quinta-feira, 21 de abril de 2016

Maria Pimentel Montenegro.

Uma placa toponímica com nome feminino, poetisa num intervalo de tempo de quarenta e cinco anos. Quem seria?... como poetizaria?... qual o seu semblante? No Google não encontrei um poema, dados biográficos, uma foto, nada, apenas a referência ao nome da rua. Procurei  pelos seus livros, não foi fácil, mas encontrei. Avancei para a sua compra, impaciente... como seriam os seus poemas?


Fica AQUI.

Consegui quatro livros, num investimento total de 40,20€. No entanto o último que comprei, e que representou 59% do valor total, não acrescentou grande coisa ao que já tinha sobre a poetisa, exceto concisão em demasia (falta exatidão no dia e local de nascimento). Trata-se do «Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis», uma relação custo-benefício desfavorável. Por vezes é necessário refrear os implusos, concentrar no essêncial. A impaciência paga-se cara, literalmente. Pode ser que venha a ter algum préstimo futuro. O tipo de letra do título da capa do livro, Egyptienne penso eu, deu-me uma ideia, fica para depois.





Passo a transcrever os dados biográficos e alguns dos seus poemas. Fica o registo para que no Google se encontre algo mais do que apenas um nome de rua. Para que se possa ler e ver a Maria, para que se saiba o que fez na sua janela de tempo. A escolha é minha, subjetiva e apressada o quanto baste, limitada porque sou limitado, com uma certa aversão ao lirismo mais exuberante.  A transcendência de quem se dá e não quer nada em troca, o olhar embevecido pela natureza ao redor, a simplicidade na apreciação, o despojamento em relação ao supérfluo, a fragilidade corporal (a sua doença) e temporal (não somos nada). Foi assim que me aproximei da Maria, mas certamente a Maria é muito mais do que isso.

Levei o que tenho da Maria, os livros, ao Miradouro da Vigia, aliás Miradouro da Condessa de Seisalfigura esquecida, também marcada por uma tragédia. Foi lá que tirei as fotografias, estive sentado, não debaixo da tília desfolhada porque o chão estava inundado, mas no banco ao lado, por debaixo do plátano, já com as primeiras folhas. Arejei as páginas dos livros, imaginei-a sentada, senti a luz na pele e nos olhos. O céu cinzento passou a azul, cavalgado de nuvens de algodão... parecia, e foi o que vi.






No «Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis» consta o seguinte sobre a Maria:


MONTENEGRO, Maria Pimentel (1925 —). Poetisa portuguesa; natural do distrito de Coimbra; irmã da escritora Manuela Montenegro (v.). Quando estava no 2.º ano do liceu fez os primeiros versos. Depois, dedicou-se à literatura, colaborando em diversos jornais e revistas. Durante alguns anos, afastou-se da literatura, por motivos particulares, voltando a aparecer com mais intensidade a partir de 1958. Publicou: Asa Ferida (1960), galardoado com o «Prémio Leitor» instituído num concurso do Diário de Lisboa (1961), 2.ª ed., 1963; Pássaro de Fogo (1962). Tem colaboração disseminada por vários jornais e revistas: Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Letras e Artes, Viagem, Diário dos Açores, Oliva, Jornal de Sintra, Correio Beirão, Notícias de Penacova, O Despertar, O Século Ilustrado, etc. Também tem escrito contos.
O dicionário data de 1967, a Maria tinha publicado até então dois livros. Publicaria mais um livro em vida , «Carta de Prego». Carta fechada que só se abriria em determinadas circunstâncias, contendo instruções para situações de exceção. Terá sido prática corrente na marinha, e é possivel que ficasse presa num prego até ao momento de ser lida pelo comandante do navio, já em alto mar. Não tenho esse livro. É a carta de prego que a Maria nos deixou. Uma despedida?

O primeiro poema que li da Maria foi DÁDIVA, uma bela escolha aleatória, do primeiro livro que chegou às minhas mãos, «Poesias Escolhidas» (1973). Foi o primeiro...

