domingo, 20 de março de 2016

Alentejo a descoberto.

Portugal contado e vivido, narrado por quem o viu - e vê - de perto, é um retrato. É neste campo que o livro de análise e interpretação crítica «Alentejo Prometido» se encontra. Não há falta de conhecimento empírico ou de «legitimidade alentejana» (não sei o que isso é). Há sagacidade e vontade de saber o que não se fala, ou se dá por certo: silêncios e clichés, ausência de palavras e afetos, o suicídio. Perscrutar ao seu redor.

São seis capítulos, sem título, mais os agradecimentos... «Aonde pertencerei?»... Não pertence. «A migração familiar que nos fez sair da miséria e que me permitiu desafiar as leis de ferro da minha avó e dos Espírito Santo é também a causa deste vazio. A liberdade tem um preço.»

É o seu relato, de uma realidade que toca milhares de pessoas na Área Metropolitana de Lisboa, com origem nas mais diversas regiões do país, no seu caso Alentejo. É esse olhar sobre o Alentejo, é um retrato do Alentejo, não vale a pena querer tapar o sol com a peneira, ou querer remeter o Henrique Raposo para os arrabaldes de Loures e de Odivelas. Não é Maria Filomena Mónica, mas quem disse que o queria ser? Há honestidade intelectual, não força o entendimento ao preconceito, observa a realidade, trabalha com os dados estatisticos, faz comparações, apresenta hipóteses explicativas, alarga horizontes.

Gosto particularmente de algumas expressões que utiliza (cria), e que são fruto dessa fusão de vivências, por exemplo «o odor a haxixe dos eucaliptos» (destaco a verde mais duas). O suburbano e o rural, o que transgride e o certinho, nada disso, como desonestamente se poderia insinuar. Não precisa de conhecer o cheiro do haxixe, basta sentir o forte cheiro do eucalipto em dias de verão para experimentar o entorpecimento do olfato, e a sua persistência pode causar agonia, estase. São experiências que marcam, como ter de limpar o ânus a uma pedra ou folhas, porque não existe papel higiénico, muito menos casa de banho. Em matéria de falta de hospitalidade e desconfiança o melhor é falar com os técnicos que percorrem o país de norte a sul a montar linhas telefónias, internet e TV, e constatar de viva voz o que nos diz o Henrique. É assim a ruralidade portuguesa.

Convido-vos à leitura do livro. As transcrições que apresento resultam da minha leitura e sublinhados, nesse sentido são subjetivas, mas não deixam de ser as palavras e o pensamento do autor, porque muito se escreve sobre o que se quer pensar.


Postal que acompanha o livro. Fotografia de Pauliana Valente Pimentel.


Capítulo I (15 páginas)
«o Alentejo saltou do Baleizão neorealista para o mapa do escapismo burguês, mas o retrato continua a ser impreciso e dependente de quatro clichés, o silêncio, o calor, a planície, a alegada bondade do povo das aldeias.»
«Era uma vidinha muito etnográfica
«Como todas as famílias de migrantes desenraizados, construímos um Alentejo mítico sem qualquer precisão no traço

Capítulo II (15 páginas)
«O porte sulista exige uma figura esfíngica, quase inerte, que recusa falar com as mãos; o alentejano vive dentro de uma camisa-de-forças emocional que bloqueia a espontaneidade.»
«Diamantina era uma sniper social»
«o odor a haxixe dos eucaliptos»
«Não há ângulos mortos no Alentejo, e a liberdade só é possível num ângulo morto que preserve a nossa intimidade de olhares alheios.»
«Ao sair daqui, ao recusar o estatuto privado de criada, ao aceder ao estatuto público de operária, a minha mãe e a sua geração de mulheres destruíram uma prisão sexual.»

Capítulo III (26 páginas)
«a vida estava traçada desde o nascimento: aos sete anos começava-se a trabalhar como ajudante de pastor, aos catorze passava-se à condição de ganhão (trabalhador sem ofício).»
«A ceifa do trigo domina a grande mitologia alentejana, mas a ceifa do arroz é que era o verdadeiro Gólgota.»
«a gesta alentejana do sofrimento só aceita a dor e a fadiga causadas pelo trabalho manual de sol a sol.»
«É tentador explicar o fenómeno do maltês através da pobreza, mas a explicação não cola por várias razões.»
«É assim o omertà alentejano: as histórias não passam de pai para filho.»
«Num certo sentido, David é o primeiro alentejano a sentir-se parte de Portugal.»
«Talvez seja esta a essência do porte alentejano: o homem da planície fundiu-se com a própria terra, entregou o seu livre-arbítrio à natureza e, em consequência, despromoveu a ação humana (benigna ou maligna) à condição de mera extensão da natureza.»

