domingo, 29 de janeiro de 2017

Descompromisso.

No início de um novo ciclo existe sempre aquela manifesta vontade de mudar qualquer coisa, para que conste, talvez tentando aliviar carga passada e angariar alento [para o] futuro (retirar parêntesis retos e ficar "para o" é o desejável, porque senão não existe vontade, e estaremos perante a capitulação).

O meu problema de espaço e tempo levou-me a formular um compromisso para 2017: estabelecer uma cota mensal de 1 por mês.

Fui logo posto à prova no dia 4 de janeiro, quando vejo [leio] no escaparate da Isabel o seguinte verso:





























































Para mim é inata esta noção de habitação, e a palavra casa é que é sinónimo de toca :) A minha "mesinha de apoio" (fica na estante) também existe :) E para complicar mais as coisas o conteúdo prometia, no texto e nas imagens [novas leituras, quase proféticas para mim]:












































O texto do Miguel Esteves Cardosos AQUI, que não conhecia, "pregado" na parede, como acontece comigo com outros textos ou imagens. Copiado e colado aqui fica:

«É bom fingir que se está a fugir, que não se pode ficar em casa nem ir a lugares previsíveis, onde se pode ser apanhado.

Ir ao cinema é sempre uma fuga. É pena não haver escuridão total. Mas há horários em que se consegue estar sozinho a ver um filme.

Há lugares perto de onde vivemos - ou, melhor ainda, longe - aonde nunca fomos. É bom ser-se turista numa terra que ninguém visita.

É bom saber que ninguém nos pode localizar. Localizar está para a liberdade como conservar para as sardinhas.

Os fugitivos são, por definição - e não só nos filmes de Nicholas Ray - felizes. Fugir é bom. As responsabilidades, de que toda a gente está sempre a falar, são más para nós. Nem sequer são boas para os outros.

Fugir sem ter razão para fugir é um acto libertador de cobardia criativa. O medo é, tal como a preguiça e todas as espécies (sem distinção) de egoísmo, uma manifestação da mais elevada inteligência.

"Fica-te", dizem os escravos que absorveram os interesses dos esclavagistas. "Deixa-te ficar; contenta-te com o que tens; enfrenta aquilo que tens para enfrentar", aconselham os carrascos já derrotados da liberdade.

Os escravos verdadeiros fugiam mesmo quando corriam o risco de morrer. Que se há-de dizer dos escravos figurativos de hoje em dia que, quando fogem, só correm o risco de viver?

Desliguem-se os telemóveis. Mudem-se as coordenadas. Confundam-se as tentativas de contacto. Fugir é cada vez mais difícil mas é cada vez mais necessário.

Fujamos já!»

Em casa ou no trabalho existe sempre um mural, limitado e que se vai mutando [desculpa-te]. Faz parte do local de vivência.

"Resistindo", só no dia seguinte cortei o impasse, janeiro ficaria já "gasto", e a pretexto de já lá não estar na próxima semana, comprei.

Perante o que me estava a acontecer, na "ficha de registro bibliográfico", que por norma costumo acrescentar a lápis 3B ou 6B, numa das primeiras páginas livres interiores, escrevi o seguinte:



Estava formulado o descompromisso.

A terminar, e para que conste, a palavra não existe no dicionário, e como exercício de imaginação aproxima-se da ignorância, como incompromisso.

in continuum

Na lista de janeiro constam os seguintes títulos, por ordem cronológica de surgimento:

1. Paul Celan, na tradução de João Barrento, mas por onde começar? Certo que alguma prosa sobre o seu percurso iria ajudar, e ISTO baralhou mais um pouco (porque é o único que está disponível nas livrarias). Por indicação de uma pessoa que não conheço mas que me encantou;

2. The Wonderful World of Albert Kahn AQUI. Depois de ver um programa na TV;

3. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy AQUI. Depois de ler no jornal. Na livraria mais próxima não tinham para eu poder sentir a primeira impressão [é uma cadeia de impressões, da física à mental]. Li mais sobre AQUI, mas falta o principal;

