impõe naturalmente. Umas mãos inteligentes.

Do primeiro contato ficaram as paisagens, tanto mais que algumas me eram familiares, mas o grande mistério foi a Toca. Afinal beirava a Avenida do Atlântico, por onde passo à várias décadas. As árvores sempre olhei para elas, mas na primeira visita guiada a Comissária da Exposição chamou a atenção para a influência das suas belas formas na decisão de compra da propriedade, onde posteriormente foi construída a Toca.

Na semana seguinte confirmei, é difícil, no percurso que medeia o Banzão e a Praia das Maçãs (Pinhal da Nazaré), encontrar pinheiros mansos com copas assim tão bonitas como os da Helena. Pensei fazer uma "reportagem fotográfica", explorar ao redor, tentar uma aproximação pelo lado da Sarrazola, e retratar/confrontar tão belos exemplares com a maioria ao redor, que assim revelados nos revelam o ser de Helena. Para mim foi uma comoção, com tudo o que possa ter de enternecimento e desordem, porque sou capaz de parar para admirar uma árvore e de lhe fazer uma carícia no tronco. Estas árvores passaram a fazer parte da minha paisagem mental, estavam lá e não as via. Agora, quando passo na Avenida, dou olhares à minha satisfação (o que faço naturalmente com outras tantas pequenas coisas do quotidiano).

Às flores cheguei depois, e por este delicioso detalhe dedicado à Helena, que escapa aos olhos...





Mais uma vez a ajuda da Comissária foi providencial, não só por revelar o que não está defronte, mas por referir a dedicação e o esmero no uso que lhe dava, como só a Helena sabia fazer, a composição. A ideia de recriar a sua função, mesmo que pontualmente, ao longo da programação para os 5 meses e 3 dias de duração da exposição, teria sido certamente um momento de comunhão e gratidão para com a Helena, e na memória de quem presenciasse certamente ficaria gravado esse apelo ao belo no quotidiano, banalidades femininas aos olhos incautos.
Imagem retirada do catálogo da exposição "Flor de Água: Helena Roque Gameiro (1895-1986) - Aguarela e Artes Aplicadas", pág. 6, anotada por mim. A imagem não revela a qualidade técnica. A sua cor esvaída denota o passar de um século.

De pormenores concretos de Gestão (self-made women) também e tão bem lidou a Helena: valorizar monetariamente e vender o que pintava, a atividade regular de professora, fontes alternativas de rendimento, formas de gerir as flutuações económicas (escassez versus abundância) e consequentes desfasamentos financeiros. Este prospeto é um verdadeiro must, leia-se com atenção. 




O pormenor do erro ortográfico, que me escapou, decorreu do interesse partilhado pela forma de publicitar, que levou a outras conversas, fora de contexto, mas que souberam tão bem. A pretexto da Helena aconteceram outros pretextos.

A cumplicidade e complementaridade entre Helena e José, seu marido (agradeço ao Afonso a disponibilização da sua conferência, no âmbito desta exposição, e também da sua tese de doutoramento), está espelhada na casa-cenário-refúgio de ambos, a começar pelo início de tudo, a compra do terreno pela Helena com o dinheiro que ganhou com a venda dos seus quadros (exposição de 1947): a Toca com as suas árvores e flores, jardim alcantilado defronte do espraiar da Serra de Sintra no horizonte, num fim de mar que não se vislumbra. E no sentido oposto, até onde conseguirei ver?



É o que tento descortinar a partir do que a Helena aguarelou.

Falar e aguarelar tocam-se no rimar: expressar com desvelo, como abrir a boca e falar [coisa acertada e bela], como respirar, sem deslumbramento, porque assim o é, essêncial.

Acanhado (ontem), por não ser oportuno, fiquei apenas com a pequena curiosidade satisfeita acerca da Torre do Leão, afinal um abrigo de atividades lúdicas, com nome à José, no mesmo perímetro da Toca. A explicação da neta Ana bastou, o pedido para espreitar a paisagem da Toca fica à espera de oportuno encontro, talvez no Bananeiro (Pomarinho da Várzea).

