domingo, 31 de julho de 2016

Proémio.

No olhar repentino fixei duas malaguetas cruzadas (não são), o Y deitado que faz lembrar a bandeira da África do Sul, o nosso verde, vermelho e amarelo...

A funny flag, why?... is the flag of Vanuatu (ops!... a minha ignorância)... a flag of convenience, on a Spanish ship...

Pergunta minha, respostas de um membro da tripulação. Parece que estamos num pequeno navio pirata. Ambiente muito descontraido, o navio balançava muito (tão bom), uma brisa moderada e constante (melhor ainda), o paredão alto do cais... a maré andava baixa, no oposto da minha satisfação.




ATYLA é o nome do navio, um dos participantes da «The Tall Ships Races Lisboa 2016». O penúltimo dos navios atracados, a montante do Cais do Jardim do Tabaco. Não é Classe A, estava na minha lista, mas não estava nas minhas prioridades, e dei por ele porque estava quase no fim, e pelo menos de ponta a ponta era obrigação marcar presença. AMERIGO VESPUCCI, ALEXANDER VON HUMBOLDT II, e CHRISTIAN RADICH acabaram por ser as deceções, por razões diferentes, mas que não têm a ver com os navios em si. O CUAUHTÉMOC, a outra grande surpresa, pelo ambiente festivo AQUI, o reencontro com um velho conhecido (o navio).

Christian Radich, Georg Stage e Maybe estiveram na primeira regata (de Torbay, sul de Inglaterra, a Lisboa) realizada há 60 anos.




Recordo Vanuatu do tempo da EXPO'98, em particular a música que escutei no pavilhão AQUI, e o CD que comprei. De regresso a casa Vanuatu ia nos meus pensamentos em música, e vagamente situado para os lados da Nova Zelândia (não é bem assim). Feito o acerto geográfico na Wikipédia, e rebuscado o CD, descubro o estranho nome, de familiar, da maior ilha de Vanuatu: Espiritu Santo. Quem a descobriu, e lhe deu o nome, foi o português Pedro Fernandes de Queirós. Uma vida que deu origem ao poema épico «Captain Quiros» de James McAuley.

A palavra Austrália que hoje usamos para o continente terá sido pela primeira vez usada por ele, e continuada por outros, pois acreditava que a Austrália do Espírito Santo seria parte de um continente. Não se limitou a descobrir de passagem, fundou uma colónia e fracassou, atravessou o Oceano Pacífico, e nenhum dos seu homens morreu de escorbuto, talvez porque tivesse descoberto que incluindo frutas e legumes na dieta dos seus marinheiros afastaria a doença.

De volta ao ATYLA, o navio tem o seu passado, e certamente é uma boa opção futura para ocupar um pouco das férias de verão dos jovens, haja interesse que o resto se consegue, porque férias é tempo de fazer coisas diferentes, o tempo de não fazer nada é no cemitério.

Proémio... é o Proem, título de abertura do poema Captain Quiros, o início improvavel, que transforma, surpreende, dá sentido, e do fim se fez princípio, ou tudo isto não passa de uma grande estopada, ou «a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.» AQUI

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Post scriptum:

English translation ON HERE
Porque somos nós, europeus.


The Tall Ships Races 2016 - Race results.

domingo, 17 de julho de 2016

Acerca do aprender e do luxo.

Fazer uma correção linear, para sincronizar a legenda de um filme, teve efeitos colaterais inesperados. À luz dos meus olhos se destacou o que está a amarelo. Fui lá parar pela necessidade de escolher um segundo ponto, a isso obriga o linear, e vejo o Merlin a responder o que está marcado a verde.
1522
02:19:33,230 --> 02:19:37,969
Qual é a melhor coisa para a tristeza?
Ensinaste-me uma vez.

1523
02:19:38,407 --> 02:19:41,939
O melhor para a tristeza
é aprender algo.

1524
02:19:42,551 --> 02:19:44,076
Aprender algo?

1525
02:19:44,287 --> 02:19:48,194
É a única coisa
que nunca falha.

