domingo, 27 de novembro de 2016

Pontífice.

      «O engenheiro Eiffel pode muito bem ser considerado o papa dos modernos construtores. O papa, isto é: o pai das construções metálicas.
      Só em Portugal deixou umas dúzias de pontes, a mais famosa a D. Maria, no Porto, presentemente [1985] com um duvidoso futuro. Ora, o homem que faz pontes, é um pontífice.
      Eiffel, como o engenheiro Edgar Cardoso, fazem pontes entre duas margens de um rio, ou seja, ligam os homens entre si.
      Ao pontífice de Roma cabe a mais difícil tarefa de estabelecer uma ponte permanente entre os homens e os céus.
      Coisas da religião, palavra que quer dizer exactamente a mesma coisa. Religio: eu ligo o homem a Deus através do ritual.»

In "Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis" de Roby Amorim, Edições Salamandra (1985), página 65.


Robert and Shana ParkeHarrison _ Architect's Brother > Passage > 372


































Está encontrado o pretexto, o nome que "encontrei" para esta foto, e através da qual vos dou a conhecer o trabalho destes dois artistas, marido e esposa, Robert e Shana.

Uma nesga de terra ao longe, será para lá que se dirige este pontífice?... sucessivos epicentros martelados, e os pregos onde agarram? o que juntam?... a passagem que se constrói no flutuar, entre margens incertas. Autosuficiente este pontífice, de tábuas às costas, martelo em riste, ajoelhado.

A foto pertence ao corpo de trabalho Architect's Brotherdesenvolvido entre 1993 e 2005, recorrendo somente a meios analógicos (nada de Photoshop, mas sim em mãos, na câmara escura, mesclando imagens).

O resultado final envolve, para além da fotografia, pintura, escultura e artes de palco. Fotogramas que revelam estórias de perda, luta humana e exploração pessoal, em paisagens marcadas pela tecnologia e pelo uso excessivo dos recursos... um mundo pós-apocalíptico? E se?

Foi no CD dos The Gloaming que encontrei esta e outra foto, mas também na capa de um livro do António Lobo Antunes que vi na FNAC, penso ser uma edição francesa (já estive na livraria, pesquisei na internet, mas não consegui encontrar). A foto que está na origem da capa É ESTA

Os The Gloaming estiveram este ano em Portugal, antes de eu saber da sua existência, foi pena. Podem ouvir excertos das faixas dos CDs AQUI, e um vídeo AQUI.

Mais pormenores sobre o trabalho Architect's Brother (deu origem a um livro) neste artigo do Jonathan Stead, AQUIA leitura que fiz do artigo foi a que se segue, e a propósito, já sei quem é o Joseph Beuys. Falta o resto, ainda não sei nada.






Et cetera...

E outras fotos que andarão por aí... ESTA encabeça um delicioso e brilhante artigo do saudoso Oliver Sacks, AQUI (ao jeito do Primo Levi).

domingo, 13 de novembro de 2016

Atão Antão?!... não é dragão?

Estamos no final do ano das comemorações dos 500 anos da morte do pintor Hieronymus Bosch, o Bosch, el Bosco (vem de bosque).

As grandes exposições na Holanda e em Espanha, onde nasceu e onde se encontra a maioria da sua obra que lhe sobreviveu,  já ocorreram, e não fui a nenhuma delas. Tal fato é tão somente a constatação do meu fracasso.

Em ambas houve catálogos, e BD (comic strips), e por aqui ando na (re)descoberta (e tudo começou AQUI):



Existe um Bosch por perto, no MNAA, é dele que me socorro. A folha de sala ajuda, até se refere ao Damião de Góis, retratado por Dürer e amigo de Erasmusque o teria comprado e oferecido, mas tudo não passa de desencontros e suposições, afinal o tema das tentações de Santo Antão teria sido um dos que mais pintou... a tentação e a solidão do homem justo perante o mal.

O Dr. Meyrelles do Souto dá-nos a sua descrição do tríptico, num livro que tem a minha idade, e cujas páginas coloco ao vosso dispor AQUI. Fazer a sua leitura perto do tríptico é o meu repto, e assim começa a descoberta de um deslumbramento: tanta coisa estranha e sem sentido, aos olhos de hoje, mas os olhos de Bosch são profundamente católicos... e atão Antão?

