domingo, 8 de janeiro de 2017

Procurei Zeus.

Não propriamente, mas o navio que levou Manuel Teixeira Gomes ao exílio. Penso que é este:




Não foi difícil, não foi direto, não foi por onde pensei que iria encontrar, tudo contabilizado perfaz cerca de um quarto de hora. A ponta que encontrei foi ESTA, depois puxei ESTA, que não deu em nada, mas com um pequeno truque encontrei o que procurava, AQUI.

"O embarque fêz-se na doca dos submersíveis, na manhã de 17 de Dezembro [1925], para bordo do navio de carga holandês «Zeus», o primeiro que tocava em Lisboa com destino ao norte de África após a renúncia de Teixeira Gomes [a 10 de dezembro de 1925]. [...] Ao largo, o «Zeus» aguardava o seu único passageiro." (in O Exilado de Bougie, 200-201, de Norberto Lopes, Lisboa 1942, Parceria António Maria Pereira).

O navio dispunha de acomodações para 3 passageiros, mais 27 passageiros no convés. Terminaria os seus dias com outro nome, Boudjmel (camelo em arábico).

"[...] A embarcação afastou-se e não tardou a desaparecer na bruma do Tejo [retórica?]. O barco partiu. E êle não voltou." (in O Exilado de Bougie, 201)

"[...] e supersticioso como um livre-pensador, augurei muito bem de uma viagem começada sob a égide do Rei do Olimpo. (in O Exilado de Bougie, 208)

Setúbal, Tânger, Gibraltar e Oran, onde desembarcou.

Tlémcen, Taza, Fez, Mequinez, Argel... "E pôs-se a viajar, «sòzinho», como êle gostava, «sem um plano definido de viagem, nem itinerário certo», perdendo-se por entre as multidões que não reparavam nêle ― suprema felicidade." (in O Exilado de Bougie, 207-208)

Tunísia (cinco semanas), Nápoles (sete semanas), Florença (quatro meses e meio, "amável e amorosa [...] da qual não vejo modo, nem tenho vontade de sair."), Pisa, Tunis (seis meses). Paris (cinco meses?), Argel (um ano), Tunis (mais de um ano), Bône (Argélia). França (primavera/verão de 1931), Bône e finalmente Bougie (5 de setembro de 1931).

Deambulando entre 1925 e 1931, seis anos se passaram até chegar ao seu destino final, Bougie, "espécie de Sintra à beira de água, porém muito mais acidentada e rica em passeios aprazíveis e perspectivas raras. Então o panorama que se disfruta da janela do meu quarto é estupendo e não recordo qualquer outro que o supere.", escreveria em 1932. (in O Exilado de Bougie, 281-282)

Aí permaneceria até ao fim da sua vida, a 18 de outubro de 1941. O navio que o transportou para o exílio seria afundado em Oran a 9 de novembro de 1942. Os seus restos mortais foram transladados para Portugal (Portimão) a 18 de dezembro de 1950.

O seu itinerário sentimental passou pelas mulheres, escreveria em 1932: "[...] no norte de África a mistura de raças, italiana, espanhola, malteza, dá tipos curiosíssimos a a-miúde fascinadores. Ajuntem-se-lhes algumas judias, e uma ou outra russa de estranho aspecto (que também por aqui giram) e terá a composição da turba que diàriamente acode ao meu terraço. [...] São freqüentes aqui os olhos castanhos italianos, que se parecem com os das portuguesas, e também os olhos de andaluza, muito grandes e muito negros, sem pupilas, como duas nozes de carvão vidradro. Entre as russas há uma que me inspira particular interêsse e sigo-a para lhe ouvir a voz que sôa com uma toada de canto profundamente sentido. Tem o sotaque minhoto, (o russo, com efeito a [à] distância, recorda as ressonâncias da nossa língua) porém mais vibrante na sua lânguida ecoada e por vezes com o murmúrio de um fio de água de fonte que se espraia, desfalece e morre, num espaço livre e sonoro». (in O Exilado de Bougie, 282)