Capítulo IV (11 páginas)
«a emigração é rara no Alentejo.Não existem maisons e avecs no sul.»
«A posse da terra era o fator de divisão social entre as três classes clássicas: lavradores (senhores da terra), seareiros (não tinham terra mas tinham searas pois arrendavam terra), trabalhadores (nem terra nem seara).»
«Esta informalidade transformou o Alentejo litoral na zona da Europa com maior percentagem de uniões de facto.»
«No Alentejo, não existia nem existe o culto da família alargada.»
«É como se o inconsciente alentejano assumisse que os filhos têm o direito de recusar cuidar dos pais na velhice.»
«a grande especificidade do sul: a cultura do suicídio»

Capítulo V (15 páginas)
«Se o Alentejo litoral fosse um país independente, seria a nação com a taxa de suicídio mais alta do mundo»
«É o fenómeno mais transversal e um fator que reforça a típica tensão alentejana.»
«Ora, o que distingue o Alentejo não é a pobreza, a paisagem, o calor, a solidão ou a genética, mas sim a arrumação do suicídio na prateleira amoral, no ângulo morto da moral.»
«a cultura alentejana não tem as palavras que permitem a contestação moral do suicida. Tal como eu não tinha a palavra certa (pobreza) para descrever a casa dos meus avós, tal como a tia Albertina não tinha a palavra necessária (malária) para sentir piedade por quem fervia em febres tropicais, tal como a minha avó não tinha os conceitos morais necessários (escolher, livre arbítrio) para compreender o meu desejo pela leitura, tal como os meus avôs não tinham o conceito moral (criança) capaz de gerar carinho pelos filhos, tal como os alentejanos do passado que não tinham a palavra certa para diabolizarem os filhos ilegítimos, (bastardo) e tal como as alentejanas que não possuíam o termo certo (violação) para condenarem os abusos que sofriam, os alentejanos de hoje ainda não têm a linguagem adequada para condenarem o suicidio.»
«Longe da visão católica, o Alentejo aproximou-se de Judas e afastou-se de Pedro.»
«Há idosos orgulhosos e ciosos da sua independência em qualquer parte do país, mas é no Alentejo que existe uma cultura que autoriza de imediato o salto para a solução mais rápida.»
«não posso evitar uma óbvia aritmética sentimental: quer no lado materno quer do lado paterno, devo tudo às minhas avós. Posso respeitar os avôs, mas só posso acarinhar as avós.»
«A história um dia fará justiça a esta geração de mulheres que criou o conceito de criança entre o fim da roda dos expostos (final século XIX) e o advento da pílula. E o que é mais espantoso é que elas iniciaram esta revolução mental contra a miséria, contra os elementos e, sobretudo, contra a cultura marialva dos maridos.»
«No campo dos costumes, o Alentejo era progressista e reacionário ao mesmo tempo.»
«O machismo do sul é tão virulento como o machismo do norte, a diferença está na canalização da violência; lá em cima a violência marialva provoca uma explosão, cá em baixo provoca uma implosão, o suicídio.»
«Em comparação com o norte, há mais gritos e desmaios. Há desespero - sinal de uma cultura que não acredita na transcendência e que, em consequência, vê no funeral um final absoluto e não um ponto de passagem.»
«dezenas de mulheres a rezar o terço criam uma cortina de som que proteje a viúva, os filhos, os irmãos; aquele ritmo cadenciado comove-nos e ampara-nos, é a comunidade unida na dor, o funeral deixa de ser uma travessia individual, a morte torna-se menos desesperante. Se o tivesse aprendido a tempo e horas, eu teria rezado o terço ali naquela aldeia junto à fonte do Mondego.»