O dragão do pecado, que o autor anterior descobriu numa singular escultura na praça principal de Klagenfurt, e que também nos remete para o universo boschiano, é mais um dos acasos em que deliciosamente vou tropeçando, e que partilho convosco. A estátua renascentista teve por modelo um crânio fossilizado, que se pensou ser de um dragão, mas que hoje sabemos ser de um rinoceronte (podem ler a estória AQUI). Uma reconstituição paleontológica acidental e primordial.

Quis ver o aspeto da besta e encontrei estes postais (estou em vias de ter mais, encantado com este dragão):




Mas em verdade não me fico por aqui sem referir a polémica despoletada pelo Bosch Research and Conservation Project: há por aí Bosch's que não são Bosch... AQUI.

O que parece pode não ser, e o que não parece, de tão estranho e deformado, afinal é, mesmo passados cinco séculos.

Atão Antão?!... é dragão...
Atão Antão?!... lá vai dragão.


O meu papel de parede no computador. Gravura de Julio Ruelas.

domingo, 23 de outubro de 2016

Botas de Deserto.

Conhecia vagamente a designação, apareceram em 1949 e são um ícone, mas não dei por isso.

O olhar, ligeiramente abaixo da minha linha do horizonte, tocou na sua simplicidade: a forma feita de cores e materiais sóbrios... estava na loja Clarks C.C.Colombo. Experimentei por curiosidade, o calçado é prioridade na minha parca indumentária, e estranhei, desgostei o pisar, adorei o arejamento nada claustrofóbico destas botas. Disse que não (nunca) as compraria, a Roberta detestou-as, mas fique a pensar nelas durante a semana.

O calçado é como a nossa voz, nunca sabemos como ela soa nos ouvidos das outras pessoas, o que ouvimos de nós é diferente do que os outros ouvem de nós, explicando, a nossa perspetiva do que calçamos é do alto da nossa verticalidade, essencialmente o peito do pé, e depois o rodar ligeiramente para lhe apreciar o flanco, e o grand finale, o espelho, o que mais se aproxima de como os outros nos veem (quando quero tirar uma dúvida sobre uma pessoa olho para os sapatos), mas primeiro tenho que sentir conforto no pisar, leveza e arejamento, e finalmente gostar do que vejo na vertical, os atacadores que ajustam o sapato ao peito do pé, gáspeas de pele castanha e solas sintéticas (tive uns sapatos de pele de cabra que adorei, o pigmento castanho era de origem natural, extraído do milho, comprei-os em Campina Grande); não gosto de biqueiras afiadas ou quadradas. Se tudo se ajustar perfeito e belo tenho a minha escolha.

Foto do livro "O Gentleman - Livro da Moda Clássica Masculina" de Bernhard Roetzel

Não estou na foto, mas serve para elucidar um pormenor extremamente importante, a patine que o uso acrescenta ao sapato, uma extensão da personalidade de quem o usa. O sapato é uma segunda pele, está lá tudo, as rugas e as cicatrizes da vida, o aprumo ou o desleixo, os estados de alma de quem os usa.

Voltando ao início, só recordo o pisar das Desert Boot, mas não as apreciei na vertical, nem sequer ao espelho, talvez seja um pretexto, porque tenho pensado nelas, porque tenho de as experimentar de novo. Continuam assim, desengonçadas, como nestes anúncios de outrora (há mais AQUI e AQUI)... lindas?

https://theidleman.com/manual/advice/how-wear-desert-boots/

Do que li da sua história ficou-me esta imagem: 'officers swanning around with suede boots and swagger sticksAQUI.

Botas de Deserto (Desert Boot) é a marca comercial da Clarks, uma variante das botas Chukka.


Foto do livro "O Gentleman - Livro da Moda Clássica Masculina" de Bernhard Roetzel

Atualmente os meus sapatos de trabalho são ESTES.

domingo, 9 de outubro de 2016

Ganhar o dia.

Aquilo por que podem pagar-lhe na zona de sobreposição naquilo em que é bom, e que dá a profissão, forma e tempo de ganhar o dia. Mas também se ganha o dia na descoberta e contemplação do belo imaterial, que nos desperta, que nos dá uma outra existência.