T. H. White (Terence Hanbury White) (re)criou as seguintes palavras de Merlin:
«The best thing for being sad," replied Merlyn, beginning to puff and blow, "is to learn something. That is the only thing that never fails. You may grow old and trembling in your anatomies, you may lie awake in the middle of the night listening to the disorder of your veins, you may miss your only love, you may see the world around you devastated by evil lunatics, or know your honour trampled in the sewers of baser minds. There is only one thing for it then — to learn. Learn why the world wags and what wags it. That is the only thing the mind can never exhaust, never alienate, never be tortured by, never fear or distrust, and never dream of regretting.» AQUI
Na tradução para o português:
«A melhor coisa a fazer quando se esta triste - respondeu Merlin, começando a fumar e soltar baforadas - é aprender alguma coisa. Essa é a única coisa que nunca falha. Você pode ficar velho e trêmulo em sua anatomia, pode passar a noite acordado escutando a desordem de sua veias, pode sentir saudade de seu único amor, pode ver o mundo ao seu redor ser devastado por lunáticos malvados  ou saber que a sua honra foi pisoteada no esgoto das mentes baixas. Só há uma coisa  para isso : aprender. Aprender por que o mundo gira e o que o faz girar. Essa  é a única coisa da qual a mente não pode jamais se cansar, nem se alienar,nem se torturar,nem temer ou descrer, e nunca sonhar em se arrepender.» AQUI
E foi assim que parti em busca, e aprendi, que o filme de 1967 se baseia no romance «O Rei que Foi e Um Dia Será» (The Once and Future King), de T. H. White (Terence Hanbury White), que "fixa", porque mais perto de nós, e está na origem do filme de animação «A Espada Era a Lei» da Disney (1963), que ainda hoje continua a fazer parte das «sagas» familiares que se vão perpetuando na partilha do que vem, e do que vai, para a frente que é futuro.

Puxando pelo universo arturiano, na forma escrita, temos "ainda" (como se não fosse o "início") Thomas Malory e a sua «A Morte de Artur». Será que a preocupação de T. H. White, de dar resposta à tristeza, se insinua noutro discurso de Merlin, agora nas palavras de Thomas Malory?

Mas o propósito de tudo isto é só um, para mim é uma evidência: aprender alguma coisa, cada dia que passa, é muito prazeroso. Provavelmente sempre foi assim, as "palavras do Merlin" só vieram reforçar/relembrar. Não sei como é convosco :)

Noutro registo, e en passant literalmente, capto em segundos o que me foi oferecido pelo acaso:
«O luxo é também ter tempo para si sem ser obrigado a viver sob uma pressão contínua.» AQUI
O giro é que se começasse por vos procurar o que é o luxo, provavelmente iriam parar ao peso do que não se tem e se deseja, de tão inacessível de ser caro... ao puro engano! É como os três desejos do génio da lâmpada mágica. Por enquanto só tenho um desejo certo, quando e se encontrar... falar e escrever todas as línguas do universo, os outros dois continuam em aberto.

Mas o Karl Lagerfeld surpreende ainda mais (não tem nada a ver, mas tem: From Karl Lagerfeld to Karl Marx), na banalidade que nos envolve, como sal ou doce em excesso, que literalmente entropeçe o paladar:
«Porque hoje em dia, lamentavelmente, há muita gente sem nada para fazer e os outros, que são demasiado agitados. Então, isso também é um luxo. O luxo é também uma questão de qualidade, o luxo é também uma questão de fineza de espírito. Sabe, podemos fazer uma experiência. Não são apenas as coisas caras, é preciso que sejam bem feitas e que justifiquem o preço e que a qualidade deve ser impecável.»
E como se liga isto tudo (acerca do aprender e do luxo)? Pela fineza de espírito e na qualidade que depositamos naquilo que fazemos. Aprender é a chave de tudo. E aprender envolve tanta coisa. Vago demais?... talvez!... com pressa de terminar e ir até ao mar. FIM.

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Post scriptum:
  • Desde meados de fevereiro que preparei a visita, chegou a hora. Início na próxima sexta-feira, 22 de julho, «The Tall Ships Races Lisboa 2016» (60º Aniversário das «The Tall Ships Races»). A minha folha de escolhas: a verde navios prioritários a visitar, a sublinhado navios com alguma especificidade, a amarelo o significado do nome do navio. AQUI 

A foto é minha e mostra a diferença de tamanho entre o Creoula (menor) e a Sagres.