Capítulo VI (7 páginas)
«A linhagem do velho Alentejo termina aqui o seu caminho, não passará para as minhas filhas.»
«Mas por enquanto sinto demasiadas arestas: o ar desconfiado das pessoas, a distância gerada pela excessiva formalidade, os tabus sobre o passado, a falta de bairrismo, a ausência de liberdade e privacidade, o individualismo radical, a frieza emocional que nunca fala com as mãos e, acima de tudo, a cultura suicida.»
«todo o meu estendal de memórias tem mesmo base factual, não são projecções esperançosas e falsas da minha imaginação ou do meu desejo de pertencer. Mas se não são sonhos também não são âncoras, não me garantem qualquer sentimento de pertença. São pingos, não formam uma corrente capaz de me levar. Não, o Alentejo não é a minha terra prometida.»

Agradecimentos  (3 páginas)
«Alentejo Prometido também resulta de muitas leituras.»
«E só ela sabe o que na verdade este livro representa para mim.»
«Quando chegamos à idade adulta, temos a tentação de pensar que somos apenas o fruto do nosso esforço, das nossas leituras, da nossa inteligência. Não é bem assim.» 

domingo, 13 de março de 2016

Na terra e no céu...

... o que se me oferece, literalmente ao meu encontro vem, e da cor que salta ao olhar o desejo de aproximar, o tocar, o «ler».



Foi o que aconteceu esta semana, prenuncio da primavera. O torpor dos sentidos, que nos recolhe, dá espaço ao abrir de novas janelas de sensibilidade. Os dedos ainda estão frios e insensíveis, mas o olhar puxa, o vento contraria, mas é mais forte o prenuncio da cor... a cor e as formas que se vão preenchendo e sobrepondo...



o caminho que se vai descortinando, desenhando, que é o esperado num renovado inesperado.

A montante da semana tinha encontrado, descoberta para mim, um poema do Ruy Belo sobre as casas AQUI (com tradução para inglês de Richard Zenith), e que transcrevo aqui:
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Nas primeiras leituras o destacado a amarelo levou com o meu contesto, o restante foi, é, de uma clarividência assombrosa, logo eu que gosto de olhar as formas das casas, o que o tempo lhes faz, o que os homens lhe fazem, os letreiros com os nomes das ruas onde ficam as casas, mas que guardo um certo pudor em olhar o interior de casa alheia... a intimidação da intimidade (descobri com o poema).

Continuo sem perceber como podem os pobres conhecer tudo, ou conhecer as casas, e não apenas a casa. É certo que há pobres que trabalham para gente rica, e nesse sentido conhecem um pouco de tudo do que lhes é dado a conhecer. A pobreza acicata e empurra, para o bem e para o mal, deixa marcas, sulca, será esse o conhecer?

Espécie invasora, dito assim é um desconsolo e uma agressão. É a erva-azeda que aparece nas fotos, e cujo nome a Inês me revelou. Oxalis pes-caprae L., nome científico, que não deixa margem para imprecisão.

20 de março, às 04h30, o início da primavera 2016 em Portugal.

21 de março, Dia Mundial da Poesia e Dia Internacional das Florestas. O que fazer.

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P.S.

domingo, 6 de março de 2016

O lado sinistro.

Há quem se ache do lado bom, e queira colocar os que não estão, não querem, ou pura e simplesmente não perdem tempo à procura em que lado ficar, a ficar do outro lado, o lado mau.

Há que barricar-se, não se questionar, aceitar, e se me desagradas, tens opinião contrária à minha, então és um provocador, és alvo da minha ira de deusinho, não és gente, e não te esqueças, estás do lado mau, eu estou, eu sou o lado bom, sou superior porque estou no lado bom, e sobem de tom os insultos e as ameaças (é o rançoso respeitinho dos progressistas).

É à luz deste quadro mental que o Henrique Raposo é crucificado pelo seu livro «Alentejo prometido», livro que está perfeitamente enquadrado no contexto da coleção em que foi editado. Passo a transcrever o que está na primeira página de todos os livros desta coleção: A coleção Retratos da Fundação traz aos leitores um olhar próximo sobre a realidade do país. Portugal contado e vivido, narrado por quem o viu - e vê - de perto.

Quem simplifica demasiado, por desonestidade ou incapacidade intelectual, entrega-se ao rancor e à inveja, não presta atenção ao pormenor, divaga, não analisa, apenas reage (não quer mas é... um reacionário :), recusa-se a ler a opinião, supostamente, contrária à sua. Tudo não passa de uma agressão, a que só sabe dar uma resposta: outra agressão.