As suas Novelas Eróticas certamente misturam as recordações, em final de vida e no exílio, do seu itinerário sentimental, as suas experiências recriadas que o consolam. Desse seu percurso, e mais uma vez recorrendo ao livro de Norberto Lopes (páginas 60 a 62), passo a transcrever (cada parágrafo é parte do mesmo corpo de texto, que destaco para melhor evidenciar as mulheres da sua vida):

"Aos 23 anos, ama desesperadamente, em Sevilha, - amor casto - uma menina que os pais não consentiram em dar-lhe para mulher. Foi êste o grande amor da sua vida."

"Em Anvers, «novo, forte, petulante», enamora-se pelos sentidos duma flamenga exuberante, com sangue espanhol nas veias e os olhos dum profundo azul nocturno, que o «prendeu de corpo e alma»."

"Em Amesterdão foge com uma rapariga de quinze anos, mas com o desenvolvimento de mulher feita, lançando-se numa aventura deplorável a que pôs termo o pai da rapariga, arrancando-lha dos braços quási pela violência."

"Em Cordova sente um desejo louco por uma cigana ardente que lhe leu a buena-dicha e nunca mais voltou a ver, depois duma noite abrasante de amor."

"Em Florença apaixona-se por uma jovem argentina de carnação mimosa, de imensos olhos de veludo, de opulento cabelo negro, ondeado e macio, com quem trocou apenas um beijo apressado e sôfrego, «um dêsses beijos que valem por mil promessas formais de casamento»."

"Em Génova entrevê uma hora de amor deliciosa com uma bailarina de braços frágeis e olhos garços que conhecera a bordo e lhe marca um encontro para Turim."

"Em Siracusa possui quási pela fôrça, num minuto desvairado de luxúria, uma espécie de deusa oriental, visão deslumbrante, criatura de lenda arrancada a uma página heróica dos «Nibelungos»."

"Ainda em Amesterdão deixa-se prender pelos encantos duma «loira de vinte e cinco anos com grandes olhos azuis e melancólicos e a carnação imaculada das raças do Norte», que friamente premeditara a sua conquista com fins interesseiros."

"Camila, Júlia, Margareta, Cristina, Cordélia, Leonor... tôdas elas lhe fizeram mais tarde doce companhia nas horas longas e tristes do exílio. Razão tinha aquêle companheiro de viagem que lhe disera um dia:
      «― O senhor viaja e deve ser feliz. Com impressões e reminiscências de viagem não há solidão nem degrêdo completos, mas uma perpértua iluminação da alma e da inteligência por evocações contínuas... Assim se prolonga a mocidade...»"

Manuel Teixeira Gomes era um deslumbrado com o belo, também nos objetos que o rodeavam, e que colecionava, como os frascos de rapé que se encontram no Museu do Oriente.



De minha predileção, este foi o meu papel de parede no computador durante meses, feito por mim, a partir de foto minha tirada no Museu do Oriente a 22 de março de 2015.

Publicaram-se recentemente dois novos trabalhos sobre a sua vida, e que ainda não tenho, a saber: Manuel Teixeira Gomes numa sublime cruzada em busca do belo” e "Manuel Teixeira Gomes - Biografia" (boas sugestões para celebrar a quinquagésima volta ao Sol :), mas só agora chega aos cinemas o primeiro FILME sobre a sua vida, que ainda não vi.