  • A grande exposição sobre Bosch. The 5th Centenary Exhibition no Museo Nacional del Prado. Já tenho o catálogo, falta a visita. Descobri Bosch através da capa de um LP dos Celtic Frost (Into the Pandemonium). A sua música continua para mim inacessível... AQUI... intragável, mas Bosch continua, e vai perdurar em mim como um misterioso e fantástico devaneio. Talvez o quotidiano estranho pela transformação das mentalidades, a pátina do tempo que acentua e descontextualiza. Mas há mais, por contrapartida do nosso Bosch no Prado (Tentações de Santo Antão), vem até nós o Autorretrato de Dürer, AQUI.

A capa do meu LP que me levou a descobrir Bosch.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Adfyd a ddwg wybodaeth, a gwybodaeth ddoethineb.

O título da mensagem é um provérbio galês, que traduzido para o português, apartir do inglês, fica assim: a adversidade traz o conhecimento, e este a sabedoria.

O que nos contraria, as dificuldades experimentadas, levam ao nosso provérbio «a necessidade aguça o engenho».

Temos pois o conhecimento pela vivência ou pela prática de uma atividade, em ambos a experiência é a base sólida para o conhecimento, não é o que diziam os antigos, mas o que experimentei, nas palavras de Duarte Pacheco Pereira «a experiência, que é madre das cousas, nos desengana e de toda a dúvida nos tira», e que podem ler AQUI num texto surpreendente, porque nos convoca à descoberta, do Onésimo Teotónio Almeida.

Por incrível que pareça, esta «conversa» surge por causa do próximo jogo de Portugal no EURO 2016, e digo incrível porque não gosto de futebol. Para mim assistir a um jogo do princípio ao fim é tarefa fastidiosa. Continuo a achar que «A paixão pelo futebol não é apenas uma paixão desportiva. É a expressão de um país acabrunhado que só encontra nas chuteiras uma causa – e um sentido.» (JPC, AQUI), mas o entusiasmo do FJV, AQUI, e a afirmação «Algumas pessoas pensam que o futebol é uma questão de vida e morte. Posso assegurar-vos que é muito, muito mais importante do que isso» (Bill Shankly), ou «Coisas banais são o melhor do futebol» (AQUI), e o que o FJV vem escrevendo na coluna «Os Bravos do Pelotão», a propósito do Euro 2016, que religiosamente vou recortando, digitalizando e arquivando (AQUI), têm lançado sobre mim a suspeita de que estarei a perder algo.

Será que irei descobrir o porquê de tanta alegria na irracionalidade, de tanta baboseira e conversa fiada em torno do futebol, será que conseguirei ficar pregado e transtornado, aos berros e de pulsação alterada, a ver um jogo de futebol do princípio ao fim?... nada, até agora nada. Estou na mesma, em campo oposto/ausente/inexistente. Não há nada que chegue à vida secreta das árvores AQUI... e a outros «nadas» muito meus :)

Gales, o País de Gales, a que aludí no início através de um provérbio, é antes de tudo a recordação de uma aventura de «Os Cinco nas Montanhas de Gales» («Five Get Into a Fix» no original de 1958), que podem visualizar AQUI, na versão que passou na RTP nos anos 70-80, e o livro que li. Revejam os minutos iniciais, certamente terão sido filmados em Gales: as colinas, a placa a indicar LLANFAIRORLLWYN.




Mas a velha e mítica nação galesa é também a Camelot do Rei Artur, que continua por encontrar, perdida algures em Gales, na imaginação de muitos de nós... e assim nos alimenta.


Ilustração retirada do livro de John Howe, Mundos Perdidos.

Mais recentemente foi a descoberta de dois poetas galeses. O Dylan Thomas, sorvido num dia difícil, AQUI, e o R. S. Thomas, que me foi dado a conhecer pelo Patrick, e do qual vos apresento um poema que faz a ponte entre paisagem e história, com mitos à mistura, um poema sobre resiliênciae do qual me atrevi a fazer a tradução (a minha primeira).