É o passar pelo Alentejo a caminho do Algarve, o ir à caça ao Alentejo, ter algum conhecido ou familiar alentejano, comer e beber no Alentejo, tudo não passa de vivências experimentadas no correr fútil das suas vidas, o pouco que têm, as privações materiais ou psicológicas que se tentam compensar. Nasci no Alentejo, fui caçar ao Alentejo, fui de férias ao Algarve, e agora este tipo diz que tudo isto não presta!... eu é que sei, eu é que conheço, sei que é bom... badameco.

O Henrique Raposo também é alvo dos velhos ódios ideológicos, que não lhe perdoam. A visão paranóica, literalmente, do velho Alentejo vermelho a ser atacado pelo perigoso fascista. Eles não sabem, mas é um prolongamento anacrónico (porque repisar o passado é não evoluir, e o seu desconhecimento uma tragédia), do confronto entre Sartre e Aron.

O lançamento do livro será a 8 de março (Dia Internacional da Mulher, não é por acaso Maria Francisca), pelas 18h30, na Bertrand Picoas. Presentes o autor, Henrique Raposo, os escritores José Rentes de Carvalho e Bruno Vieira Amaral, e o diretor de publicações da Fundação Francisco Manuel dos Santos, António Araújo. Entrada livre mediante pré-inscrição AQUI.

Vou continuar a leitura do «Alentejo prometido». Encontro, encontro-me com a minha ligação ao Pé da Serra dos meus avós e pais, estamos na Beira Baixa, mas Belver e o Gavião ficam ali ao lado, o Alto Alentejo, o Baixo Alentejo na Brandoa também, alguns pontos de contacto como a desconfiança e o suicídio.

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P.S. Andei a rever o Henrique da revista Atlântico (como era bom a chegada de um novo número, literalmente devorada :) e o das «caipirinhas de Aron», fica a capa deste último.


Esta mensagem era para ser sobre o Umberto Eco, mas a reação violenta ao livro do Henrique Raposo, e à entrevista de 19 de fevereiro (dia da morte de Umberto Eco) AQUI, ditaram esta mudança. Ainda existe apetite por autos de fé... sinistro. Por onde anda a temperança e a tolerância?

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Capas de ofídio.

 A palavra melancolia prendeu a minha atenção na lista de livros do alfarrabista Jorge, do Nunes. Indaguei sobre o livro (O Livro das Melancolias) e o seu autor, Paulo Mantegazza.

Da pesquisa feita veio uma achega que reforçou a intensão de ir, ver, e tomar posse se fosse do meu agrado. A referência ao livro «resgatado do sótão de casa dos meus pais», aos silêncios, seguido de excerto, no blogue do Pacheco Pereira AQUI.


Depois é a alegria de ir ao alfarrabista, apressado no curto espaço de tempo que o trabalho permite, e em sobressalto, será que o que procuro ainda se lá encontra? Mesmo assim é a minha pausa, o momento entre alfarrábios, permeado de dois dedos de conversa com o Jorge. E depois o melhor, olhos que deslizam à toa (será?) por entre capas e lombadas, por vezes algo me surpreende.


Ainda tinha O Livro das Melancolias, e mais quatro, todos do Paulo Mantegazza, encadernados da mesma forma, provavelmente estariam juntos na mesma biblioteca. Folheio o livro, está em muito bom estado, o Jorge como sempre avisa que o preço já baixou (em relação ao preço de Catálogo), pouso o livro em cima dos restantes quatro, um breve compasso de espera, pego nos cinco e digo: vou levar todos!... notei alguma surpresa no Jorge, provavelmente não estaria à espera de os vender todos de uma só vez. Livros dos anos 20 do século passado, de autor esquecido e temática demodé. Fez-me um preço ainda melhor.


Desmembrar uma biblioteca é violento, faz lembra um corpo supliciado numa roda de tortura, ou então a separação forçada de irmãos, mas é o mais provável de acontecer: o que acontecerá aos meus livros quando eu desaparecer? Vou levar todos!... este meu impulso foi a minha repulsa, o contrariar uma separação quase certa, não seria eu a separar aqueles cinco irmãos, todos vestidos de igual, mas um igual diferente, orgânico. Tive pena. Vieram todos comigo.