O ponto de partida será sempre o material, afinal tenho um corpo, que não me pesa e liberta (exceto na doença e quando é castigado pelo trabalho), que me dá o movimento, que me permite trespassar o ar, a visão panorâmica com todas as cores e pormenores, os arrepios de sensações na pele, as vibrações musicais, o paladar que se antecipa no cheiro... viver é alimentar os sentidos... sentidos sentidos e os vários sentidos.

Não estava a prestar atenção, mas derrepente, assim com erro e tudo, de enxurrada, capto no ar: tem mais presença em mim o que me falta... Manoel de Barros... sabia apenas que existia, apartir do dia em que morreu... AQUI, vou atrás e encontro:

O livro sobre nada (AQUI)

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Assim é que se ganha o dia. E no seu final, estendido e repousado, começo a ler em voz que se ouve para mim e perto de mim, o frémito desta orquestra em movimento: eu, o verso e alegria de assim ganhar o dia. Cumpre-se o homem imprudentemente poético que existe em mim... palavras plagiadas do título do livro "Homens imprudentemente poéticos" de Valter Hugo Mãe. Descobrias no passado feriado, e ganhei o dia. Com um título assim dá logo vontade de ler... e fiquei a pensar: o que é ser homem imprudentemente poético?... é expor o flanco, dar a sensibilidade, desprezar a força e encontrar a força na diferença, ou tudo isto não passa de um grande disparate em construção.

Posso agora ler a entrevista do autor ao JL, e avançar para o livro, literatura meus caros, da qual andei muito tempo arredado. Ao mesmo tempo recupero "Liberdade para Escolher", com prefácio de João César das Neves, e "Eu, o Lápis" de Leonard Read. Ganhar o dia em todas as frentes.

Hoje é dia de lembrar que há dias em que se ganha o dia, e o dia de hoje ainda está mais novo do que velho, mas já tem uma perda, é o dia de despedida do Gustavo dos Escuteiros.


Hoje de nós no Museu do Azulejo, 9 de outubro de 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

Solilóquio.

O tempo que medeia estas duas imagens é a minha ausência neste espaço (e mais um pouco).

EU_INÍCIO_2016-08-07_12h22m16s --> EU_TÉRMINO_2016-09-04_12h56m04s

É tempo tracejado de trabalho, o que estou a fazer no início (era domingo), num local improvável e agradável (MNAA). No término estou no meu picotado de lazer (era domingo), tutelado pelo Cupido. O local, e o recanto , é o mesmo, o Cupido está nos dois, e reza assim...


O picotado foi acontecendo em torno do epicentro Pé da Serra (a nossa aldeia, a Terra), base logistica de apoio, remanso que sempre espera por nós, que não é nada e é tudo, no vaivém semanal que ía decorrendo.

Do que vi e senti, do que aconteceu, do que descobri, do que fui escrevendo e reescrevendo na minha cabeça, mas que não chegou ao papel, alguns rabiscos e notas que de tão esparsos e dispersos não dão escrita, das várias mensagens que acalentei colocar aqui, todo o tempo que passou e disfrutei, por onde andei.

Na viagem de ida aproveitava para ler, na de regresso já se fazia sentir a falta de luz, pouco aproveitei, normalmente os esparsos que me acompanhavam (folhas que imprimi sobre os mais diversos assuntos, na forma de artigos e poemas, e que andam sempre por perto). Deu para ler Porquê «O Nome da Rosa»? do Umberto Eco, e As Mãos Inteligentes do Juhani Pallasmaa, que livro admirável. Cheguei ao capítulo 5, ficaram por ler mais três. Antes da Introdução o livro começa com esta peça de artesanato:



Ainda não experimentei fazer o exercício. En passant, normalmente fora de viagem, Uma Temporada no Inferno do Rimbaud, e folhas de poesia.

Tive uma breve colaboração, em voz alta, na leitura dos Lusíadas, aplanados e prosados pelo João de Barros, a parte maior ficou com a Roberta e os adolescentes em férias. Estranharam a princípio, mas depois gostaram.


Exemplar requisitado na Biblioteca Municipal José Cardoso Pires (Vila de Rei).