A expetativa é grande, tanto mais que não era para iniciar o novo ano com esta mensagem, mas o apelo do Manuel Teixeira Gomes foi mais forte, e quando releio:

"Eu não devia, por coisa alguma, ter renunciado às minhas viagens, que me davam uma espécie de finalidade, e constituiam o elemento capital da minha ventura. Um dom particular me dispusera para ser «viajante»; a faculdade da rápida adaptação. Nunca «estranhei a cama», motivo de terror para todos os sedentários, e ainda menos estranhei a comida; e se, nos pratos chamados nacionais, algumas vezes o paladar se me fazia recalcitrante, bastava insistir para que êle, convencido, desse razão a quem os tem na conta de excelentes pitéus. Depois, o isolamento não me assusta. Dizia o Villiers de l'Isle Adam: «Poucos são dignos da solidão». Estou persuadido que sou dêsses poucos. Espírito feito, não para actor, mas para espectador, a vida para mim, nas suas mínimas manifestações, nas suas bagatelas, é ainda um espectáculo atraente e a-miúde encantador. Para a minha curiosidade, constantemente àlerta, o espectáculo da vida é um constante recomeçar, sempre com a frescura do inédito, desdobrando-se em casos, que se podem assemelhar, mas nunca se repetem exactamente. Onde os outros só vêem monotonia, eu, sem esfôrço, discrimino a diversidade, e, se os sentidos acusam fadiga, basta-me atender aos arabescos, que se me desenham na alma, para encontrar outro objecto de divertimento e prazer". (in O Exilado de Bougie, 57-58)

... fico em "pranto", porque sinto e entendo profundamente o Manuel.

As minhas leituras, os meus livros, são pessoas ausentes, literalmente falando, mas que marcam presença enquanto eu viver. É o Sebastião da Gama, o Wenceslau de Morais, o Armando Martins Janeira, o Stuart Carvalhais, o Agostinho da Silva, o Manuel Teixeira Gomes, e todos eles vivem no meu âmago, e outros mais que descobrirei, mas estes são os primeiros, porque os encontrei assim, no meu acaso.

[...]
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
[...]
Tabacaria (excerto), completo AQUI.

As gárgulas e as Capelas Imperfeitas, ou Inacabadas?, da Batalha, São Torpes que é Saint-Tropez em francês, a iconografia de Amêndoa, o dragão-fonte de Klagenfurt, ou a melancolia de Helena Roque Gameiro, têm de esperar. O sufoco rotineiro que me consome, literalmente... e como eu te entendo Manuel!

Reencontrei Zeus.

in memoriam


O Presidente de Júlio Pomar, AQUI.

Só recentemente (outubro/novembro de 2016) acerquei o Júlio Pomar, e em particular este retrato que me desagradava deixou de o ser. O ensaio/prefácio do João Lobo Antunes sobre ele foi decisivo, bem como uma visita ao Atelier-Museu Júlio Pomar, não tanto pelas obras expostas, mas pelo que fui descobrindo depois.

Uma certa bonomia facial e a grande mão nubular enfrentam outra mão, esquerda, esquiva no espaço que resta, acusatória. Marinho, Marocas, Malandro, tanto faz - pouco importa, é Mário Soares que nos deixa na democracia e na Europa.

Em Nafarros lhe apertei a mão, à entrada da mercearia do Baeta, teria eu 10 a 12 anos (finais dos anos 70). Roupa clara, de camisa e calções, recordação talvez inexata. Bem disposto e com muito à vontade prontamente nos cumprimentou. O meu pai estava comigo, e comentaria depois que o achava pequeno na televisão, e que não era (o meu pai tem 1,70m).

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo (Miguel Esteves Cardoso, AQUI; english translation HERE).



Já está transformado em marcador.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Por cima ou por baixo?

O feijão é como se fosse o cascalho, a fundação no prato. O arroz leve e solto virá depois, preenchendo os espaços, cobrindo. No prato esta seria a minha ordem natural, respeitando a gravidade e o meu gosto enxuto, como uma estrada romana ou uma parede de alvenaria... engenharias.

O arroz branco de cor e de gosto é a base. O feijão meloso de caldo e de sabor deverá pois se sobrepor ao primeiro, derramando o seu tempero. No prato é outra possibilidade em que não pensei, mas que respeita a gravidade e o apurar de gosto de quem aprecia... químicas.