As suas capas repetiam um padrão de pele, mas uma pele invulgar. No dia seguinte tive um sobressalto: e se fossem de pele verdadeira? e de que espécie? O que observava ao viés da luz acentuava as suspeitas do tacto, a irregularidade, a cromia e o desenho percebidas pela visão, numa repetição aproximada, não exata, que afasta a hipótese de uma ardilosa pele industrial. A idade dos livros também corrobora esta suspeita.

Por comparação de padrões, capas e fotos na internet, constatei grande semelhança com a pele de um ofídio, da espécie Pitão de Angola, nome científico Python anchietae, nome vulgar catumbela (Lobito). Também tentei saber se a pele de ofídios é usada, ou foi usada, na encadernação de livros, mas não encontrei referência a tal fato. Poderá ser uma experiência pontual, de alguém que esteve em Angola, caçou o animal e resolveu encadernar os livros com a sua pele. Pura especulação minha.

Ainda não falei com o Jorge sobre a origem destes livros, quem foi o seu dono, se é que isso é possivel. Todos eles ostentam o carimbo da Papelaria, Livraria e Tabacaria Eduardo João da Silva, em Faro (Rua D. Francisco Gomes), que também tem a sua história AQUI e foto AQUI.


Deixo AQUI (ficheiro zipado das 10 imagens sem marca identificativa) as digitalizações das 5 capas e 5 contracapas, dos 5 livros, bem como uma possivel reconstituição de partes da pele do animal, com base nas mesmas. Podem experimentar montar este puzzle. As imagens seguintes têm uma marca identificativa que se refere ao nome do livro, e respetiva capa (F de frente) e contracapa (V de verso). A orientação das imagens respeita a colocação vertical do livro na estante, permitindo a leitura horizontal do título na lombada.









Consegui discernir dois grupos de imagens que apresentam um certo grau de contiguidade, um com 5 imagens e o outro com 4 imagens. Deixei de fora a capa ST-F por não se encaixar em nenhum dos grupos. Visualizando fica assim:





Melhores propostas são bem vindas :) Mais uma nota curiosa AQUI.

Esta estória começou a 19 de fevereiro de 2016, no dia em que comprei esta inquietação (os 5 livros), no dia em que morreu Umberto Eco.
«... Um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós. 
... A função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes. 
... Se a biblioteca é, como pretende Borges, um modelo do Universo, tentemos transformá-la num universo à medida do homem e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem numa maple e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu flirt na biblioteca, enquanto retiram ou voltam a pôr nas estantes alguns livros de interesse científico, isto é, uma biblioteca onde apeteça ir e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina de tempos livres...». 
Umberto Eco
Excerto AQUI

Será assunto a desenvolver.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O «sexo dos anjos».

Voltando aos mapas do meu post anterior, destaco quatro, os meus preferidos, o porquê da sua escolha.


A surpresa não é o lado para onde tomba o reprimido, mas saber que o outro lado também é reprimido. Afinal não é só o sul.






Não damos por isso mas fazemos uma grande barulheira. (Re)vejam esta cena do filme Amarcord do Fellini, hilariante, somos nós.




A minha discordância, só quem não nos conhece não conhece o desenrascanço nacional. O mapa correto é assim...



Lentamente caminhamos para o comer andando, mas por enquanto fica a constatação de um salutar hábito.



Mas tudo isto não passa de inutilidades, a exemplo da discussão sobre o «sexo dos anjos» aquando da Queda de Constantinopla.

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P.S. Já estou a preparar a minha visita à «The Tall Ships Races Lisboa 2016». AQUI está a minha folha de escolhas: a verde navios prioritários a visitar, a sublinhado navios com alguma especificidade, a amarelo o significado do nome do navio. AQUI.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O «Receitas» abalou.

Era tema recorrente de conversa, sempre que se encontravam, em jeito de aviso e conselho amigo: «o primo Abel está a deixar-se engordar», «está mais gordo», «tenha cuidado e não se deixe engordar», «olhe que está a ficar mais gordo», ao que se seguiam alguns conselhos para obviar e inverter tal situação.

Não sei se por irritação ou graça, um pouco das duas, ou outra razão que não alcanço, o Abel resolveu batizar o primo com uma alcunha: «Receitas», «O Receitas».

Foi alcunha que ficou só entre nós (Lourdes, Paulo, Elias, Laura, Carlos, Manuela, Maria Elvira, Lurdes e José Maria), nunca a revelou ao primo, nem a outros familiares.