A caixa de pintura com o nome da neta Ana, primorosamente desenhado em jeito de monograma pela avó, e o pormenor de reservar para si o pintar a aguarela, nas saídas para o campo, enquanto a neta pintava a óleo, consentâneas com a sua percepção de tempos diferentes é surpreendente porque não a entendo.

Finalmente, o olhar melancólico de Helena (que vi nas suas fotos), a melancolia palpável que a neta Joana procurava entender. Talvez seja a veladura do tempo que se ía fechando, tal como nos seus quadros de paisagem (ou a perda das capacidades visuais com a idade, de que se queixava no final da vida), o "peso" acumulado ao longo do tempo, capturado no "barroco" das suas flores de 1967.




Com esta exposição, que está quase a terminar (espero ir no último dia), Helena regressou à sua casa primordial pela mão dedicada e delicada da Sandra Leandro. Para mim foi um belo momento, que reforça a minha querença no bem que nos faz em procurar dar um sentido estético desde o mais elementar quotidiano.

Obrigado Sandra Leandro.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

AsPaS.

Propiciam o movimento, volteando a imaginação.



Ilustração de ETC (Eduardo Teixeira Coelho)



Abrindo aspas...

[...] Vês além trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso batalhar e tirar-lhes a todos a vida; os despojos começam a enriquecer-nos. Esta é boa guerra e bom serviço se faz a Deus: acabar com tão má raça à face da terra.
[...]
– Bem se vê, respondeu D. Quixote, que nada sabes de aventuras. São gigantes e, se tens medo, sai daí e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em feroz e desigual batalha.
[...]
– Não fujam, criaturas vis e cobardes, um só cavaleiro vos investe!
Levantou-se nesse momento um pouco de vento e as velas começaram a mover-se. D. Quixote, vendo-as em movimento, disse:
– Ainda que movam mais braços que o gigante Briaran, hão-de-mas pagar.
Dizendo isto, bem coberto com o escudo, encomendou-se à sua senhora Dulcineia e, com a lança em riste, lançou-se sobre a vela do primeiro [...]
A vela arrastou cavalo e cavaleiro, projectando-os a alguma distância muito maltratados.
[...]
Só podia ignorar isso quem tivesse outros dentro da cabeça.
– Cala-te, respondeu o herói, as coisas de guerra são muito sujeitas a caprichos da sorte, sobretudo quando se tem por inimigo o temível encantador Frestão que me roubou o aposento e os livros. Ele transformou estes gigantes [...] para me retirar a glória de os vencer, tal é a inimizade que me tem.

in Dom Quixote de la Mancha, na tradução/adaptação de Maria Ponce, a que tenho, mas a que procuro é a tradução/adaptação de Pedro da Silveira, também para a mesma Biblioteca dos Rapazes. É uma pequena demanda minha.

Parecia um conjunto de flautas gigantes, com uma sonoridade profunda, intensa e invulgar que não conseguia identificar. [...]

Entretanto, fui percebendo que um vulto furtivo ia espreitando da pequena janela [...].

O som que eu tinha ouvido e gravado era proveniente das cabaças, aqueles vasos de barro, de diferentes tamanhos, que são presos às velas [...]. [...] Os maiores produzem o som mais grave e os mais pequenos o mais agudo. A frequência do som depende da velocidade do vento e, consequentemente da velocidade de rotação das velas. Maior velocidade corresponde a menor frequência. Logo no momento em que o som se torna mais grave – quando a velocidade de rotação das velas era suficientemente alta para excitar os vasos maiores, que produzem a frequência mais grave – é altura de deitar o grão nas mós e começar a moagem. [...] A frequência mais grave indica também perigo. Quando se faz ouvir, é o momento de travar o mecanismo, de rodar as velas para uma posição segura [...]. O sistema de cabaças é uma espécie de analisador de frequências analógico.
E há outro pormenor: o moleiro, do alto [...] ouvia todos os sons distantes à sua volta e, além da velocidade do vento, que lhe era indicada pelo sistema de cabaças, sabia a sua direcção, pela natureza dos sons longínquos que lhe chegavam: os do mar indicavam que o vento estava de poente e os do campo, das serras e das quintas indicavam que vinha de nascente.
[...] Também o estado das diferentes componentes do complexo mecanismo [...], feitas de madeira, é avaliado através do toque e do som que produzem durante o funcionamento. Pelo toque se detectam eventuais rachas e defeitos na estrutura da madeira e pela escuta contínua do modo como todo aquele mecanismo vai soando se detecta alguma eventual anomalia que obrigaria a chamar o mecânico-carpinteiro [...]. Com a ajuda do som se conduzem ainda outras operações, como a distribuição do cereal pelos diversos andares, quando é caso disso. O mecanismo [...] é como uma grande orquestra afinada e o moleiro o maestro-compositor, que escreve a música, dirige os instrumentos e corrige as desafinações. [...]

in Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa

Acontece muitas vezes [...] ver o moleiro sentado, ou a mexericar em coisa sem importância. [...] Vida descansada? [...] É certo que parte do trabalho [...] é de simples vigilância. [...] Mas o próprio maquinismo da moagem pede atenção. É o deitar o grão na moega; o ensacar a farinha do tremonhador; um pequeno jeito no aliviadouro, quando o girar da mó não dá boa farinha.
Tarefa mais trabalhosa é o picar das mós. A frequência da picagem depende, evidentemente, da duração do trabalho de moagem e da dureza das pedras. Mas se aquele fôr constante e rápido, pode a picagem ter de ser feita de três em três dias, e mesmo menos.
Estas são as tarefas normais de um moleiro. Mas há uma peça que se parte, apodrece ou desloca. E há grandes desgraças de um mastro que se parte [...].
Claro que em casos assim sérios, quem os resolve são os especialistas, mas o moleiro acompanha, vigia, e muitas vezes aconselha. Porque o moleiro é igualmente um homem com habilidade, por vezes mesmo engenhoso, habituado a contar apenas consigo para qualquer compustura [...].
É talvez este isolamento em que decorre a vida do moleiro que contribui para a sua maneira cordial de receber quem chega. [...]

[...] a maneira como, em certas áreas, se dispõe o velame, constitui uma linguagem significante, concebida para proclamar ou comunicar à distância factos especialmente relevantes respeitantes a determinados aspectos da vida do moleiro ou à actividade [...]. [...] em caso de luto [...] dispõem-se as varas do velame "em cruz", com o pano colhido [...] a indicar que [...] não havia cereal para moer, e a pedir grão, armava-se [...] uma vela única, e punha-se ao alto. [...] uma vela única a um terço do pano ou enrolada com cinco voltas num dos estais [...] o moleiro ia picar as mós [...] embora parado, havia [...] gente, que podia receber o grão. [...]

in Tecnologia Tradicional Portuguesa Sistemas de Moagem, página 487-488

[...] Os moleiros do Oeste têm ainda uma forma muito característica de denominar as diferentes direcções do vento. Assim, um vento de Nordeste é denominado de Norte-Alto, um vento de Este tem o nome de vento Suão, um vento de Sudeste é chamado de Charoco, o vento Sudoeste é chamado de vento Travessio, um vento do quadrante Oeste chama- se Mareiro, e o vento de Noroeste é o vento da Berlenga, ou Berlengueiro (nome que lhe foi atribuído por vir da direcção das ilhas Berlengas). [...]

in Simbologia associada aos moinhos de vento do Oeste, de Fátima Nunes.

... fechando aspaS.


As aspas, no apanhar de citações, são também as velas do moinho, entre o ganha-pão e o molinar na cabeça de quem não tem os pés assentes na terra, cabeça de vento, ou anda às voltas com as palavras, moleiro das palavras, como o era Vitorino Nemésio pela forma como conjugava o gosto pelas duas artes (escrita e molinologia). Fica em falta uma citação sua, e tudo isto começou porque tomei conhecimento das Cartas do Meu Moinho de Alphonse Daudet, que continuo a desconhecer, e antes de tudo, porque gostaria muito de ter um moinho... é um desejo, velho.