4. Melancolia e Arquitectura em Aldo Rossi AQUI. Depois de passear pela livraria e encontrar, sem estar à procura. Melancolia é palavra mágica, e o ano tinha começado sob a batuta da arquitetura. Este texto tentou-me na certeza de que era a escolha certa;

5. Cartas de amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz cônsul de Portugal em Havana (1873-1874) AQUI. Já não está no alfarrabista para venda. Mas «A este mistério, juntam-se mais dois: no espólio existe uma fotografia de uma das duas. Será de Mollie, se aceitarmos a tese avançada pelo filho do escritor quando se refere à existência de "um lindo e doce retrato"? Ou será de Anna se levarmos em linha de conta que ela lhe prometeu enviar uma? E, mistério dos mistérios, como é que foi possível estas cartas chegarem até aos nossos dias?» AQUI.

E tudo isto acontece porque me "cruzei" com uma pessoa, vi um programa na televisão, li num jornal, passeei numa livraria, consultei a lista de um alfarrabista, e a algum de vós irei agradecer, se me ajudar na escolha :)

domingo, 15 de janeiro de 2017

Vender peixe.

Por vezes uma imagem momentânea puxa outras que se encontram no arquivo da memória. Foi o que me aconteceu no passado domingo (8 de janeiro), enquanto assistia ao programa «O Mundo Maravilhoso de Albert Kahn» na RTP2.

A imagem de duas mulheres que vendem peixe em Galway, na Irlanda, autocromo tirado por Marguerite Mespoulet a 26 de maio de 1913, rapidamente me transportou para uma outra imagem.


Foto retirada DAQUI.


Esta, que vi e fotografei na exposição "Uma História de Duas Cidades - Lisboa e Edimburgo". Aqui o que me chamou a atenção foi o enorme cesto e o que está escrito na legenda: a "manutenção da família depende da indústria da esposa".





E daqui rapidamente pensei n'«As Mulheres do Meu País» de Maria Lamas e nas varinas saíndo para a venda, fotografadas pelo Joshua Benoliel em 1909 na Ribeira Nova, em Lisboa.


Foto retirada DAQUI.

Mas Stuart Carvalhais, casado com uma varina, fato de que só tive consciência no passado dia 3 de dezembro, na Casa Roque Gameiro (saborosas e improváveis colateralidades, mas que acontecem, como a de ontem, ao descobrir Paul Celan, ou a palavra appartema[e]nts com erro ortográfico, também no mesmo local) captou-lhes a essência no traço, da mesma forma que, num outro olhar, mais próximo do que Mário Eloy pintou,  Cesário escreveu n' «O Sentimento dum Ocidental»:

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

As varinas do Stuart são elegantes e irreverentes, próximas da descrição que acompanha a fotorreportagem de Benoliel sobre as mesmas na Illustração Portugueza de 19 de agosto de 1912, n.º 339, AQUI:
Teem um ar elegante, o seio bem formado, lembram por vezes estatuas quando, de braços ao ar, erguem a canastra, olhando para os andares, e quando se vê passar as que são assim esculturaes e belas, pensa-se que andam pagando algum pecado feito por uma das suas formosas avós, que fôsse condenada a ter uma descendencia de belezas rudemente destinadas a andarem ajoujadas debaixo da giga, correndo as cidades, cantando pregões.



- Oh! Die Varine!


A VARINA E O POLÍCIA DA COBRANÇA

- Ó vira-me as costas!

- Que lindo exemplar de raça fenícia!

- Fenícia era a sua avó!

- Venha abaixo!