Cada qual tem a sua opinião unívoca e prioritária. E pode não ser assim, normalmente não é assim, da mesma forma que normalmente somos assim, de opiniões feitas e exclusivas.

A propósito desta nossa conversa (Roberta e Osvaldo) lembrei-me dos "mandamentos" do Fernando Pessoa, que de seguida transcrevo, mas que podem encontrar AQUI:

1. Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor de tuas opiniões.

2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.

3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...

4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.

5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.

6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.


7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.

E onde quero chegar?... começar pelo primeiro, talvez o que mais se ajusta, e depois decorrer pelos restantes. Por enquanto é mesmo assim, decorrer... ser excêntrico... excêntrico de sair do seu eixo.

BOM NATAL.


Fernando Pessoa aos olhos e mãos de Júlio Pomar. AQUI.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Como se nada fosse.

Dei por mim quase a pisar, molhadas, e que bonitas estavam, nos seus corpos expostos e dilacerados, breves repositórios de estações palimpsestas, até que tudo se dissolva e da pedra fique, por enquanto, a limpeza da morte.

Dei por mim bem a olhar, em sobressalto, hoje, 4 de dezembro de 2016.










A meus pés estais... perto dos Jerónimos [Mosteiro], indiferentes a quem passa... e o que se passa?


domingo, 27 de novembro de 2016

Pontífice.

      «O engenheiro Eiffel pode muito bem ser considerado o papa dos modernos construtores. O papa, isto é: o pai das construções metálicas.
      Só em Portugal deixou umas dúzias de pontes, a mais famosa a D. Maria, no Porto, presentemente [1985] com um duvidoso futuro. Ora, o homem que faz pontes, é um pontífice.
      Eiffel, como o engenheiro Edgar Cardoso, fazem pontes entre duas margens de um rio, ou seja, ligam os homens entre si.
      Ao pontífice de Roma cabe a mais difícil tarefa de estabelecer uma ponte permanente entre os homens e os céus.
      Coisas da religião, palavra que quer dizer exactamente a mesma coisa. Religio: eu ligo o homem a Deus através do ritual.»

In "Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis" de Roby Amorim, Edições Salamandra (1985), página 65.


Robert and Shana ParkeHarrison _ Architect's Brother > Passage > 372


































Está encontrado o pretexto, o nome que "encontrei" para esta foto, e através da qual vos dou a conhecer o trabalho destes dois artistas, marido e esposa, Robert e Shana.

Uma nesga de terra ao longe, será para lá que se dirige este pontífice?... sucessivos epicentros martelados, e os pregos onde agarram? o que juntam?... a passagem que se constrói no flutuar, entre margens incertas. Autosuficiente este pontífice, de tábuas às costas, martelo em riste, ajoelhado.

A foto pertence ao corpo de trabalho Architect's Brotherdesenvolvido entre 1993 e 2005, recorrendo somente a meios analógicos (nada de Photoshop, mas sim em mãos, na câmara escura, mesclando imagens).

O resultado final envolve, para além da fotografia, pintura, escultura e artes de palco. Fotogramas que revelam estórias de perda, luta humana e exploração pessoal, em paisagens marcadas pela tecnologia e pelo uso excessivo dos recursos... um mundo pós-apocalíptico? E se?

Foi no CD dos The Gloaming que encontrei esta e outra foto, mas também na capa de um livro do António Lobo Antunes que vi na FNAC, penso ser uma edição francesa (já estive na livraria, pesquisei na internet, mas não consegui encontrar). A foto que está na origem da capa É ESTA

Os The Gloaming estiveram este ano em Portugal, antes de eu saber da sua existência, foi pena. Podem ouvir excertos das faixas dos CDs AQUI, e um vídeo AQUI.

Mais pormenores sobre o trabalho Architect's Brother (deu origem a um livro) neste artigo do Jonathan Stead, AQUIA leitura que fiz do artigo foi a que se segue, e a propósito, já sei quem é o Joseph Beuys. Falta o resto, ainda não sei nada.