... GiRaNdO... parabéns Francisca :)

domingo, 29 de janeiro de 2017

Descompromisso.

No início de um novo ciclo existe sempre aquela manifesta vontade de mudar qualquer coisa, para que conste, talvez tentando aliviar carga passada e angariar alento [para o] futuro (retirar parêntesis retos e ficar "para o" é o desejável, porque senão não existe vontade, e estaremos perante a capitulação).

O meu problema de espaço e tempo levou-me a formular um compromisso para 2017: estabelecer uma cota mensal de 1 por mês.

Fui logo posto à prova no dia 4 de janeiro, quando vejo [leio] no escaparate da Isabel o seguinte verso:





























































Para mim é inata esta noção de habitação, e a palavra casa é que é sinónimo de toca :) A minha "mesinha de apoio" (fica na estante) também existe :) E para complicar mais as coisas o conteúdo prometia, no texto e nas imagens [novas leituras, quase proféticas para mim]:












































O texto do Miguel Esteves Cardosos AQUI, que não conhecia, "pregado" na parede, como acontece comigo com outros textos ou imagens. Copiado e colado aqui fica:

«É bom fingir que se está a fugir, que não se pode ficar em casa nem ir a lugares previsíveis, onde se pode ser apanhado.

Ir ao cinema é sempre uma fuga. É pena não haver escuridão total. Mas há horários em que se consegue estar sozinho a ver um filme.

Há lugares perto de onde vivemos - ou, melhor ainda, longe - aonde nunca fomos. É bom ser-se turista numa terra que ninguém visita.

É bom saber que ninguém nos pode localizar. Localizar está para a liberdade como conservar para as sardinhas.

Os fugitivos são, por definição - e não só nos filmes de Nicholas Ray - felizes. Fugir é bom. As responsabilidades, de que toda a gente está sempre a falar, são más para nós. Nem sequer são boas para os outros.

Fugir sem ter razão para fugir é um acto libertador de cobardia criativa. O medo é, tal como a preguiça e todas as espécies (sem distinção) de egoísmo, uma manifestação da mais elevada inteligência.

"Fica-te", dizem os escravos que absorveram os interesses dos esclavagistas. "Deixa-te ficar; contenta-te com o que tens; enfrenta aquilo que tens para enfrentar", aconselham os carrascos já derrotados da liberdade.

Os escravos verdadeiros fugiam mesmo quando corriam o risco de morrer. Que se há-de dizer dos escravos figurativos de hoje em dia que, quando fogem, só correm o risco de viver?

Desliguem-se os telemóveis. Mudem-se as coordenadas. Confundam-se as tentativas de contacto. Fugir é cada vez mais difícil mas é cada vez mais necessário.

Fujamos já!»

Em casa ou no trabalho existe sempre um mural, limitado e que se vai mutando [desculpa-te]. Faz parte do local de vivência.

"Resistindo", só no dia seguinte cortei o impasse, janeiro ficaria já "gasto", e a pretexto de já lá não estar na próxima semana, comprei.

Perante o que me estava a acontecer, na "ficha de registro bibliográfico", que por norma costumo acrescentar a lápis 3B ou 6B, numa das primeiras páginas livres interiores, escrevi o seguinte:



Estava formulado o descompromisso.

A terminar, e para que conste, a palavra não existe no dicionário, e como exercício de imaginação aproxima-se da ignorância, como incompromisso.

in continuum

Na lista de janeiro constam os seguintes títulos, por ordem cronológica de surgimento:

1. Paul Celan, na tradução de João Barrento, mas por onde começar? Certo que alguma prosa sobre o seu percurso iria ajudar, e ISTO baralhou mais um pouco (porque é o único que está disponível nas livrarias). Por indicação de uma pessoa que não conheço mas que me encantou;

2. The Wonderful World of Albert Kahn AQUI. Depois de ver um programa na TV;

3. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy AQUI. Depois de ler no jornal. Na livraria mais próxima não tinham para eu poder sentir a primeira impressão [é uma cadeia de impressões, da física à mental]. Li mais sobre AQUI, mas falta o principal;