A Welshman to any Tourist

We've nothing vast , no deserts
Except the waste of thought
Forming from mind erosion;
No canyons where the pterodactyl's wing
Falls like a shadow.
the hills are fine, of course,
Bearded with water to suggest age
And pocked with cavarns,
One being Arthur's dormitory;
He and his knights are the bright ore
That seams our history,
But shame has kept them late in bed.


Um Galês para algum Turista

Não temos nada vasto para lhe oferecer, não há desertos
Exceto o resíduo do pensamento
Formado a partir da erosão da mente;
Não há desfiladeiros onde a asa do pterodáctilo
Se precipite como uma sombra.
boas colinas, claro,
Barbadas de água insinuando a idade
E crivadas de cavernas,
Uma é a camarata de Artur;
Ele e os seus cavaleiros são o minério brilhante
Que sutura a nossa história,
Mas a vergonha manteve-los até tarde na cama.

Uma análise do poema AQUI. Quando se entende fica mais fácil de gostar. É o que me está a faltar no futebol :)

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Post scriptum

Ricardo e Lia, esta mensagem é-vos dedicada... porque nos encontrámos, porque andei com o rascunho da tradução do poema no bolso, enquanto conversávamos, porque é um começo/recomeço, porque não são precisos mais porquês. Alice é o vosso futuro.

domingo, 26 de junho de 2016

Palimpsestos.


Estava no chão, manhã de 6.ª feira passada, mais ou menos assim, e as palavras cientista, vida e extraterrestre captaram a atenção do meu olhar. O texto podem ler AQUI.

A minha curiosidade passou depois, no dia seguinte, pelas restantes páginas da revista, e li até o improvável de ler de livre vontade. A curiosidade foi mais forte :)



Na página 49, no final do parágrafo que vem da página anterior, podemos ler:
A incapacidade de aceitar a injustiça é a primeira marca de esquerda.
E se fosse assim... A incapacidade de aceitar a injustiça é a primeira marca da direita, ou a incapacidade de aceitar a injustiça é a primeira marca de... o que bem entenderem, sugiro... do ser humano.

Página seguinte, novamente final do parágrafo que vem da página anterior, podemos ler:
À provocação «custava-lhe muito ter uma filha de direita?», atira sem hesitar: «Muito.»
E se fosse assim... «custava-lhe muito ter uma filha de esquerda?»... sugiro nada para ambos os casos.

Esquerda e direita não é o bombordo e o estibordo da vida. Na navegação de cabotagem o lado bom, o que está virado para terra, quando os portugueses desciam pela costa africana abaixo, rumo às Índias, era o lado esquerdo, o bombordo. À direita o imenso oceano desconhecido, onde mais tarde encontrámos o Brasil. Afinal do lado mau também havia terra.

É descabido continuar a insistir numa visão maniqueísta da vida política, extensível até ao interpessoal, não é coisa que se queira perpetuar pelo século XXI adentro. Pior ainda o insinuar de uma certa superioridade moral e ética de um dos lados sobre o outro. Mas não é nada disso que se trata. As águas dos rios Negro e Solimões teimam em andar separadas durante algum tempo, mas mas o resultado final é só um: o Amazonas. Simples, e as águas ficam mais ricas :)

Confiar ou desconfiar: no indivíduo, no coletivo, no mercado. Formas de conciliar a vontade da maioria nas aspirações de cada um. Como é feita a criação e a apropriação da riqueza. Os equilíbrios/desequilíbrios vão-se alcançando e substituindo. Tudo junto é que dita o sucesso e a sustentabilidade civilizatória. Têm de existir recursos materiais para sustentar as «conquistas» da civilização, não basta estarem escritos no papel (leia-se Constituição). Estômago faminto acicata a mente, faz resurgir o animal. Sustento, saber, e o corolário: a saúde. A sequência unívoca dos três esses do Professor Agostinho da Silva (AQUI aos 16 minutos e 18 segundos).

Não são os outros, somos nós: eu, tu, a comunidade.

Tudo isto não era para ser assim, mas aconteceu, é talvez o esboço do meu Credo. Fui raspando e apareceu, como um palimpsesto.

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Post scriptum

Até agora, na minha escala temporal, um ponto se destaca: a queda do Muro, mas passei a ter mais um: o Brexit.

A líder está cada vez mais só, por incapacidade e irresponsabilidade dos outros «líderes». Ao líder exige-se que mantenha a calma, acredite verdadeiramente no que diz e faz, que saiba para onde quer ir (a parte mais difícil neste momento).