Acrescento o apontamento que posteriormente lhes transmiti, e que está no Diário de Sebastião da Gama (página 165 da 1.ª edição), que passo a transcrever: «Os Lusíadas não são a História de Portugal em verso... Os Lusíadas era principalmente o poema do orgulho do homem e da confiança em si, nas suas forças, na sua independência, que o homem finalmente adquire».

Reencontrei Tude de Sousa, com o qual convivo semanalmente na toponímia de Sintra (que lhe facilitou a realização do velho sonho... no meu caso começo a desconfiar que será um gólgota, assim mesmo com letra minuscula)... afinal é natural de Amieira do Tejo, e com ele intuí, ou pelo menos assim o entendi (posso estar errado), que solilóquio também pode ser sinónimo de Curriculum Vitae, no caso presente, e título desta mensagem, é tão somente uma ordenação lógica do se se passou em viagem, um acerto de contas comigo mesmo.

Do que fui e fomos, vendo e descobrindo, fica só a ausência do registo fotográfico dos banhos tomados nas várias piscinas e praias fluviais, o melhor ficou na pele e nos músculos, brincadeiras e mergulhos, nas sandes de atum e das frutas que marcaram o palato. Sertã e Cardigos foram as mais visitadas, mas também estivemos no Mação, Carvoeiro, Ferreira do Zêzere (Lago Azul), Alter do ChãoBelver (Alamal).

Pormenores e perspetivas dos locais por onde andei e andámos. As fotografias aéreas são do site A Terceira Dimensão - Fotografia Aérea, contextualizam e ressaltam a monumentalidade, orientam-nos. Levei algumas impressões comigo para descobrir pormenores inacessíveis, ou para melhor explicar o que estávamos a visitar.

Por ordem cronológica, alguma coisa do que ficou:


SERTÃ
SERTÃ - ESCOLA CONDE DE FERREIRA
MARVÃO
MARVÃO - MISERICÓRDIA
MARVÃO - CISTERNA

MAÇÃO
MAÇÃO - MARQUISE EM RUÍNAS

TOMAR - CONVENTO DE CRISTO
TOMAR - SILHUETA E JANELA

DORNES
DORNES - CEMITÉRIO E TORRE

LISBOA - TERMINAL RODOVIÁRIO SETE RIOS

FLOR DA ROSA - MOSTEIRO
FLOR DA ROSA - ANDORINHAS NO MOSTEIRO

ALTER DO CHÃO - CASTELO
CAPA DO CADERNO DA MINHA INFÂNCIA (O MEU ANDA PERDIDO, MAS SEI QUE O TENHO, SOCORRI-ME DESTE SITE)
COUDELARIA DE ALTER

AMIEIRA DO TEJO - CASTELO
BARCA DA AMIEIRA (DO LADO DO CONCELHO DE NIZA)
BARCA DA AMIEIRA (DO LADO DE LÁ É CONCELHO DE MAÇÃO, PELO MEIO UMA LENDA)
AMIEIRA DO TEJO - CASTELO E A LEMBRANÇA DOS FIGOS DELICIOSOS QUE COMI

FÁTIMA - CENTENÁRIOS

E foi assim, faltou ainda referir os poemas e escritos, partilhados em voz alta, do Fernando Pessoa: Liberdade, Mandamentos (o quarto aplicou-se um certo dia na Sertã), o final da Nota BiográficaDo vale à montanha (O Cavaleiro Monge cantado pela Mariza).

E tudo isto é um recomeço, o deste espaço, e o de uma certa pessoa que completa hoje mais uma volta ao Sol. Parabéns Gustavo :)

VALETE, FRATRES.

domingo, 31 de julho de 2016

Proémio.

No olhar repentino fixei duas malaguetas cruzadas (não são), o Y deitado que faz lembrar a bandeira da África do Sul, o nosso verde, vermelho e amarelo...

A funny flag, why?... is the flag of Vanuatu (ops!... a minha ignorância)... a flag of convenience, on a Spanish ship...

Pergunta minha, respostas de um membro da tripulação. Parece que estamos num pequeno navio pirata. Ambiente muito descontraido, o navio balançava muito (tão bom), uma brisa moderada e constante (melhor ainda), o paredão alto do cais... a maré andava baixa, no oposto da minha satisfação.