Descia a Rua Morais Soares, perto do Mercado de Arroios, quando de repente uma varina, bonita,  choca contra si, espalhando o peixe no chão e aplicando-lhe de seguida uma bofetada, prontamente retribuída com outra, por parte de quem tinha recebido a primeira. Troca exaltada de palavras, os transeuntes que se aproximam e tomam partido: o "menino" não teve culpa. O polícia que passa e a intima: vamos para a esquadra, já estou farto de a avisar para não fazer o mesmo.

Era assim, tentando de uma só vez vender o peixe que restava, ou que não conseguira vender, simulando o acidente/atrevimento provocado pela incauta vítima, e que obviamente iria pagar a "fatura", atordoado com a respetiva bofetada. Dessa vez não "colou".

O "menino" desta estória é o meu pai, tinha 21 anos quando isto aconteceu em 1959.

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P.S. As ilustrações do Stuart que aparecem nesta página foram escolhidas, digitalizadas, e tratadas por mim no computador, do livro «STUART - ORGANIZAÇÃO, SELECÇÃO E ARRANJO GRÁFICO DE NELSON DE BARROS; PREFÁCIO DE LEITÃO DE BARROS». Ficha bibliográfica AQUI.

Irmã e primos, ao lerem esta mensagem recordem-se que o negócio de vender peixe também passou pela família, o nosso bisavô Joaquim da Silva. Também o meu avô Joaquim Lameiras vendeu peixe.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Procurei Zeus.

Não propriamente, mas o navio que levou Manuel Teixeira Gomes ao exílio. Penso que é este:




Não foi difícil, não foi direto, não foi por onde pensei que iria encontrar, tudo contabilizado perfaz cerca de um quarto de hora. A ponta que encontrei foi ESTA, depois puxei ESTA, que não deu em nada, mas com um pequeno truque encontrei o que procurava, AQUI.

"O embarque fêz-se na doca dos submersíveis, na manhã de 17 de Dezembro [1925], para bordo do navio de carga holandês «Zeus», o primeiro que tocava em Lisboa com destino ao norte de África após a renúncia de Teixeira Gomes [a 10 de dezembro de 1925]. [...] Ao largo, o «Zeus» aguardava o seu único passageiro." (in O Exilado de Bougie, 200-201, de Norberto Lopes, Lisboa 1942, Parceria António Maria Pereira).

O navio dispunha de acomodações para 3 passageiros, mais 27 passageiros no convés. Terminaria os seus dias com outro nome, Boudjmel (camelo em arábico).

"[...] A embarcação afastou-se e não tardou a desaparecer na bruma do Tejo [retórica?]. O barco partiu. E êle não voltou." (in O Exilado de Bougie, 201)

"[...] e supersticioso como um livre-pensador, augurei muito bem de uma viagem começada sob a égide do Rei do Olimpo. (in O Exilado de Bougie, 208)

Setúbal, Tânger, Gibraltar e Oran, onde desembarcou.

Tlémcen, Taza, Fez, Mequinez, Argel... "E pôs-se a viajar, «sòzinho», como êle gostava, «sem um plano definido de viagem, nem itinerário certo», perdendo-se por entre as multidões que não reparavam nêle ― suprema felicidade." (in O Exilado de Bougie, 207-208)

Tunísia (cinco semanas), Nápoles (sete semanas), Florença (quatro meses e meio, "amável e amorosa [...] da qual não vejo modo, nem tenho vontade de sair."), Pisa, Tunis (seis meses). Paris (cinco meses?), Argel (um ano), Tunis (mais de um ano), Bône (Argélia). França (primavera/verão de 1931), Bône e finalmente Bougie (5 de setembro de 1931).

Deambulando entre 1925 e 1931, seis anos se passaram até chegar ao seu destino final, Bougie, "espécie de Sintra à beira de água, porém muito mais acidentada e rica em passeios aprazíveis e perspectivas raras. Então o panorama que se disfruta da janela do meu quarto é estupendo e não recordo qualquer outro que o supere.", escreveria em 1932. (in O Exilado de Bougie, 281-282)

Aí permaneceria até ao fim da sua vida, a 18 de outubro de 1941. O navio que o transportou para o exílio seria afundado em Oran a 9 de novembro de 1942. Os seus restos mortais foram transladados para Portugal (Portimão) a 18 de dezembro de 1950.