Escolhi sete poemas. Os seis primeiros seguem a ordem cronológica de publicação, o último é inédito. Entre parênteses, a seguir ao título do poema, deixo o motivo da minha escolha / leitura. Digitei os poemas tal como estão nos livros. O espaço entre o final da palavra e o ponto de interrogação, ou ponto e virgula, está impresso assim, e assim ficou.


LAMENTO (é o seu retrato físico)

Senhor, porque me deste
este corpo de garça ondulante,
estas mãos esguias de veias azuladas,
e no meu olhar puseste
o anil das madrugadas ?

Senhor, porque me deste
um coração todo ternura
e à íris dos meus olhos
a sombra da noite escura ?

Senhor porque destino
foi que me deste
esta alma amorosa
e no meio seio pequenino
me puseste
dois botões de rosa ?

Senhor, porque me deste
aos cabelos, do sol e do oiro
a fulva tonalidade
e ao meu olhar
esta expressão de saudade ?

Senhor, porque puseste
no meu corpo efémero
leveza e graça,
e lhe tiraste
a maior virtude ?
Senhor, porque me deste
esta desgraça
de não ter saúde ?






ATÉ SEMPRE (é o seu testamento poético)

Quando se quebrarem as amarras
e a minha Nau for à deriva
por ignoto mar, definitivamente,
não me digam adeus.
Não vertam lágrimas
em vasos de cristal ;
não me pranteiem tristemente.
Quando a minha «barca» me levar
não me acenem com lenços brancos
na partida.
Procurem antes ver-me
(porque eu estarei aí) no rubro gritante
das papoilas que alegram as searas ;
no frescor do orvalho matutino,
na estrela da manhã,
no oiro do Sol poente.
Buscai-me na fragilidade
da flor que desponta e se desfolha ;
nos risos de criança ;
no canto da cotovia,
no perfume da urze,
nas folhas outonais
que o vento arrasta em loucos bailados.
Buscai-me de novo
na espuma de cada onda
que vem de longe
se desfaz e renova.
No murmúrio do regato que canta,
no gemido dos búzios,
em cada astro que brilha,
em cada planeta que surge.
Procurai-me, que eu estarei
sempre convosco
— Poetas, meus irmãos !


DÁDIVA (é o meu primeiro... )

Na alegria de me dar
minhas mãos abri em luz
e atirei-te a uma porção
de claridades e estrelas.
Que me importa, se entre nuvens,
és incapaz de colhê-las ?
(Não há contento maior
que este dar sem receber !)
Teço grinaldas de rosas,
de alegrias e tristeza
e nem sei se me queres bem ...
Ponho o Sol à tua mesa
e um tapete de luar
no teu quarto de dormir.
Em cada areia da praia
Deponho um cravo vermelho
e desfolho malmequeres
e atiro com girassóis
por sobre as águas do mar.
Na crista de cada onda
teço rendas de noivado
para acarinhar teu corpo
quando te fores banhar.
Não há alegria melhor
que é o dar sem possuir.
(E a loucura de me ser
realizando-me em ti
que em meus sonhos adivinho,
e nem sei se tu me queres...)

Na alegria de me dar
sem perguntas ou querelas
semeio no teu caminho
duas mãos cheias de estrelas.


REMORSO DA PALAVRA ESQUECIDA (vezes demais deixamos coisas por dizer)

Sentou-se o mendigo
à minha porta.
Pediu esmola ;
«pela sua saúdita», disse.
Dei-lhe pão e uvas.
Olhou-me, fundo, nos olhos.
Vi a sua solidão
e deixei-o partir
sem a palavra amiga.


TRÂNSITO (desarmante a forma como termina)

Não é este meu grito
o que fica.
Nem o som da trombeta ;
o troar do canhão ou o estertor da cidade.
Ficarão os poemas ...
Nem os poemas talvez.
Apenas o eco de uma voz,
um poente de saudade,
um canto de amor além fronteiras.
Não é este meu clamor, o que fica.
Mas o anseio de fraternidade,
uma música, um poema,
um elo, um símbolo — Continuidade !