ATYLA é o nome do navio, um dos participantes da «The Tall Ships Races Lisboa 2016». O penúltimo dos navios atracados, a montante do Cais do Jardim do Tabaco. Não é Classe A, estava na minha lista, mas não estava nas minhas prioridades, e dei por ele porque estava quase no fim, e pelo menos de ponta a ponta era obrigação marcar presença. AMERIGO VESPUCCI, ALEXANDER VON HUMBOLDT II, e CHRISTIAN RADICH acabaram por ser as deceções, por razões diferentes, mas que não têm a ver com os navios em si. O CUAUHTÉMOC, a outra grande surpresa, pelo ambiente festivo AQUI, o reencontro com um velho conhecido (o navio).

Christian Radich, Georg Stage e Maybe estiveram na primeira regata (de Torbay, sul de Inglaterra, a Lisboa) realizada há 60 anos.




Recordo Vanuatu do tempo da EXPO'98, em particular a música que escutei no pavilhão AQUI, e o CD que comprei. De regresso a casa Vanuatu ia nos meus pensamentos em música, e vagamente situado para os lados da Nova Zelândia (não é bem assim). Feito o acerto geográfico na Wikipédia, e rebuscado o CD, descubro o estranho nome, de familiar, da maior ilha de Vanuatu: Espiritu Santo. Quem a descobriu, e lhe deu o nome, foi o português Pedro Fernandes de Queirós. Uma vida que deu origem ao poema épico «Captain Quiros» de James McAuley.

A palavra Austrália que hoje usamos para o continente terá sido pela primeira vez usada por ele, e continuada por outros, pois acreditava que a Austrália do Espírito Santo seria parte de um continente. Não se limitou a descobrir de passagem, fundou uma colónia e fracassou, atravessou o Oceano Pacífico, e nenhum dos seu homens morreu de escorbuto, talvez porque tivesse descoberto que incluindo frutas e legumes na dieta dos seus marinheiros afastaria a doença.

De volta ao ATYLA, o navio tem o seu passado, e certamente é uma boa opção futura para ocupar um pouco das férias de verão dos jovens, haja interesse que o resto se consegue, porque férias é tempo de fazer coisas diferentes, o tempo de não fazer nada é no cemitério.

Proémio... é o Proem, título de abertura do poema Captain Quiros, o início improvavel, que transforma, surpreende, dá sentido, e do fim se fez princípio, ou tudo isto não passa de uma grande estopada, ou «a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.» AQUI

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Post scriptum:

English translation ON HERE
Porque somos nós, europeus.


The Tall Ships Races 2016 - Race results.

domingo, 17 de julho de 2016

Acerca do aprender e do luxo.

Fazer uma correção linear, para sincronizar a legenda de um filme, teve efeitos colaterais inesperados. À luz dos meus olhos se destacou o que está a amarelo. Fui lá parar pela necessidade de escolher um segundo ponto, a isso obriga o linear, e vejo o Merlin a responder o que está marcado a verde.
1522
02:19:33,230 --> 02:19:37,969
Qual é a melhor coisa para a tristeza?
Ensinaste-me uma vez.

1523
02:19:38,407 --> 02:19:41,939
O melhor para a tristeza
é aprender algo.

1524
02:19:42,551 --> 02:19:44,076
Aprender algo?

1525
02:19:44,287 --> 02:19:48,194
É a única coisa
que nunca falha.