O seu itinerário sentimental passou pelas mulheres, escreveria em 1932: "[...] no norte de África a mistura de raças, italiana, espanhola, malteza, dá tipos curiosíssimos a a-miúde fascinadores. Ajuntem-se-lhes algumas judias, e uma ou outra russa de estranho aspecto (que também por aqui giram) e terá a composição da turba que diàriamente acode ao meu terraço. [...] São freqüentes aqui os olhos castanhos italianos, que se parecem com os das portuguesas, e também os olhos de andaluza, muito grandes e muito negros, sem pupilas, como duas nozes de carvão vidradro. Entre as russas há uma que me inspira particular interêsse e sigo-a para lhe ouvir a voz que sôa com uma toada de canto profundamente sentido. Tem o sotaque minhoto, (o russo, com efeito a [à] distância, recorda as ressonâncias da nossa língua) porém mais vibrante na sua lânguida ecoada e por vezes com o murmúrio de um fio de água de fonte que se espraia, desfalece e morre, num espaço livre e sonoro». (in O Exilado de Bougie, 282)

As suas Novelas Eróticas certamente misturam as recordações, em final de vida e no exílio, do seu itinerário sentimental, as suas experiências recriadas que o consolam. Desse seu percurso, e mais uma vez recorrendo ao livro de Norberto Lopes (páginas 60 a 62), passo a transcrever (cada parágrafo é parte do mesmo corpo de texto, que destaco para melhor evidenciar as mulheres da sua vida):

"Aos 23 anos, ama desesperadamente, em Sevilha, - amor casto - uma menina que os pais não consentiram em dar-lhe para mulher. Foi êste o grande amor da sua vida."

"Em Anvers, «novo, forte, petulante», enamora-se pelos sentidos duma flamenga exuberante, com sangue espanhol nas veias e os olhos dum profundo azul nocturno, que o «prendeu de corpo e alma»."

"Em Amesterdão foge com uma rapariga de quinze anos, mas com o desenvolvimento de mulher feita, lançando-se numa aventura deplorável a que pôs termo o pai da rapariga, arrancando-lha dos braços quási pela violência."

"Em Cordova sente um desejo louco por uma cigana ardente que lhe leu a buena-dicha e nunca mais voltou a ver, depois duma noite abrasante de amor."

"Em Florença apaixona-se por uma jovem argentina de carnação mimosa, de imensos olhos de veludo, de opulento cabelo negro, ondeado e macio, com quem trocou apenas um beijo apressado e sôfrego, «um dêsses beijos que valem por mil promessas formais de casamento»."

"Em Génova entrevê uma hora de amor deliciosa com uma bailarina de braços frágeis e olhos garços que conhecera a bordo e lhe marca um encontro para Turim."

"Em Siracusa possui quási pela fôrça, num minuto desvairado de luxúria, uma espécie de deusa oriental, visão deslumbrante, criatura de lenda arrancada a uma página heróica dos «Nibelungos»."

"Ainda em Amesterdão deixa-se prender pelos encantos duma «loira de vinte e cinco anos com grandes olhos azuis e melancólicos e a carnação imaculada das raças do Norte», que friamente premeditara a sua conquista com fins interesseiros."

"Camila, Júlia, Margareta, Cristina, Cordélia, Leonor... tôdas elas lhe fizeram mais tarde doce companhia nas horas longas e tristes do exílio. Razão tinha aquêle companheiro de viagem que lhe disera um dia:
      «― O senhor viaja e deve ser feliz. Com impressões e reminiscências de viagem não há solidão nem degrêdo completos, mas uma perpértua iluminação da alma e da inteligência por evocações contínuas... Assim se prolonga a mocidade...»"