4. Melancolia e Arquitectura em Aldo Rossi AQUI. Depois de passear pela livraria e encontrar, sem estar à procura. Melancolia é palavra mágica, e o ano tinha começado sob a batuta da arquitetura. Este texto tentou-me na certeza de que era a escolha certa;

5. Cartas de amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz cônsul de Portugal em Havana (1873-1874) AQUI. Já não está no alfarrabista para venda. Mas «A este mistério, juntam-se mais dois: no espólio existe uma fotografia de uma das duas. Será de Mollie, se aceitarmos a tese avançada pelo filho do escritor quando se refere à existência de "um lindo e doce retrato"? Ou será de Anna se levarmos em linha de conta que ela lhe prometeu enviar uma? E, mistério dos mistérios, como é que foi possível estas cartas chegarem até aos nossos dias?» AQUI.

E tudo isto acontece porque me "cruzei" com uma pessoa, vi um programa na televisão, li num jornal, passeei numa livraria, consultei a lista de um alfarrabista, e a algum de vós irei agradecer, se me ajudar na escolha :)

domingo, 15 de janeiro de 2017

Vender peixe.

Por vezes uma imagem momentânea puxa outras que se encontram no arquivo da memória. Foi o que me aconteceu no passado domingo (8 de janeiro), enquanto assistia ao programa «O Mundo Maravilhoso de Albert Kahn» na RTP2.

A imagem de duas mulheres que vendem peixe em Galway, na Irlanda, autocromo tirado por Marguerite Mespoulet a 26 de maio de 1913, rapidamente me transportou para uma outra imagem.


Foto retirada DAQUI.


Esta, que vi e fotografei na exposição "Uma História de Duas Cidades - Lisboa e Edimburgo". Aqui o que me chamou a atenção foi o enorme cesto e o que está escrito na legenda: a "manutenção da família depende da indústria da esposa".





E daqui rapidamente pensei n'«As Mulheres do Meu País» de Maria Lamas e nas varinas saíndo para a venda, fotografadas pelo Joshua Benoliel em 1909 na Ribeira Nova, em Lisboa.


Foto retirada DAQUI.

Mas Stuart Carvalhais, casado com uma varina, fato de que só tive consciência no passado dia 3 de dezembro, na Casa Roque Gameiro (saborosas e improváveis colateralidades, mas que acontecem, como a de ontem, ao descobrir Paul Celan, ou a palavra appartema[e]nts com erro ortográfico, também no mesmo local) captou-lhes a essência no traço, da mesma forma que, num outro olhar, mais próximo do que Mário Eloy pintou,  Cesário escreveu n' «O Sentimento dum Ocidental»:

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

As varinas do Stuart são elegantes e irreverentes, próximas da descrição que acompanha a fotorreportagem de Benoliel sobre as mesmas na Illustração Portugueza de 19 de agosto de 1912, n.º 339, AQUI:
Teem um ar elegante, o seio bem formado, lembram por vezes estatuas quando, de braços ao ar, erguem a canastra, olhando para os andares, e quando se vê passar as que são assim esculturaes e belas, pensa-se que andam pagando algum pecado feito por uma das suas formosas avós, que fôsse condenada a ter uma descendencia de belezas rudemente destinadas a andarem ajoujadas debaixo da giga, correndo as cidades, cantando pregões.



- Oh! Die Varine!


A VARINA E O POLÍCIA DA COBRANÇA

- Ó vira-me as costas!

- Que lindo exemplar de raça fenícia!

- Fenícia era a sua avó!

- Venha abaixo!


Descia a Rua Morais Soares, perto do Mercado de Arroios, quando de repente uma varina, bonita,  choca contra si, espalhando o peixe no chão e aplicando-lhe de seguida uma bofetada, prontamente retribuída com outra, por parte de quem tinha recebido a primeira. Troca exaltada de palavras, os transeuntes que se aproximam e tomam partido: o "menino" não teve culpa. O polícia que passa e a intima: vamos para a esquadra, já estou farto de a avisar para não fazer o mesmo.