SEM JUSTIFICAÇÃO (nonsense)

Sapatos cambaios,
fato a bambolear, coçado.
«... se ao menos chovesse !»
Chuva justificação
Não há dor que a afronte.
Já sofreu demais.
Não é nova nem velha,
Já não tem idade.
Não tem idade para coisa nenhuma.
Passos ... passos ... passos.
Nem frio, nem chuva, nem vento.
Apenas o trilhar incerto
no cerco circundante
de certa mortificação.
Ninguém dirá : — uma pobre mulher.
Só o cansaço nos ombros
e os passos, passos sem rumo
no negro asfalto,
no dia cinzento.
«Se ao menos chovesse ...»

Chuva, justificação.


GESTO AUSENTE (o que me acontece)

No teu jeito de estar ausente
em mim te procuras
e não te encontras.

Caminhamos na latitude zero.
Ecos perdidos
de imutável desencontro.

No costume de ser distante
não sou de ninguém
nem me pertences.

Em ti me procuro
e não te encontro.
Gestos e jeito de ser ausente.


Em memória de Maria, digitalizei e converti para PDF, AQUI.




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P.S. Este blogue completa hoje (21 de abril) dois anos, a Rainha Isabel II do Reino Unido 90, eu chego ao Índio. Estreia hoje «Balada de um Batráquio» no IndieLisboa (11 minutos que iluminam o preconceito e a crendice, é o meu pré-conceito :)).

Prémio Unicórnio Voador 2015, os vencedores em cada uma das três categorias foram revelados no início do corrente mês (não foi mentira :)).

O blogue é naturalmente pessoal, quer isto dizer que, entre outras coisas, os materiais (texto e imagens) são todos desenvolvidos por mim (exceções são devidamente assinaladas), e têm um sentido, por vezes não direto. Por exemplo, hoje precisei da imagem de um prego, poderia simplesmente ir buscar na internet, é fácil, mas não é o meu jeito, tenho para comigo uma exigência de autenticidade. O meu prego, talvez não fosse o que imaginei, mas encontrei este, que até tem ferrugem, perfeito. Depois é o prego do titulo de um dos livros da Maria Pimentel Montenegro, mas também é o prego que marca a passagem de mais um ano. Paulo, tu sabes a que prego me refiro :)

As palavras a azul, ligações que levam a outras páginas, a outras leituras, a outras descobertas, ou que também podem ser a fonte do que verti na minha mensagem, são muito importantes, mesmo aquelas ligações que remetem para o dicionário... as palavras são mágicas, fascinantes, deslumbrantes. Hoje dou muita importância a elas, é como construir um muro de pedras, e as pedras não são tijolos, não são iguais. A parede de pedras vai-se construindo de improviso, é preciso escolher, desbastar um pouco, ajustar... tenho a ideia do muro que quero construir, mas vão acontecendo desvios :)  Os assuntos vão acontecendo ao sabor do tempo :)

Algo a aprender... A.09 Oficina de Experiência Estética e Poesia Contemporânea, 13 Semanas

Algo a ouvir... ENSEMBLE É O NOME DO NOVO ÁLBUM E ESPECTÁCULO

Algo a ler... Segredos Para Envelhecer Com Saúde

Algo a ver... Um autor que muito prezo desde o momento em que li o seu livro Previsivelmente Irracional. Dan Ariely - The Honest Truth About Dishonesty - TAM 2013



«É verdade que o processo de envelhecimento envolve sempre um acentuar do pensamento rígido, das opiniões firmemente mantidas e das atitudes endurecidas. Mas, embora não consigamos derrotar o envelhecimento físico de modo a permanecermos jovens de corpo, não necessitamos de grandes esforço para nos mantermos jovens de espírito. O truque é nunca deixarmos de fazer perguntas e nunca deixar de explorar, sejam novos lugares, seja novas ideias.»

in «A Olho Nu» de Desmond Morris

«Os anos aproximam-se silenciosamente.»
Ovídio

domingo, 10 de abril de 2016

Quem precisa do «raio verde»?