Do que fui lendo destaco:

O sucesso do impossível (JCN - 23 de junho);
O Reino Desunido (MEC - 25 de junho);
Brexit: Merkel says 'no need to be nasty' in leaving talks (26 June).

Objetivamente não são os programas de estabilidade e de convergência, e a pressão dos refugiados, a origem de todos os problemas, mas aos olhos da multidão é o que cada vez mais se quer fazer querer, e isso pode ser fatal. Aquilo que não foi pode passar a ser.

Porque razão milhares de seres humanos fogem dos seus países para alguns países da União Europeia? Entre Inglaterra, Alemanha e Portugal, como ordenam as suas preferências? Não é dificil adivinhar.

Atento e sereno a desenvolvimentos futuros.


Post post scriptum
Ser de direita – normalidade ou doença?”, por João Pereira Coutinho.

domingo, 19 de junho de 2016

Ao relento.



A propósito da Insíginia de Campo de mais de 25 «noites de campo» (Por «noite de campo» entende-se um período de 24 horas passado ao ar livre, utilizando tenda, abrigo natural ou construido pelo próprio, e confirmado em Ordem de Serviço de Agrupamento. AQUI), lembrei-me desta estória sobre a construção da Casa da Quinta da Comenda, que fica na orla ribeirinha da Arrábida, a caminho de Setúbal, e que passo a citar (podem ler AQUI na página 77, penúltimo parágrafo):
Conta-se que o Conde Armand pedira a Raul Lino para desenhar a casa, convite acompanhado de uma sugestão singular: que antes de começar a projectar a construção, o arquitecto dormisse no sítio uma noite ao luar. O repto foi aceite e o resultado foi o palacete da Comenda.
Nada de extraodinário para quem leu na juventude «Walden ou a Vida dos Bosques» de Henry David Thoreau (ver página 95, AQUI). Lembrou-me também o estar ao relento, deitado nas lajes da varanda da casa do avô Américo, de frente para a Serra da Amêndoa, olhando o céu estrelado em plena noite quente de agosto, ao som dos grilos.

Acontece que, na semana que passou, a Casa da Quinta da Comenda veio novamente ter comigo, através da seguinte notícia.



No site da imobiliária descobri que a casa acolheu a viúva e filhos do Presidente Kennedy, depois do assassinato. No entanto não consegui confirmar esta informação, e a dúvida adensa-se quando leio o seguinte, AQUI:
Foi uma mulher frágil e de luto que chegou ao Palácio da Comenda, na Serra da Arrábida, em Setúbal, logo após o assassinato do marido, em 1963. Jacqueline Kennedy veio para Portugal com os dois filhos pequenos, Caroline e John, a convite dos condes D’Armand — ao que parece, os franceses eram muito amigos dos Kennedy. E é isto: estas duas frases que acabámos de escrever resumem tudo o que se sabe sobre a alegada estadia de Jackie em Setúbal — o que leva alguns especialistas a acreditarem que a história até possa nem ser bem assim. Não há mais certezas.
Sobre a casa, e o arquiteto que a projetou, podem ler os seguintes artigos: "A casa do sr. Conde Armand" e "A obra de um reformador: o architecto Raul Lino".


A casa nova. Foto da revista «A Architectura Portugueza» de junho de 1908.

A casa velha. Foto da página da imobiliária, consultada a 19 de junho de 2016.

É um pouco da nossa conversa que está aqui, José Carlos :)

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Post scriptum:
Este ano o Solstício de Verão ocorre no dia 20 de Junho às 23h34min. Este instante marca o início do Verão no Hemisfério Norte, Estação mais quente do ano. Esta estação prolonga-se por 93,66 dias até ao próximo Equinócio que ocorre no dia 22 de Setembro de 2016 às 15h21min. AQUI.

O relógio de sol partido marca
Do mesmo modo que o inteiro o lapso
        Da mesma hora perdida…
O mesmo gozo com que esqueço, ou o creio,
A vida, finda, me a mim mesmo mostra
        Mais fatal e mortal,
Para onde quer que siga a certa noite
        Quer ou não a vejamos.
AQUI.