Manuel Teixeira Gomes era um deslumbrado com o belo, também nos objetos que o rodeavam, e que colecionava, como os frascos de rapé que se encontram no Museu do Oriente.



De minha predileção, este foi o meu papel de parede no computador durante meses, feito por mim, a partir de foto minha tirada no Museu do Oriente a 22 de março de 2015.

Publicaram-se recentemente dois novos trabalhos sobre a sua vida, e que ainda não tenho, a saber: Manuel Teixeira Gomes numa sublime cruzada em busca do belo” e "Manuel Teixeira Gomes - Biografia" (boas sugestões para celebrar a quinquagésima volta ao Sol :), mas só agora chega aos cinemas o primeiro FILME sobre a sua vida, que ainda não vi.

A expetativa é grande, tanto mais que não era para iniciar o novo ano com esta mensagem, mas o apelo do Manuel Teixeira Gomes foi mais forte, e quando releio:

"Eu não devia, por coisa alguma, ter renunciado às minhas viagens, que me davam uma espécie de finalidade, e constituiam o elemento capital da minha ventura. Um dom particular me dispusera para ser «viajante»; a faculdade da rápida adaptação. Nunca «estranhei a cama», motivo de terror para todos os sedentários, e ainda menos estranhei a comida; e se, nos pratos chamados nacionais, algumas vezes o paladar se me fazia recalcitrante, bastava insistir para que êle, convencido, desse razão a quem os tem na conta de excelentes pitéus. Depois, o isolamento não me assusta. Dizia o Villiers de l'Isle Adam: «Poucos são dignos da solidão». Estou persuadido que sou dêsses poucos. Espírito feito, não para actor, mas para espectador, a vida para mim, nas suas mínimas manifestações, nas suas bagatelas, é ainda um espectáculo atraente e a-miúde encantador. Para a minha curiosidade, constantemente àlerta, o espectáculo da vida é um constante recomeçar, sempre com a frescura do inédito, desdobrando-se em casos, que se podem assemelhar, mas nunca se repetem exactamente. Onde os outros só vêem monotonia, eu, sem esfôrço, discrimino a diversidade, e, se os sentidos acusam fadiga, basta-me atender aos arabescos, que se me desenham na alma, para encontrar outro objecto de divertimento e prazer". (in O Exilado de Bougie, 57-58)

... fico em "pranto", porque sinto e entendo profundamente o Manuel.

As minhas leituras, os meus livros, são pessoas ausentes, literalmente falando, mas que marcam presença enquanto eu viver. É o Sebastião da Gama, o Wenceslau de Morais, o Armando Martins Janeira, o Stuart Carvalhais, o Agostinho da Silva, o Manuel Teixeira Gomes, e todos eles vivem no meu âmago, e outros mais que descobrirei, mas estes são os primeiros, porque os encontrei assim, no meu acaso.

[...]
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
[...]
Tabacaria (excerto), completo AQUI.

As gárgulas e as Capelas Imperfeitas, ou Inacabadas?, da Batalha, São Torpes que é Saint-Tropez em francês, a iconografia de Amêndoa, o dragão-fonte de Klagenfurt, ou a melancolia de Helena Roque Gameiro, têm de esperar. O sufoco rotineiro que me consome, literalmente... e como eu te entendo Manuel!

Reencontrei Zeus.

in memoriam


O Presidente de Júlio Pomar, AQUI.

Só recentemente (outubro/novembro de 2016) acerquei o Júlio Pomar, e em particular este retrato que me desagradava deixou de o ser. O ensaio/prefácio do João Lobo Antunes sobre ele foi decisivo, bem como uma visita ao Atelier-Museu Júlio Pomar, não tanto pelas obras expostas, mas pelo que fui descobrindo depois.

Uma certa bonomia facial e a grande mão nubular enfrentam outra mão, esquerda, esquiva no espaço que resta, acusatória. Marinho, Marocas, Malandro, tanto faz - pouco importa, é Mário Soares que nos deixa na democracia e na Europa.