Era assim, tentando de uma só vez vender o peixe que restava, ou que não conseguira vender, simulando o acidente/atrevimento provocado pela incauta vítima, e que obviamente iria pagar a "fatura", atordoado com a respetiva bofetada. Dessa vez não "colou".

O "menino" desta estória é o meu pai, tinha 21 anos quando isto aconteceu em 1959.

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P.S. As ilustrações do Stuart que aparecem nesta página foram escolhidas, digitalizadas, e tratadas por mim no computador, do livro «STUART - ORGANIZAÇÃO, SELECÇÃO E ARRANJO GRÁFICO DE NELSON DE BARROS; PREFÁCIO DE LEITÃO DE BARROS». Ficha bibliográfica AQUI.

Irmã e primos, ao lerem esta mensagem recordem-se que o negócio de vender peixe também passou pela família, o nosso bisavô Joaquim da Silva. Também o meu avô Joaquim Lameiras vendeu peixe.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Procurei Zeus.

Não propriamente, mas o navio que levou Manuel Teixeira Gomes ao exílio. Penso que é este:




Não foi difícil, não foi direto, não foi por onde pensei que iria encontrar, tudo contabilizado perfaz cerca de um quarto de hora. A ponta que encontrei foi ESTA, depois puxei ESTA, que não deu em nada, mas com um pequeno truque encontrei o que procurava, AQUI.

"O embarque fêz-se na doca dos submersíveis, na manhã de 17 de Dezembro [1925], para bordo do navio de carga holandês «Zeus», o primeiro que tocava em Lisboa com destino ao norte de África após a renúncia de Teixeira Gomes [a 10 de dezembro de 1925]. [...] Ao largo, o «Zeus» aguardava o seu único passageiro." (in O Exilado de Bougie, 200-201, de Norberto Lopes, Lisboa 1942, Parceria António Maria Pereira).

O navio dispunha de acomodações para 3 passageiros, mais 27 passageiros no convés. Terminaria os seus dias com outro nome, Boudjmel (camelo em arábico).

"[...] A embarcação afastou-se e não tardou a desaparecer na bruma do Tejo [retórica?]. O barco partiu. E êle não voltou." (in O Exilado de Bougie, 201)

"[...] e supersticioso como um livre-pensador, augurei muito bem de uma viagem começada sob a égide do Rei do Olimpo. (in O Exilado de Bougie, 208)

Setúbal, Tânger, Gibraltar e Oran, onde desembarcou.

Tlémcen, Taza, Fez, Mequinez, Argel... "E pôs-se a viajar, «sòzinho», como êle gostava, «sem um plano definido de viagem, nem itinerário certo», perdendo-se por entre as multidões que não reparavam nêle ― suprema felicidade." (in O Exilado de Bougie, 207-208)

Tunísia (cinco semanas), Nápoles (sete semanas), Florença (quatro meses e meio, "amável e amorosa [...] da qual não vejo modo, nem tenho vontade de sair."), Pisa, Tunis (seis meses). Paris (cinco meses?), Argel (um ano), Tunis (mais de um ano), Bône (Argélia). França (primavera/verão de 1931), Bône e finalmente Bougie (5 de setembro de 1931).

Deambulando entre 1925 e 1931, seis anos se passaram até chegar ao seu destino final, Bougie, "espécie de Sintra à beira de água, porém muito mais acidentada e rica em passeios aprazíveis e perspectivas raras. Então o panorama que se disfruta da janela do meu quarto é estupendo e não recordo qualquer outro que o supere.", escreveria em 1932. (in O Exilado de Bougie, 281-282)

Aí permaneceria até ao fim da sua vida, a 18 de outubro de 1941. O navio que o transportou para o exílio seria afundado em Oran a 9 de novembro de 1942. Os seus restos mortais foram transladados para Portugal (Portimão) a 18 de dezembro de 1950.