À procura do «raio verde» é o desafio, o pretexto, para os próximos tempos. Fenómeno físico que se pode observar ao nascer ou pôr do sol, resulta da refração da luz, a que se junta a ilusão ótica por via da persistência retiniana.

O Júlio Verne fez dele um romance, o Éric Rohmer um filme, a Maria Pimentel Montenegro um poema, o Marçal Grilo continuava à procura dele na Praia Grande, não sei se entretanto já o viu, e eu venho juntar-me agora aqueles que o procuram, e convidar-vos também.

No filme a explicação encontra-se AQUI e a confirmação AO LADO :). As respetivas legendas AQUI e AQUI... quase chegamos a Waikiki :) gravem os quatro ficheiros para o vosso computador, depois é só visualizar os filmes. Da junção dos dois dá para pressentir o filme, mas o melhor mesmo é ver. A Delphine é...

O poema vem no livro Raio Verde, é a sua abertura, num livro póstumo...


O Sol na sua agonia
ao morrer ainda lança
raio verde, cor de esp'rança
promessa dum novo dia.
E assim da Eternidade —
onde estarei brevemente —
pudesse eu a toda a gente,
desta luz que me alumia,
lançar do azul silente
um raio de claridade.


Entretanto à minha volta, ao nosso redor, não se olha o horizonte, não se sente a brisa no rosto, não se cansa o corpo, não se fala, não se agrega... reduz-se, separa-se, isola-se, uma matriosca que se fecha. Quero (eu não quero) ir-estar na gaiola do consumo, a olhar para um pequeno ecrã táctil, murmurando se me falam, e continuando a dedilhar-olhar as mesmas coisas viciosas... antes fossem viçosas, não grassava a obesidade e a miopia.

«Culture may even be described as that which makes life worth living.»
«Cultura pode até ser descrita como o que torna a vida digna de ser vivida.»

A citação é do Eliot (T. S.) e aparece no prefácio do recente livro «A cultura na vida de todos os dias» do Jorge Barreto Xavier.

Foi este estado de coisas que me levou ontem a pensar: quem precisa do «raio verde»?

Esparso?... volto mais logo...

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P.S.

domingo, 3 de abril de 2016

Veste-me de poesia...

É assim que vejo o POESIA-ME, escarrapachado e garatujado na base de uma coluna que suporta o Aqueduto da Gargantada, em Queluz.


AQUI, no Google Maps.

Mas também podia ser o despir-me para a poesia, como se fosse banhar-me nela, fundir-me, pele, carne e osso em poesia, ou fazer um poema apartir de, ou para: inspiração que desperta na emoção e no sentimento, vida e morte, belo e feio, prazer e dor, e tanto pode ser pessoa ou natureza. Ando às voltas e sinto (é como um vibrar).

Tinha intenção de escrever esta mensagem antes do fim de março (a 21 foi celebrado o Dia Mundial da Poesia), não começaria assim, e teria um seguimento. Das casas de Ruy Belo passaria para as janelas de António Gedeão. Mas assim não aconteceu, tive de pular uma semana, e entretanto apareceu-me o POESIA-ME e uma dor nas costas.

Resolvidas (quase) as dores, vou digitar para vós, e para mim, o poema Aurora boreal do António, apartir do («meu») livro Teatro do Mundo. Este livro é muito meu, está nele Calçada de Carriche, a minha vida parece que anda ao ritmo deste poema, e o livro em si tem uma estória que talvez um dia vos conte.

Encontrei esta semana a «Feira do Mundo», a minha é de papel, de 1967, esta digital, espreitem as páginas 38 a 48. As semanas passam e vão acrescentando, quase perco o fio à meada, mas por vezes algo se encaixa, é o caso: Teatro do Mundo e Feira do Mundo. Coincidências. O mundo é um teatro e uma feira. Representar, comprar e vender. É o que acrescento de uma semana para a outra, e que abre mais um ramo. Divergir. Retomando o leito maior, o que se segue não é «copy e paste».