Em Nafarros lhe apertei a mão, à entrada da mercearia do Baeta, teria eu 10 a 12 anos (finais dos anos 70). Roupa clara, de camisa e calções, recordação talvez inexata. Bem disposto e com muito à vontade prontamente nos cumprimentou. O meu pai estava comigo, e comentaria depois que o achava pequeno na televisão, e que não era (o meu pai tem 1,70m).

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo (Miguel Esteves Cardoso, AQUI; english translation HERE).



Já está transformado em marcador.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Por cima ou por baixo?

O feijão é como se fosse o cascalho, a fundação no prato. O arroz leve e solto virá depois, preenchendo os espaços, cobrindo. No prato esta seria a minha ordem natural, respeitando a gravidade e o meu gosto enxuto, como uma estrada romana ou uma parede de alvenaria... engenharias.

O arroz branco de cor e de gosto é a base. O feijão meloso de caldo e de sabor deverá pois se sobrepor ao primeiro, derramando o seu tempero. No prato é outra possibilidade em que não pensei, mas que respeita a gravidade e o apurar de gosto de quem aprecia... químicas.

Cada qual tem a sua opinião unívoca e prioritária. E pode não ser assim, normalmente não é assim, da mesma forma que normalmente somos assim, de opiniões feitas e exclusivas.

A propósito desta nossa conversa (Roberta e Osvaldo) lembrei-me dos "mandamentos" do Fernando Pessoa, que de seguida transcrevo, mas que podem encontrar AQUI:

1. Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor de tuas opiniões.

2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.

3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...

4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.

5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.

6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.


7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.

E onde quero chegar?... começar pelo primeiro, talvez o que mais se ajusta, e depois decorrer pelos restantes. Por enquanto é mesmo assim, decorrer... ser excêntrico... excêntrico de sair do seu eixo.

BOM NATAL.


Fernando Pessoa aos olhos e mãos de Júlio Pomar. AQUI.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Como se nada fosse.

Dei por mim quase a pisar, molhadas, e que bonitas estavam, nos seus corpos expostos e dilacerados, breves repositórios de estações palimpsestas, até que tudo se dissolva e da pedra fique, por enquanto, a limpeza da morte.

Dei por mim bem a olhar, em sobressalto, hoje, 4 de dezembro de 2016.










A meus pés estais... perto dos Jerónimos [Mosteiro], indiferentes a quem passa... e o que se passa?


domingo, 27 de novembro de 2016

Pontífice.

      «O engenheiro Eiffel pode muito bem ser considerado o papa dos modernos construtores. O papa, isto é: o pai das construções metálicas.
      Só em Portugal deixou umas dúzias de pontes, a mais famosa a D. Maria, no Porto, presentemente [1985] com um duvidoso futuro. Ora, o homem que faz pontes, é um pontífice.
      Eiffel, como o engenheiro Edgar Cardoso, fazem pontes entre duas margens de um rio, ou seja, ligam os homens entre si.
      Ao pontífice de Roma cabe a mais difícil tarefa de estabelecer uma ponte permanente entre os homens e os céus.
      Coisas da religião, palavra que quer dizer exactamente a mesma coisa. Religio: eu ligo o homem a Deus através do ritual.»

In "Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis" de Roby Amorim, Edições Salamandra (1985), página 65.


Robert and Shana ParkeHarrison _ Architect's Brother > Passage > 372


































Está encontrado o pretexto, o nome que "encontrei" para esta foto, e através da qual vos dou a conhecer o trabalho destes dois artistas, marido e esposa, Robert e Shana.

Uma nesga de terra ao longe, será para lá que se dirige este pontífice?... sucessivos epicentros martelados, e os pregos onde agarram? o que juntam?... a passagem que se constrói no flutuar, entre margens incertas. Autosuficiente este pontífice, de tábuas às costas, martelo em riste, ajoelhado.