Et cetera...

E outras fotos que andarão por aí... ESTA encabeça um delicioso e brilhante artigo do saudoso Oliver Sacks, AQUI (ao jeito do Primo Levi).

domingo, 13 de novembro de 2016

Atão Antão?!... não é dragão?

Estamos no final do ano das comemorações dos 500 anos da morte do pintor Hieronymus Bosch, o Bosch, el Bosco (vem de bosque).

As grandes exposições na Holanda e em Espanha, onde nasceu e onde se encontra a maioria da sua obra que lhe sobreviveu,  já ocorreram, e não fui a nenhuma delas. Tal fato é tão somente a constatação do meu fracasso.

Em ambas houve catálogos, e BD (comic strips), e por aqui ando na (re)descoberta (e tudo começou AQUI):



Existe um Bosch por perto, no MNAA, é dele que me socorro. A folha de sala ajuda, até se refere ao Damião de Góis, retratado por Dürer e amigo de Erasmusque o teria comprado e oferecido, mas tudo não passa de desencontros e suposições, afinal o tema das tentações de Santo Antão teria sido um dos que mais pintou... a tentação e a solidão do homem justo perante o mal.

O Dr. Meyrelles do Souto dá-nos a sua descrição do tríptico, num livro que tem a minha idade, e cujas páginas coloco ao vosso dispor AQUI. Fazer a sua leitura perto do tríptico é o meu repto, e assim começa a descoberta de um deslumbramento: tanta coisa estranha e sem sentido, aos olhos de hoje, mas os olhos de Bosch são profundamente católicos... e atão Antão?

O dragão do pecado, que o autor anterior descobriu numa singular escultura na praça principal de Klagenfurt, e que também nos remete para o universo boschiano, é mais um dos acasos em que deliciosamente vou tropeçando, e que partilho convosco. A estátua renascentista teve por modelo um crânio fossilizado, que se pensou ser de um dragão, mas que hoje sabemos ser de um rinoceronte (podem ler a estória AQUI). Uma reconstituição paleontológica acidental e primordial.

Quis ver o aspeto da besta e encontrei estes postais (estou em vias de ter mais, encantado com este dragão):




Mas em verdade não me fico por aqui sem referir a polémica despoletada pelo Bosch Research and Conservation Project: há por aí Bosch's que não são Bosch... AQUI.

O que parece pode não ser, e o que não parece, de tão estranho e deformado, afinal é, mesmo passados cinco séculos.

Atão Antão?!... é dragão...
Atão Antão?!... lá vai dragão.


O meu papel de parede no computador. Gravura de Julio Ruelas.

domingo, 23 de outubro de 2016

Botas de Deserto.

Conhecia vagamente a designação, apareceram em 1949 e são um ícone, mas não dei por isso.

O olhar, ligeiramente abaixo da minha linha do horizonte, tocou na sua simplicidade: a forma feita de cores e materiais sóbrios... estava na loja Clarks C.C.Colombo. Experimentei por curiosidade, o calçado é prioridade na minha parca indumentária, e estranhei, desgostei o pisar, adorei o arejamento nada claustrofóbico destas botas. Disse que não (nunca) as compraria, a Roberta detestou-as, mas fique a pensar nelas durante a semana.

O calçado é como a nossa voz, nunca sabemos como ela soa nos ouvidos das outras pessoas, o que ouvimos de nós é diferente do que os outros ouvem de nós, explicando, a nossa perspetiva do que calçamos é do alto da nossa verticalidade, essencialmente o peito do pé, e depois o rodar ligeiramente para lhe apreciar o flanco, e o grand finale, o espelho, o que mais se aproxima de como os outros nos veem (quando quero tirar uma dúvida sobre uma pessoa olho para os sapatos), mas primeiro tenho que sentir conforto no pisar, leveza e arejamento, e finalmente gostar do que vejo na vertical, os atacadores que ajustam o sapato ao peito do pé, gáspeas de pele castanha e solas sintéticas (tive uns sapatos de pele de cabra que adorei, o pigmento castanho era de origem natural, extraído do milho, comprei-os em Campina Grande); não gosto de biqueiras afiadas ou quadradas. Se tudo se ajustar perfeito e belo tenho a minha escolha.