Relógios de Sol, Matemática e Astronomia 


Sending a sundial to Mars - Bill Nye

domingo, 12 de junho de 2016

De ninguém e do mundo...

... assim és António, que um dia nasceste, andaste por aqui e partiste, para o lado de lá, a 13 de junho. O lado definitivo, sem retorno, certamente o lado do tempo maior, que perdura enquanto houver quem se queira embalar na tua esperança.

O António é o exemplo, a força da compaixão, a virtude espraiada, a alegria ingénua de uma quadra popular, o que puxa pelo meu lado melhor... o de acreditar que é possível ir mais além no bem, e vencer no bem, senão...

Gosto de ti António, mas que importa isso. Lembra-te disso quando não fazes o que devias fazer, e traís o que acreditas que deves fazer.


Este é o meu Santo António de secretária, obra do João Ferreira. Perdeu o livro e ganhou um reco-reco, encimado por um Galo de Barcelos, e Menino macaquinho ao ombro... tudo ingénuo, simples e lindo.

Deslocado do seu pouso, fiquei indeciso entre o fundo contrastante do tronco do plátano, ou a rudeza da carrasca do pinheiro. É a minha mão que segura.

Gosto de me sentir cidadão do mundo, carregando a minha pele, nu como o irmão Francisco. Porque amanhã é o teu dia, António, não resisti e mandei tudo às urtigas, o que tinha pensado escrever, e surgiu isto que agora termino.

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Post scriptum:

File:Bastein-Lepage Diogenes.jpg
A lanterna de Diógenes... acessa em pleno dia, à procura de...
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bastein-Lepage_Diogenes.jpg

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Folhas de trazer por casa...

... que me acompanham quando saio. A sua escolha foi premeditada, era assunto que tinha em mãos. Fáceis de transportar, prontas para sublinhar, anotar, ou escrever no que sobrar. Abandonar, ou perder, também não é problema de maior. E foi assim que, carregando uma forte dor lombar, me apresentei de manhã na urgência do Hospital de Santa Maria, faz hoje uma semana.

Vários poemas e traduções, uma pequena biografia do autor: Dylan Thomas. Eis o que carregavam as nove folhas, quase todas frente e verso preenchidas. Tinham sido colhidas AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.

Triagem, exame, radiografia, tratamento e veredicto, e o tempo foi passando... dores, de pé ou sentado, corredores e enganos, atenção presa na ansiedade de ouvir o meu nome a ser chamado novamente. De permeio as folhas, o poema, AQUI:

DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT 

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

O confronto com as traduções...


A tradução do Ivan Junqueira, AQUI:

NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA

Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.


A tradução do Augusto de Campos, AQUI:

NÃO VÁS TÃO DOCILMENTE

Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.


E assim não me entreguei, facilmente, ao desanimo. A minha insatisfação ficou entre as duas traduções. Procuraria outras quando chegasse a casa. E porque não tentar a minha? Andei volteando em torno das estrofes, a quinta lançou-me na confusão. Pega e larga, por vezes sem saber o que fazer, a «dor» que se alivia na suposta descoberta de uma via de intrepretação. O incitamento e o sinal de alerta no final de cada estrofe... o poema nos consome e alivia... Do not go gentle into that good despair... Rage, rage against the pain... 

Encontrei mais uma tradução, a do Fernando Guimarães, AQUI:

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE ESCURA

Não entres docilmente nessa noite serena, 
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Numa derradeira tentativa de encontrar mais um contorno para o poema experimentei o Google Tradutor, e ficou ASSIM. Fica em aberto o meu «contorno». A tradução de um poema é sempre um «contorno», mais ou menos conseguido, não só pela forma como é pressentido, como pela língua que lhe irá pedir emprestado o corpo... e o vestir (a silhueta).


Dylan Thomas
https://escamandro.wordpress.com/2014/10/28/dylan-thomas/


Russell Banks, entrevistado pela Euronews, é confrontado com um artigo seu, escrito nos anos 80, sobre Bernie Sanders, e cuja leitura me levou à descoberta deste poema, e poeta, dias antes da minha crise lombar. Tudo perfeitamente não linear :)

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Post scriptum:
Os jacarandás da Rua Dom João V e do Largo do Rato estão lindos.