Aurora boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham oblìquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Ó janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

No poema abrem-se 13 janelas, mas começa por referir que são 40. E as outras?... Serão anos ou um ciclo que começa/termina? E o título Aurora boreal...


Imagem retirada do artigo da Wikipédia sobre Aurora, AQUI.
Imagem retirada do artigo da Wikipédia sobre Aurora Borealis (painting)AQUI.

Onde estão as janelas?... mais parecem cortinas de janelas, ou véus rodopiantes em corpos que não estão lá, e que se imaginam desnudos... o apelo e a sedução do mistério que se assume inexplicável. Fico desconexo. O corpo do poema é palpável, o final inexplicável.

Deixo-vos assim...




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P.S. O que está para vir...

domingo, 20 de março de 2016

Alentejo a descoberto.

Portugal contado e vivido, narrado por quem o viu - e vê - de perto, é um retrato. É neste campo que o livro de análise e interpretação crítica «Alentejo Prometido» se encontra. Não há falta de conhecimento empírico ou de «legitimidade alentejana» (não sei o que isso é). Há sagacidade e vontade de saber o que não se fala, ou se dá por certo: silêncios e clichés, ausência de palavras e afetos, o suicídio. Perscrutar ao seu redor.

São seis capítulos, sem título, mais os agradecimentos... «Aonde pertencerei?»... Não pertence. «A migração familiar que nos fez sair da miséria e que me permitiu desafiar as leis de ferro da minha avó e dos Espírito Santo é também a causa deste vazio. A liberdade tem um preço.»

É o seu relato, de uma realidade que toca milhares de pessoas na Área Metropolitana de Lisboa, com origem nas mais diversas regiões do país, no seu caso Alentejo. É esse olhar sobre o Alentejo, é um retrato do Alentejo, não vale a pena querer tapar o sol com a peneira, ou querer remeter o Henrique Raposo para os arrabaldes de Loures e de Odivelas. Não é Maria Filomena Mónica, mas quem disse que o queria ser? Há honestidade intelectual, não força o entendimento ao preconceito, observa a realidade, trabalha com os dados estatisticos, faz comparações, apresenta hipóteses explicativas, alarga horizontes.

Gosto particularmente de algumas expressões que utiliza (cria), e que são fruto dessa fusão de vivências, por exemplo «o odor a haxixe dos eucaliptos» (destaco a verde mais duas). O suburbano e o rural, o que transgride e o certinho, nada disso, como desonestamente se poderia insinuar. Não precisa de conhecer o cheiro do haxixe, basta sentir o forte cheiro do eucalipto em dias de verão para experimentar o entorpecimento do olfato, e a sua persistência pode causar agonia, estase. São experiências que marcam, como ter de limpar o ânus a uma pedra ou folhas, porque não existe papel higiénico, muito menos casa de banho. Em matéria de falta de hospitalidade e desconfiança o melhor é falar com os técnicos que percorrem o país de norte a sul a montar linhas telefónias, internet e TV, e constatar de viva voz o que nos diz o Henrique. É assim a ruralidade portuguesa.

Convido-vos à leitura do livro. As transcrições que apresento resultam da minha leitura e sublinhados, nesse sentido são subjetivas, mas não deixam de ser as palavras e o pensamento do autor, porque muito se escreve sobre o que se quer pensar.


Postal que acompanha o livro. Fotografia de Pauliana Valente Pimentel.