A foto pertence ao corpo de trabalho Architect's Brotherdesenvolvido entre 1993 e 2005, recorrendo somente a meios analógicos (nada de Photoshop, mas sim em mãos, na câmara escura, mesclando imagens).

O resultado final envolve, para além da fotografia, pintura, escultura e artes de palco. Fotogramas que revelam estórias de perda, luta humana e exploração pessoal, em paisagens marcadas pela tecnologia e pelo uso excessivo dos recursos... um mundo pós-apocalíptico? E se?

Foi no CD dos The Gloaming que encontrei esta e outra foto, mas também na capa de um livro do António Lobo Antunes que vi na FNAC, penso ser uma edição francesa (já estive na livraria, pesquisei na internet, mas não consegui encontrar). A foto que está na origem da capa É ESTA

Os The Gloaming estiveram este ano em Portugal, antes de eu saber da sua existência, foi pena. Podem ouvir excertos das faixas dos CDs AQUI, e um vídeo AQUI.

Mais pormenores sobre o trabalho Architect's Brother (deu origem a um livro) neste artigo do Jonathan Stead, AQUIA leitura que fiz do artigo foi a que se segue, e a propósito, já sei quem é o Joseph Beuys. Falta o resto, ainda não sei nada.






Et cetera...

E outras fotos que andarão por aí... ESTA encabeça um delicioso e brilhante artigo do saudoso Oliver Sacks, AQUI (ao jeito do Primo Levi).

domingo, 13 de novembro de 2016

Atão Antão?!... não é dragão?

Estamos no final do ano das comemorações dos 500 anos da morte do pintor Hieronymus Bosch, o Bosch, el Bosco (vem de bosque).

As grandes exposições na Holanda e em Espanha, onde nasceu e onde se encontra a maioria da sua obra que lhe sobreviveu,  já ocorreram, e não fui a nenhuma delas. Tal fato é tão somente a constatação do meu fracasso.

Em ambas houve catálogos, e BD (comic strips), e por aqui ando na (re)descoberta (e tudo começou AQUI):



Existe um Bosch por perto, no MNAA, é dele que me socorro. A folha de sala ajuda, até se refere ao Damião de Góis, retratado por Dürer e amigo de Erasmusque o teria comprado e oferecido, mas tudo não passa de desencontros e suposições, afinal o tema das tentações de Santo Antão teria sido um dos que mais pintou... a tentação e a solidão do homem justo perante o mal.

O Dr. Meyrelles do Souto dá-nos a sua descrição do tríptico, num livro que tem a minha idade, e cujas páginas coloco ao vosso dispor AQUI. Fazer a sua leitura perto do tríptico é o meu repto, e assim começa a descoberta de um deslumbramento: tanta coisa estranha e sem sentido, aos olhos de hoje, mas os olhos de Bosch são profundamente católicos... e atão Antão?

O dragão do pecado, que o autor anterior descobriu numa singular escultura na praça principal de Klagenfurt, e que também nos remete para o universo boschiano, é mais um dos acasos em que deliciosamente vou tropeçando, e que partilho convosco. A estátua renascentista teve por modelo um crânio fossilizado, que se pensou ser de um dragão, mas que hoje sabemos ser de um rinoceronte (podem ler a estória AQUI). Uma reconstituição paleontológica acidental e primordial.

Quis ver o aspeto da besta e encontrei estes postais (estou em vias de ter mais, encantado com este dragão):




Mas em verdade não me fico por aqui sem referir a polémica despoletada pelo Bosch Research and Conservation Project: há por aí Bosch's que não são Bosch... AQUI.

O que parece pode não ser, e o que não parece, de tão estranho e deformado, afinal é, mesmo passados cinco séculos.

Atão Antão?!... é dragão...
Atão Antão?!... lá vai dragão.


O meu papel de parede no computador. Gravura de Julio Ruelas.