Foto do livro "O Gentleman - Livro da Moda Clássica Masculina" de Bernhard Roetzel

Não estou na foto, mas serve para elucidar um pormenor extremamente importante, a patine que o uso acrescenta ao sapato, uma extensão da personalidade de quem o usa. O sapato é uma segunda pele, está lá tudo, as rugas e as cicatrizes da vida, o aprumo ou o desleixo, os estados de alma de quem os usa.

Voltando ao início, só recordo o pisar das Desert Boot, mas não as apreciei na vertical, nem sequer ao espelho, talvez seja um pretexto, porque tenho pensado nelas, porque tenho de as experimentar de novo. Continuam assim, desengonçadas, como nestes anúncios de outrora (há mais AQUI e AQUI)... lindas?

https://theidleman.com/manual/advice/how-wear-desert-boots/

Do que li da sua história ficou-me esta imagem: 'officers swanning around with suede boots and swagger sticksAQUI.

Botas de Deserto (Desert Boot) é a marca comercial da Clarks, uma variante das botas Chukka.


Foto do livro "O Gentleman - Livro da Moda Clássica Masculina" de Bernhard Roetzel

Atualmente os meus sapatos de trabalho são ESTES.

domingo, 9 de outubro de 2016

Ganhar o dia.

Aquilo por que podem pagar-lhe na zona de sobreposição naquilo em que é bom, e que dá a profissão, forma e tempo de ganhar o dia. Mas também se ganha o dia na descoberta e contemplação do belo imaterial, que nos desperta, que nos dá uma outra existência.

O ponto de partida será sempre o material, afinal tenho um corpo, que não me pesa e liberta (exceto na doença e quando é castigado pelo trabalho), que me dá o movimento, que me permite trespassar o ar, a visão panorâmica com todas as cores e pormenores, os arrepios de sensações na pele, as vibrações musicais, o paladar que se antecipa no cheiro... viver é alimentar os sentidos... sentidos sentidos e os vários sentidos.

Não estava a prestar atenção, mas derrepente, assim com erro e tudo, de enxurrada, capto no ar: tem mais presença em mim o que me falta... Manoel de Barros... sabia apenas que existia, apartir do dia em que morreu... AQUI, vou atrás e encontro:

O livro sobre nada (AQUI)

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Assim é que se ganha o dia. E no seu final, estendido e repousado, começo a ler em voz que se ouve para mim e perto de mim, o frémito desta orquestra em movimento: eu, o verso e alegria de assim ganhar o dia. Cumpre-se o homem imprudentemente poético que existe em mim... palavras plagiadas do título do livro "Homens imprudentemente poéticos" de Valter Hugo Mãe. Descobrias no passado feriado, e ganhei o dia. Com um título assim dá logo vontade de ler... e fiquei a pensar: o que é ser homem imprudentemente poético?... é expor o flanco, dar a sensibilidade, desprezar a força e encontrar a força na diferença, ou tudo isto não passa de um grande disparate em construção.

Posso agora ler a entrevista do autor ao JL, e avançar para o livro, literatura meus caros, da qual andei muito tempo arredado. Ao mesmo tempo recupero "Liberdade para Escolher", com prefácio de João César das Neves, e "Eu, o Lápis" de Leonard Read. Ganhar o dia em todas as frentes.

Hoje é dia de lembrar que há dias em que se ganha o dia, e o dia de hoje ainda está mais novo do que velho, mas já tem uma perda, é o dia de despedida do Gustavo dos Escuteiros.


Hoje de nós no Museu do Azulejo, 9 de outubro de 2016.