Esta semana o primo abalou (ver palavra abalar no Dicionário de Regionalismos e Arcaísmos (DRA) | José Leite de Vasconcelos), o Abel está com Alzheimer, será que ainda se recorda do «Receitas»?, e dou comigo a relembrar tudo isto ao som dos Baile Popular, música «20 ou 30» («cada qual tem o seu jeito, de mostrar o seu respeito, ao primeiro que abalou»).

 É o desfilar implacável do tempo à minha frente, com os seus avisos, o que está ao meu alcance para o obviar, reescrevendo o meu fim a cada dia, e alcançar um fim mais feliz. Foi nesta linha de pensamento que partilhei convosco, Paulo, Manuela e Roberta, no velório do primo Ricardo, o meu entusiasmo pelo livro «Ser Mortal», e a referência que fiz ao prefácio do neurocirurgião João Lobo Antunes, que termina assim: Este livro sobre o qual escrevi estas palavras ficará na minha Biblioteca, esperando que um dia alguém o leve… como jóia.

Também vos falei do artigo da revista National Geographic (Paulo, tens aqui uma surpresa para ti) de janeiro de 2016, «Eis o seu cérebro ao ar livre» (O poder da natureza), o aporte que a natureza pode dar à nossa saúde mental, a juntar aos fatores rendimento, formação e emprego. O problema é que esquecemos, e o tempo passa, e não é a moda ou o pontual que faz a diferença, mas a constância de uma inquietude saudável, num corpo ativo e leve, que vai desfrutando a vida, com sabedoria, no equilíbrio... e a alegria surge... não é fácil, é sempre tempo de mudar, mas quanto mais tempo passar mais difícil o mudar, e conseguir contrariar o lastro de desequilíbrio acumulado. Por vezes é preciso «atirar borda fora».

E foi assim o fim de um dia, do fim de alguém, espelho do fim ou o fim no espelho... e como será enfrentar o fim?

«Últimas palavras» e «Mais «últimas palavras»» títulos de dois artigos do Eugénio Lisboa na Revista Ler, maio de 2015 e verão de 2015, respetivamente. O fim no «sopro» da palavra, passado à letra, com uma certa leveza e descontração, patética talvez, mas que já por inumeras vezes tinha pensado abordar e apresentar. A pretexto do momento aqui ficam os dois artigos (o melhor será imprimir e ler).




Acrescento as minhas últimas palavras: agora vou saber se tu existes.

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P.S.

  • Gostei tanto destes mapas (agradeço ao Osvaldo a sua descoberta) que resolvi incluí-los todos numa folha, para imprimir e colar na parede. São o que são, estereótipos, que todos nós entendemos.



domingo, 31 de janeiro de 2016

Que se caixote.

January 25, 2016. (Giuseppe Lami/ANSA via AP) AQUI

Parece o armazém de uma loja de eletrodomésticos, talvez frigoríficos, com um elemento decorativo kitsch do lado esquerdo (coluna), e um estranho penacho no cimo de uma das caixas... na minha imaginação seria a extremidade da cauda de um leão. Mas tudo não passa de equívocos, devaneios.

(AP Photo/Gregorio Borgia) AQUI

Afinal não estamos num armazém, mas num museu, por sinal um dos mais importantes de Roma (Musei Capitolini), que desconhecia... e como me dói a minha ignorância. Dentro das caixas, que não são caixas, não estão frigoríficos, mas duas esculturas que agora se revelam.

O video que encontram AQUI permitiu-me fazer a sua identificação. À esquerda o «velho pastor», à direita o «fauno com cesto de uvas» (afinal não são os pelos da cauda de um leão).

Apreciando melhor o «velho pastor»...

Fotos de Luca Cerabona AQUI


e o «fauno com cesto de uvas»...


Foto de Sailko AQUI

fica a dúvida de tamanha ocultação. Talvez um pouco de luz, crua...


Cartoon de Cecigian AQUI


Cartoon de Elchicotriste AQUI

A «música» está no ar... um reparo: o verde das notas por azul e o $ por €.


Foto de Gregorio Borgia/Associated Press AQUI
A estátua equestre de Marco Aurélio (reproduzida na face da moeda italiana de 50 cêntimosescapou ao encaixotamento. Presumo que a genitália do cavalo esteja exposta, e a perspetiva se preste à contemplação, detalhada.

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P.S.