Capítulo I (15 páginas)
«o Alentejo saltou do Baleizão neorealista para o mapa do escapismo burguês, mas o retrato continua a ser impreciso e dependente de quatro clichés, o silêncio, o calor, a planície, a alegada bondade do povo das aldeias.»
«Era uma vidinha muito etnográfica
«Como todas as famílias de migrantes desenraizados, construímos um Alentejo mítico sem qualquer precisão no traço

Capítulo II (15 páginas)
«O porte sulista exige uma figura esfíngica, quase inerte, que recusa falar com as mãos; o alentejano vive dentro de uma camisa-de-forças emocional que bloqueia a espontaneidade.»
«Diamantina era uma sniper social»
«o odor a haxixe dos eucaliptos»
«Não há ângulos mortos no Alentejo, e a liberdade só é possível num ângulo morto que preserve a nossa intimidade de olhares alheios.»
«Ao sair daqui, ao recusar o estatuto privado de criada, ao aceder ao estatuto público de operária, a minha mãe e a sua geração de mulheres destruíram uma prisão sexual.»

Capítulo III (26 páginas)
«a vida estava traçada desde o nascimento: aos sete anos começava-se a trabalhar como ajudante de pastor, aos catorze passava-se à condição de ganhão (trabalhador sem ofício).»
«A ceifa do trigo domina a grande mitologia alentejana, mas a ceifa do arroz é que era o verdadeiro Gólgota.»
«a gesta alentejana do sofrimento só aceita a dor e a fadiga causadas pelo trabalho manual de sol a sol.»
«É tentador explicar o fenómeno do maltês através da pobreza, mas a explicação não cola por várias razões.»
«É assim o omertà alentejano: as histórias não passam de pai para filho.»
«Num certo sentido, David é o primeiro alentejano a sentir-se parte de Portugal.»
«Talvez seja esta a essência do porte alentejano: o homem da planície fundiu-se com a própria terra, entregou o seu livre-arbítrio à natureza e, em consequência, despromoveu a ação humana (benigna ou maligna) à condição de mera extensão da natureza.»

Capítulo IV (11 páginas)
«a emigração é rara no Alentejo.Não existem maisons e avecs no sul.»
«A posse da terra era o fator de divisão social entre as três classes clássicas: lavradores (senhores da terra), seareiros (não tinham terra mas tinham searas pois arrendavam terra), trabalhadores (nem terra nem seara).»
«Esta informalidade transformou o Alentejo litoral na zona da Europa com maior percentagem de uniões de facto.»
«No Alentejo, não existia nem existe o culto da família alargada.»
«É como se o inconsciente alentejano assumisse que os filhos têm o direito de recusar cuidar dos pais na velhice.»
«a grande especificidade do sul: a cultura do suicídio»

Capítulo V (15 páginas)
«Se o Alentejo litoral fosse um país independente, seria a nação com a taxa de suicídio mais alta do mundo»
«É o fenómeno mais transversal e um fator que reforça a típica tensão alentejana.»
«Ora, o que distingue o Alentejo não é a pobreza, a paisagem, o calor, a solidão ou a genética, mas sim a arrumação do suicídio na prateleira amoral, no ângulo morto da moral.»
«a cultura alentejana não tem as palavras que permitem a contestação moral do suicida. Tal como eu não tinha a palavra certa (pobreza) para descrever a casa dos meus avós, tal como a tia Albertina não tinha a palavra necessária (malária) para sentir piedade por quem fervia em febres tropicais, tal como a minha avó não tinha os conceitos morais necessários (escolher, livre arbítrio) para compreender o meu desejo pela leitura, tal como os meus avôs não tinham o conceito moral (criança) capaz de gerar carinho pelos filhos, tal como os alentejanos do passado que não tinham a palavra certa para diabolizarem os filhos ilegítimos, (bastardo) e tal como as alentejanas que não possuíam o termo certo (violação) para condenarem os abusos que sofriam, os alentejanos de hoje ainda não têm a linguagem adequada para condenarem o suicidio.»
«Longe da visão católica, o Alentejo aproximou-se de Judas e afastou-se de Pedro.»
«Há idosos orgulhosos e ciosos da sua independência em qualquer parte do país, mas é no Alentejo que existe uma cultura que autoriza de imediato o salto para a solução mais rápida.»
«não posso evitar uma óbvia aritmética sentimental: quer no lado materno quer do lado paterno, devo tudo às minhas avós. Posso respeitar os avôs, mas só posso acarinhar as avós.»
«A história um dia fará justiça a esta geração de mulheres que criou o conceito de criança entre o fim da roda dos expostos (final século XIX) e o advento da pílula. E o que é mais espantoso é que elas iniciaram esta revolução mental contra a miséria, contra os elementos e, sobretudo, contra a cultura marialva dos maridos.»
«No campo dos costumes, o Alentejo era progressista e reacionário ao mesmo tempo.»
«O machismo do sul é tão virulento como o machismo do norte, a diferença está na canalização da violência; lá em cima a violência marialva provoca uma explosão, cá em baixo provoca uma implosão, o suicídio.»
«Em comparação com o norte, há mais gritos e desmaios. Há desespero - sinal de uma cultura que não acredita na transcendência e que, em consequência, vê no funeral um final absoluto e não um ponto de passagem.»
«dezenas de mulheres a rezar o terço criam uma cortina de som que proteje a viúva, os filhos, os irmãos; aquele ritmo cadenciado comove-nos e ampara-nos, é a comunidade unida na dor, o funeral deixa de ser uma travessia individual, a morte torna-se menos desesperante. Se o tivesse aprendido a tempo e horas, eu teria rezado o terço ali naquela aldeia junto à fonte do Mondego.»