O seu itinerário sentimental passou pelas mulheres, escreveria em 1932: "[...] no norte de África a mistura de raças, italiana, espanhola, malteza, dá tipos curiosíssimos a a-miúde fascinadores. Ajuntem-se-lhes algumas judias, e uma ou outra russa de estranho aspecto (que também por aqui giram) e terá a composição da turba que diàriamente acode ao meu terraço. [...] São freqüentes aqui os olhos castanhos italianos, que se parecem com os das portuguesas, e também os olhos de andaluza, muito grandes e muito negros, sem pupilas, como duas nozes de carvão vidradro. Entre as russas há uma que me inspira particular interêsse e sigo-a para lhe ouvir a voz que sôa com uma toada de canto profundamente sentido. Tem o sotaque minhoto, (o russo, com efeito a [à] distância, recorda as ressonâncias da nossa língua) porém mais vibrante na sua lânguida ecoada e por vezes com o murmúrio de um fio de água de fonte que se espraia, desfalece e morre, num espaço livre e sonoro». (in O Exilado de Bougie, 282)

As suas Novelas Eróticas certamente misturam as recordações, em final de vida e no exílio, do seu itinerário sentimental, as suas experiências recriadas que o consolam. Desse seu percurso, e mais uma vez recorrendo ao livro de Norberto Lopes (páginas 60 a 62), passo a transcrever (cada parágrafo é parte do mesmo corpo de texto, que destaco para melhor evidenciar as mulheres da sua vida):

"Aos 23 anos, ama desesperadamente, em Sevilha, - amor casto - uma menina que os pais não consentiram em dar-lhe para mulher. Foi êste o grande amor da sua vida."

"Em Anvers, «novo, forte, petulante», enamora-se pelos sentidos duma flamenga exuberante, com sangue espanhol nas veias e os olhos dum profundo azul nocturno, que o «prendeu de corpo e alma»."

"Em Amesterdão foge com uma rapariga de quinze anos, mas com o desenvolvimento de mulher feita, lançando-se numa aventura deplorável a que pôs termo o pai da rapariga, arrancando-lha dos braços quási pela violência."

"Em Cordova sente um desejo louco por uma cigana ardente que lhe leu a buena-dicha e nunca mais voltou a ver, depois duma noite abrasante de amor."

"Em Florença apaixona-se por uma jovem argentina de carnação mimosa, de imensos olhos de veludo, de opulento cabelo negro, ondeado e macio, com quem trocou apenas um beijo apressado e sôfrego, «um dêsses beijos que valem por mil promessas formais de casamento»."

"Em Génova entrevê uma hora de amor deliciosa com uma bailarina de braços frágeis e olhos garços que conhecera a bordo e lhe marca um encontro para Turim."

"Em Siracusa possui quási pela fôrça, num minuto desvairado de luxúria, uma espécie de deusa oriental, visão deslumbrante, criatura de lenda arrancada a uma página heróica dos «Nibelungos»."

"Ainda em Amesterdão deixa-se prender pelos encantos duma «loira de vinte e cinco anos com grandes olhos azuis e melancólicos e a carnação imaculada das raças do Norte», que friamente premeditara a sua conquista com fins interesseiros."

"Camila, Júlia, Margareta, Cristina, Cordélia, Leonor... tôdas elas lhe fizeram mais tarde doce companhia nas horas longas e tristes do exílio. Razão tinha aquêle companheiro de viagem que lhe disera um dia:
      «― O senhor viaja e deve ser feliz. Com impressões e reminiscências de viagem não há solidão nem degrêdo completos, mas uma perpértua iluminação da alma e da inteligência por evocações contínuas... Assim se prolonga a mocidade...»"

Manuel Teixeira Gomes era um deslumbrado com o belo, também nos objetos que o rodeavam, e que colecionava, como os frascos de rapé que se encontram no Museu do Oriente.



De minha predileção, este foi o meu papel de parede no computador durante meses, feito por mim, a partir de foto minha tirada no Museu do Oriente a 22 de março de 2015.