T. H. White (Terence Hanbury White) (re)criou as seguintes palavras de Merlin:
«The best thing for being sad," replied Merlyn, beginning to puff and blow, "is to learn something. That is the only thing that never fails. You may grow old and trembling in your anatomies, you may lie awake in the middle of the night listening to the disorder of your veins, you may miss your only love, you may see the world around you devastated by evil lunatics, or know your honour trampled in the sewers of baser minds. There is only one thing for it then — to learn. Learn why the world wags and what wags it. That is the only thing the mind can never exhaust, never alienate, never be tortured by, never fear or distrust, and never dream of regretting.» AQUI
Na tradução para o português:
«A melhor coisa a fazer quando se esta triste - respondeu Merlin, começando a fumar e soltar baforadas - é aprender alguma coisa. Essa é a única coisa que nunca falha. Você pode ficar velho e trêmulo em sua anatomia, pode passar a noite acordado escutando a desordem de sua veias, pode sentir saudade de seu único amor, pode ver o mundo ao seu redor ser devastado por lunáticos malvados  ou saber que a sua honra foi pisoteada no esgoto das mentes baixas. Só há uma coisa  para isso : aprender. Aprender por que o mundo gira e o que o faz girar. Essa  é a única coisa da qual a mente não pode jamais se cansar, nem se alienar,nem se torturar,nem temer ou descrer, e nunca sonhar em se arrepender.» AQUI
E foi assim que parti em busca, e aprendi, que o filme de 1967 se baseia no romance «O Rei que Foi e Um Dia Será» (The Once and Future King), de T. H. White (Terence Hanbury White), que "fixa", porque mais perto de nós, e está na origem do filme de animação «A Espada Era a Lei» da Disney (1963), que ainda hoje continua a fazer parte das «sagas» familiares que se vão perpetuando na partilha do que vem, e do que vai, para a frente que é futuro.

Puxando pelo universo arturiano, na forma escrita, temos "ainda" (como se não fosse o "início") Thomas Malory e a sua «A Morte de Artur». Será que a preocupação de T. H. White, de dar resposta à tristeza, se insinua noutro discurso de Merlin, agora nas palavras de Thomas Malory?

Mas o propósito de tudo isto é só um, para mim é uma evidência: aprender alguma coisa, cada dia que passa, é muito prazeroso. Provavelmente sempre foi assim, as "palavras do Merlin" só vieram reforçar/relembrar. Não sei como é convosco :)

Noutro registo, e en passant literalmente, capto em segundos o que me foi oferecido pelo acaso:
«O luxo é também ter tempo para si sem ser obrigado a viver sob uma pressão contínua.» AQUI
O giro é que se começasse por vos procurar o que é o luxo, provavelmente iriam parar ao peso do que não se tem e se deseja, de tão inacessível de ser caro... ao puro engano! É como os três desejos do génio da lâmpada mágica. Por enquanto só tenho um desejo certo, quando e se encontrar... falar e escrever todas as línguas do universo, os outros dois continuam em aberto.

Mas o Karl Lagerfeld surpreende ainda mais (não tem nada a ver, mas tem: From Karl Lagerfeld to Karl Marx), na banalidade que nos envolve, como sal ou doce em excesso, que literalmente entropeçe o paladar:
«Porque hoje em dia, lamentavelmente, há muita gente sem nada para fazer e os outros, que são demasiado agitados. Então, isso também é um luxo. O luxo é também uma questão de qualidade, o luxo é também uma questão de fineza de espírito. Sabe, podemos fazer uma experiência. Não são apenas as coisas caras, é preciso que sejam bem feitas e que justifiquem o preço e que a qualidade deve ser impecável.»
E como se liga isto tudo (acerca do aprender e do luxo)? Pela fineza de espírito e na qualidade que depositamos naquilo que fazemos. Aprender é a chave de tudo. E aprender envolve tanta coisa. Vago demais?... talvez!... com pressa de terminar e ir até ao mar. FIM.

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Post scriptum:
  • Desde meados de fevereiro que preparei a visita, chegou a hora. Início na próxima sexta-feira, 22 de julho, «The Tall Ships Races Lisboa 2016» (60º Aniversário das «The Tall Ships Races»). A minha folha de escolhas: a verde navios prioritários a visitar, a sublinhado navios com alguma especificidade, a amarelo o significado do nome do navio. AQUI 

A foto é minha e mostra a diferença de tamanho entre o Creoula (menor) e a Sagres.


  • A grande exposição sobre Bosch. The 5th Centenary Exhibition no Museo Nacional del Prado. Já tenho o catálogo, falta a visita. Descobri Bosch através da capa de um LP dos Celtic Frost (Into the Pandemonium). A sua música continua para mim inacessível... AQUI... intragável, mas Bosch continua, e vai perdurar em mim como um misterioso e fantástico devaneio. Talvez o quotidiano estranho pela transformação das mentalidades, a pátina do tempo que acentua e descontextualiza. Mas há mais, por contrapartida do nosso Bosch no Prado (Tentações de Santo Antão), vem até nós o Autorretrato de Dürer, AQUI.

A capa do meu LP que me levou a descobrir Bosch.