Capítulo VI (7 páginas)
«A linhagem do velho Alentejo termina aqui o seu caminho, não passará para as minhas filhas.»
«Mas por enquanto sinto demasiadas arestas: o ar desconfiado das pessoas, a distância gerada pela excessiva formalidade, os tabus sobre o passado, a falta de bairrismo, a ausência de liberdade e privacidade, o individualismo radical, a frieza emocional que nunca fala com as mãos e, acima de tudo, a cultura suicida.»
«todo o meu estendal de memórias tem mesmo base factual, não são projecções esperançosas e falsas da minha imaginação ou do meu desejo de pertencer. Mas se não são sonhos também não são âncoras, não me garantem qualquer sentimento de pertença. São pingos, não formam uma corrente capaz de me levar. Não, o Alentejo não é a minha terra prometida.»

Agradecimentos  (3 páginas)
«Alentejo Prometido também resulta de muitas leituras.»
«E só ela sabe o que na verdade este livro representa para mim.»
«Quando chegamos à idade adulta, temos a tentação de pensar que somos apenas o fruto do nosso esforço, das nossas leituras, da nossa inteligência. Não é bem assim.» 

domingo, 13 de março de 2016

Na terra e no céu...

... o que se me oferece, literalmente ao meu encontro vem, e da cor que salta ao olhar o desejo de aproximar, o tocar, o «ler».



Foi o que aconteceu esta semana, prenuncio da primavera. O torpor dos sentidos, que nos recolhe, dá espaço ao abrir de novas janelas de sensibilidade. Os dedos ainda estão frios e insensíveis, mas o olhar puxa, o vento contraria, mas é mais forte o prenuncio da cor... a cor e as formas que se vão preenchendo e sobrepondo...



o caminho que se vai descortinando, desenhando, que é o esperado num renovado inesperado.

A montante da semana tinha encontrado, descoberta para mim, um poema do Ruy Belo sobre as casas AQUI (com tradução para inglês de Richard Zenith), e que transcrevo aqui:
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Nas primeiras leituras o destacado a amarelo levou com o meu contesto, o restante foi, é, de uma clarividência assombrosa, logo eu que gosto de olhar as formas das casas, o que o tempo lhes faz, o que os homens lhe fazem, os letreiros com os nomes das ruas onde ficam as casas, mas que guardo um certo pudor em olhar o interior de casa alheia... a intimidação da intimidade (descobri com o poema).

Continuo sem perceber como podem os pobres conhecer tudo, ou conhecer as casas, e não apenas a casa. É certo que há pobres que trabalham para gente rica, e nesse sentido conhecem um pouco de tudo do que lhes é dado a conhecer. A pobreza acicata e empurra, para o bem e para o mal, deixa marcas, sulca, será esse o conhecer?