Publicaram-se recentemente dois novos trabalhos sobre a sua vida, e que ainda não tenho, a saber: Manuel Teixeira Gomes numa sublime cruzada em busca do belo” e "Manuel Teixeira Gomes - Biografia" (boas sugestões para celebrar a quinquagésima volta ao Sol :), mas só agora chega aos cinemas o primeiro FILME sobre a sua vida, que ainda não vi.

A expetativa é grande, tanto mais que não era para iniciar o novo ano com esta mensagem, mas o apelo do Manuel Teixeira Gomes foi mais forte, e quando releio:

"Eu não devia, por coisa alguma, ter renunciado às minhas viagens, que me davam uma espécie de finalidade, e constituiam o elemento capital da minha ventura. Um dom particular me dispusera para ser «viajante»; a faculdade da rápida adaptação. Nunca «estranhei a cama», motivo de terror para todos os sedentários, e ainda menos estranhei a comida; e se, nos pratos chamados nacionais, algumas vezes o paladar se me fazia recalcitrante, bastava insistir para que êle, convencido, desse razão a quem os tem na conta de excelentes pitéus. Depois, o isolamento não me assusta. Dizia o Villiers de l'Isle Adam: «Poucos são dignos da solidão». Estou persuadido que sou dêsses poucos. Espírito feito, não para actor, mas para espectador, a vida para mim, nas suas mínimas manifestações, nas suas bagatelas, é ainda um espectáculo atraente e a-miúde encantador. Para a minha curiosidade, constantemente àlerta, o espectáculo da vida é um constante recomeçar, sempre com a frescura do inédito, desdobrando-se em casos, que se podem assemelhar, mas nunca se repetem exactamente. Onde os outros só vêem monotonia, eu, sem esfôrço, discrimino a diversidade, e, se os sentidos acusam fadiga, basta-me atender aos arabescos, que se me desenham na alma, para encontrar outro objecto de divertimento e prazer". (in O Exilado de Bougie, 57-58)

... fico em "pranto", porque sinto e entendo profundamente o Manuel.

As minhas leituras, os meus livros, são pessoas ausentes, literalmente falando, mas que marcam presença enquanto eu viver. É o Sebastião da Gama, o Wenceslau de Morais, o Armando Martins Janeira, o Stuart Carvalhais, o Agostinho da Silva, o Manuel Teixeira Gomes, e todos eles vivem no meu âmago, e outros mais que descobrirei, mas estes são os primeiros, porque os encontrei assim, no meu acaso.

[...]
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
[...]
Tabacaria (excerto), completo AQUI.

As gárgulas e as Capelas Imperfeitas, ou Inacabadas?, da Batalha, São Torpes que é Saint-Tropez em francês, a iconografia de Amêndoa, o dragão-fonte de Klagenfurt, ou a melancolia de Helena Roque Gameiro, têm de esperar. O sufoco rotineiro que me consome, literalmente... e como eu te entendo Manuel!

Reencontrei Zeus.

in memoriam


O Presidente de Júlio Pomar, AQUI.

Só recentemente (outubro/novembro de 2016) acerquei o Júlio Pomar, e em particular este retrato que me desagradava deixou de o ser. O ensaio/prefácio do João Lobo Antunes sobre ele foi decisivo, bem como uma visita ao Atelier-Museu Júlio Pomar, não tanto pelas obras expostas, mas pelo que fui descobrindo depois.

Uma certa bonomia facial e a grande mão nubular enfrentam outra mão, esquerda, esquiva no espaço que resta, acusatória. Marinho, Marocas, Malandro, tanto faz - pouco importa, é Mário Soares que nos deixa na democracia e na Europa.

Em Nafarros lhe apertei a mão, à entrada da mercearia do Baeta, teria eu 10 a 12 anos (finais dos anos 70). Roupa clara, de camisa e calções, recordação talvez inexata. Bem disposto e com muito à vontade prontamente nos cumprimentou. O meu pai estava comigo, e comentaria depois que o achava pequeno na televisão, e que não era (o meu pai tem 1,70m).

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo (Miguel Esteves Cardoso, AQUI; english translation HERE).



Já está transformado em marcador.