Espécie invasora, dito assim é um desconsolo e uma agressão. É a erva-azeda que aparece nas fotos, e cujo nome a Inês me revelou. Oxalis pes-caprae L., nome científico, que não deixa margem para imprecisão.

20 de março, às 04h30, o início da primavera 2016 em Portugal.

21 de março, Dia Mundial da Poesia e Dia Internacional das Florestas. O que fazer.

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P.S.

domingo, 6 de março de 2016

O lado sinistro.

Há quem se ache do lado bom, e queira colocar os que não estão, não querem, ou pura e simplesmente não perdem tempo à procura em que lado ficar, a ficar do outro lado, o lado mau.

Há que barricar-se, não se questionar, aceitar, e se me desagradas, tens opinião contrária à minha, então és um provocador, és alvo da minha ira de deusinho, não és gente, e não te esqueças, estás do lado mau, eu estou, eu sou o lado bom, sou superior porque estou no lado bom, e sobem de tom os insultos e as ameaças (é o rançoso respeitinho dos progressistas).

É à luz deste quadro mental que o Henrique Raposo é crucificado pelo seu livro «Alentejo prometido», livro que está perfeitamente enquadrado no contexto da coleção em que foi editado. Passo a transcrever o que está na primeira página de todos os livros desta coleção: A coleção Retratos da Fundação traz aos leitores um olhar próximo sobre a realidade do país. Portugal contado e vivido, narrado por quem o viu - e vê - de perto.

Quem simplifica demasiado, por desonestidade ou incapacidade intelectual, entrega-se ao rancor e à inveja, não presta atenção ao pormenor, divaga, não analisa, apenas reage (não quer mas é... um reacionário :), recusa-se a ler a opinião, supostamente, contrária à sua. Tudo não passa de uma agressão, a que só sabe dar uma resposta: outra agressão.

É o passar pelo Alentejo a caminho do Algarve, o ir à caça ao Alentejo, ter algum conhecido ou familiar alentejano, comer e beber no Alentejo, tudo não passa de vivências experimentadas no correr fútil das suas vidas, o pouco que têm, as privações materiais ou psicológicas que se tentam compensar. Nasci no Alentejo, fui caçar ao Alentejo, fui de férias ao Algarve, e agora este tipo diz que tudo isto não presta!... eu é que sei, eu é que conheço, sei que é bom... badameco.

O Henrique Raposo também é alvo dos velhos ódios ideológicos, que não lhe perdoam. A visão paranóica, literalmente, do velho Alentejo vermelho a ser atacado pelo perigoso fascista. Eles não sabem, mas é um prolongamento anacrónico (porque repisar o passado é não evoluir, e o seu desconhecimento uma tragédia), do confronto entre Sartre e Aron.

O lançamento do livro será a 8 de março (Dia Internacional da Mulher, não é por acaso Maria Francisca), pelas 18h30, na Bertrand Picoas. Presentes o autor, Henrique Raposo, os escritores José Rentes de Carvalho e Bruno Vieira Amaral, e o diretor de publicações da Fundação Francisco Manuel dos Santos, António Araújo. Entrada livre mediante pré-inscrição AQUI.

Vou continuar a leitura do «Alentejo prometido». Encontro, encontro-me com a minha ligação ao Pé da Serra dos meus avós e pais, estamos na Beira Baixa, mas Belver e o Gavião ficam ali ao lado, o Alto Alentejo, o Baixo Alentejo na Brandoa também, alguns pontos de contacto como a desconfiança e o suicídio.

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P.S. Andei a rever o Henrique da revista Atlântico (como era bom a chegada de um novo número, literalmente devorada :) e o das «caipirinhas de Aron», fica a capa deste último.


Esta mensagem era para ser sobre o Umberto Eco, mas a reação violenta ao livro do Henrique Raposo, e à entrevista de 19 de fevereiro (dia da morte de Umberto Eco) AQUI, ditaram esta mudança. Ainda existe apetite por autos de fé... sinistro. Por onde anda a temperança e a tolerância?